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Há mais de 50 anos, o professor James Bedford espera ser ressuscitado

Ele foi o primeiro paciente da criônica, a tentativa de congelar alguém para revivê-lo com as tecnologias do futuro. Mas, até hoje, o consenso entre médicos é inconclusivo

Redação Publicado em 10/09/2019, às 16h00

O congelamento do primeiro paciente
O congelamento do primeiro paciente - Reprodução

O professor de psicologia da Universidade da Califórnia tinha 73 anos quando padeceu da metástase de um câncer nos rins, em 12 de janeiro de 1967. Horas depois, seu sangue foi substituído por dimetil sulfóxido, um composto capaz de evitar que as células humanas sejam destruídas no congelamento.

O corpo então passaria por cinco instalações diferentes, inclusive uma criada por seus próprios filhos, até ir parar na Fundação Alcor de Extensão da Vida, em 1982, onde permanece até hoje.

Na esperança de que a tecnologia avance a ponto de ressuscitá-lo. O que, 51 anos depois, parece ainda muito improvável.

Eternidade no nitrogênio

Desde 1967, mais de 300 outros se juntaram ao Dr. Bedford na Alcor e outras instituições de criônica, a técnica de preservar corpos para o futuro (não confunda com criogenia, que é a aplicação médica do frio em gente viva). Eles repousam em grandes tanques com nitrogênio líquido, a -196 ºC.

James Bedford / Crédito: Reprodução

 

São 4 instalações, 3 nos EUA e uma na Rússia, onde 56 estão sob os cuidados da ONG KrioRus - alguns deles, com apenas a cabeça congelada, acreditando que o resto do corpo possa ser reconstruído.

Para a maioria dos cientistas, a chance dessas pessoas voltarem no futuro são mínimas. O escritor de ciência Michael Shermer chegou a comparar descongelar uma pessoa com descongelar uma lata de morangos. "Quando descongelado, toda gosma intracelular vaza, transformando seus morangos numa meleca líquida."

Uma outra morte

James Bedford foi congelado pela iniciativa da Life Extension Society, criada em 1964.

Era uma época de uma grande mudança na medicina. Por toda a história, a parada do coração e da respiração - que vêm ao mesmo tempo - era considerada o momento da morte. Então surgiram os métodos modernos de reanimação cardiorrespiratória. As pessoas passaram a ressuscitar após seu coração ter parado.

Ressuscitar pelo conceito antigo, isto é. Por causa desses procedimentos, a ideia da própria morte teve de ser revista. Hoje falamos em morte cerebral, quando o dano causado por trauma ou falta do oxigênio, da parada cardiorrespiratória, torna impossível recuperar a consciência.

E a esperança dos defensores da criônica é que tenha que ser revista novamente. Que os mortos congelados só estejam mortos por uma definição que um dia será superada.

A cápsula contendo o corpo de James Bedford / Crédito: Reprodução

 

Mas justamente a história da revisão é algo que pesa contra suas esperanças.

Cérebro apagado

Falamos em morte cerebral porque, numa situação de isquemia cerebral - falta de oxigênio e alimentação pelo sangue - o cérebro começa a ser destruído na chamada cascata isquêmica, que começa meros minutos após a parada circulatória.

E esse dano, irreversível, significa a decomposição das memórias, personalidade, ideias... enfim, tudo o que faz uma pessoa ser pessoa.

Há muito debate sobre quanto tempo leva para alguém legalmente morto ser totalmente apagado. A maioria dos médicos fala em 5 minutos. Muito mais otimistas, os praticantes da criônica dizem até 24 horas , e tentam atrasas o processo no que chamam de estabilização. Desde o fim dos anos 1990, também existe a vitrificação, na qual o corpo é congelado sem cristais de gelo, evitando o dano da "meleca de morango".

Tudo é especulação. Mas mesmo se for um dia for possível recuperar os mortos de suas doenças finais, e mesmo se a estabilização moderna funcionar e a informação cerebral for recuperada, provavelmente não há qualquer esperança para o Dr. Bedford, congelado de forma tradicional horas após sua morte. E nem para a maioria dos que, mortos, esperam pelo futuro.