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Em entrevista de 1923, Hitler evidenciou seu ódio pelo comunismo

Diferente do que muitos acreditam atualmente, o futuro tirano nazista destilou todo seu ódio contra o “bolchevismo implantado na nação” na República de Weimar. Hitler também chegou a debochar de quem chamava os nazistas de esquerdistas

Fabio Previdelli Publicado em 09/12/2019, às 11h33

Adolf Hitler levanta um punho desafiador e cerrado durante um discurso
Adolf Hitler levanta um punho desafiador e cerrado durante um discurso - Getty Images

À frente do Partido Nacional-Socialista Alemão, a adoração pelo puritanismo e a ideologia antissemita de Hitler foram responsáveis pelas duas maiores tragédias da história da humanidade durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas apesar da alcunha Socialista do partido, podemos mesmo afirmar que Hitler seguia uma ideologia de esquerda?

Apesar dessa ideia ter sido difundida nas redes sociais nos últimos meses, ela vai totalmente na contramão da maneira que os mais famosos historiadores daquele período analisavam a real situação do Partido Nazista.

Para se ter noção do quão absurdo seria esse pensamento naquele tempo, no Mein Kampf, que foi escrito pelo ditador alemão há mais de 90 anos, Hitler escreveu que não gostava de quem dizia isso, dando gargalhadas quando alguém chama os nazistas de “esquerdistas”.

Todo esse menosprezo de Hitler pode ser conferido no capítulo que tem o sugestivo nome de “A luta contra a frente vermelha”.

O chanceler alemão Adolf Hitler com Herr Lutze, seu chefe de gabinete, durante uma revisão das tropas de assalto em Berlim para marcar o terceiro aniversário da ascensão de Hitler ao poder / Crédito: Getty Images

 

Como se já não bastasse tamanha afirmação, em 1923, o jornal britânico The Guardian publicou uma entrevista que o repórter George Sylvester Viereck fez com Führer. Durante o episódio, isso fica ainda mais evidente.

Intitulada de “Não há espaço para o estrangeiro, não há utilidade para o vagabundo”, o futuro tirano destila todo seu ódio contra o pensamento esquerdista e joga toda a culpa da falência da Alemanha no “bolchevismo implantado na nação” pela República de Weimar. Confira um trecho da entrevista:

“Quando eu tomar conta da Alemanha, acabarei com o tributo externo e o bolchevismo em casa”, declarou Adolf Hitler esvaziando a xícara como se não contivesse chá, mas a alma do bolchevismo.

O “bolchevismo”, continuou, o chefe dos camisas pardas da Alemanha fascistas, olhando fixamente para mim “é nossa maior ameaça. Matar o bolchevismo na Alemanha e restaurar 70 milhões de pessoas ao poder. A França deve sua força não aos seus exércitos mas às forças do bolchevismo e da dissensão em nosso meio”.

"O Tratado de Versalhes e o Tratado de St Germain são mantidos vivos pelo bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são duas cabeças de um monstro. Devemos decapitar ambos”, concluiu.

Por que, perguntei a Hitler, você se define como um nacional-socialista se o programa de seu partido é a própria antítese do que é comumente associado ao socialismo?

“O Socialismo”, ele retruca, abaixando sua xícara de chá, firmemente “é a ciência de lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu tirarei o socialismo dos socialistas”.

“O socialismo é uma instituição ariana germânica antiga. Nossos ancestrais alemães mantinham certas terras em comum. Eles cultivavam a ideia do bem comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada. O marxismo não envolve negação da personalidade e, ao contrário do marxismo, é patriótico”.

"Poderíamos nos chamar Partido Liberal. Optamos por nos chamar de Nacional-Socialistas. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o cumprimento das reivindicações justas das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial." Para nós, estado e raça são um”.

O ditador alemão Adolf Hitler em vários momentos durante a apresentação de um discurso / Crédito: Getty Images

 

O que — continuei meu interrogatório — são as tábuas fundamentais da sua plataforma?

“Hitler: “Acreditamos em uma mente saudável em um corpo saudável. O corpo político deve ser sadio se a alma quiser ser saudável. A saúde moral e física são sinônimas”, disse.

Mussolini, o interrompi, disse o mesmo para mim. Hitler sorriu.

“As favelas”, ele acrescentou “são responsáveis ​​por nove décimos, o álcool por um décimo de toda depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Homens saudáveis ​​reconhecem o valor da personalidade”.