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Há exatos 51 anos, Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos pela Ditadura Militar

O encarceramento representou o fim da Tropicália no Brasil e o começo de intensos anos de perseguição e exílio

Pamela Malva Publicado em 27/12/2019, às 08h00

Caetano Veloso e Gilberto Gil cantando em 1994
Caetano Veloso e Gilberto Gil cantando em 1994 - Getty Images

Em outubro de 1968, Caetano Veloso e Os Mutantes fizeram uma série de shows na boate Sucata, no Rio de Janeiro. Gilberto Gil e Gal Costa era os convidados especiais nas apresentações.

No palco, junto com os cantores, eles escolheram divulgar um desenho de Hélio Oiticica. A ilustração era composta por um homem morto e a inscrição: “seja marginal, seja herói”.

O público se dividiu, metade ficou ultrajada com a afronta ao regime militar e metade ficou entusiasmada com a ideologia dos artistas. O problema começou quando, em dezembro, o governo ficou sabendo das apresentações.

Naquele mês, um jornalista noticiou que, durante a Ditadura Militar, Gil e Caetano teriam desrespeitado o hino nacional, protestando publicamente contra o regime que havia sido instaurado no Brasil. Não demorou muito para que a polícia tomasse providências.

Caetano Veloso em 1972 / Crédito: Getty Images

 

No dia 27 de dezembro de 1968, apenas 14 dias depois do decreto do AI-5 — que abriu portas para os conhecidos anos de chumbo —, os dois baianos foram surpreendidos. Logo de manhã, há 51 anos, a Academia Militar das Agulhas Negras, um centro de formação superior das Forças Armadas, apareceu à porta.

Os amigos precursores da tropicália estavam na casa de Caetano, no centro de São Paulo. A ação foi rápida e, logo, os cantores foram levados ao Rio de Janeiro. Já de cabeças raspadas como símbolo de sua prisão, os dois souberam o motivo.

Caetano e Gil foram encarcerados por “tentativa da quebra do direito e da ordem institucional", usando de mensagens "objetivas e subjetivas à população" como uma forma de criticar e se rebelar contra o governo da época. Sendo assim, os dois foram presos por supostamente ofender a bandeira e hino nacional brasileiros na ditadura.

Depois disso, deu-se início à um duro período de interrogatórios e longas acusações. Em janeiro de 1969, os cantores foram transferidos para quartéis separados nos quais, cada um por si só, foram questionados e escutaram aos gritos das pessoas sendo torturadas logo na sala ao lado.

Gilberto Gil em 1960 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um mês depois, em fevereiro, plena Quarta-Feira de Cinzas, Gil e Caetano, considerados inocentes, foram soltos. Entretanto, ainda estavam em prisão domiciliar em Salvador. Por essa condição, não podiam trabalhar e deveriam ir à Polícia Federal todos os dias.

Meses depois, em julho, os cantores foram aconselhados a deixar o país e buscar exílio. Durante uma intensa semana, fizeram shows para arrecadar dinheiro — alguns sendo registrados no disco Barra 69 — e, então, rumaram para Londres, na companhia de esposas e empresários .

Em outras terras, os cantores baianos passaram por diversos momentos. Em alguns deles, conseguiram produzir novas letras e melodias, mas, em outros, enfrentaram espirais negativos. Caetano, por exemplo, ficou deprimido, enquanto Gil conhecia artistas hippies.

No entanto, em determinada situação, ambos se encontraram em um período criativo e muito rico. Lá, conheceram Jimi Hendrix, Caetano revisitou o disco London, London — que lançou em 1971 — e Gil eternizou algumas de suas memórias na canção Back in Bahia, do álbum Expresso 2222.

Após passar por tantas experiências — desde conquistar o público europeu, até compor em inglês —, Caetano e Gil viram as portas brasileiras se abrindo para eles novamente. Assim, após anos de perseguição e exílio, voltaram ao Brasil em 1972.


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