Matérias » Brasil

Horror e abuso de poder: Coronel Ustra, o maior torturador da ditadura militar

A partir de relatos e análises documentais, é possível traçar o perfil do torturador e a forma como ele violentava prisioneiros para conseguir informações

André Nogueira Publicado em 15/09/2019, às 09h00

None
- Reprodução

Por sua condenação – única do país – e as homenagens feitas a ele, Carlos Alberto Brilhante Ustra tornou-se símbolo da brutalidade dos crimes da Ditadura Militar. São diversos os relatos de sessões de tortura capitaneados pelo chefe do II Exército, entre militantes, políticos e membros da sociedade civil.

“Eu fui espancada por ele ainda no pátio do DOI-CODI. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando ‘sua terrorista’. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”, relata Amelinha Teles, na época do PCdoB quando passou pelas mãos do Dr. Tibiriçá.

Como coronel, era um astuto estrategista. Seus métodos de tortura implicavam em alguns compromissos que passavam pela desumanização do refém, a fragilização do psicológico do torturado para o fim de adquirir informações e, inclusive, pela necessidade de tornar todo o processo o mais discreto possível, para que fosse viável negar a existência.

Ustra na CNV / Crédito: Reprodução

 

Além dos clássicos métodos aprendidos pelo Exército, como pau-de-arara, afogamento, eletrochoque e a palmatória, a tortura para Ustra foi responsável pelo desenvolvimento de formas brutais de violência física e psicológica baseadas numa compreensão das fragilidades do preso. Por isso, o coronel costumava acompanhar a ficha do detento com seu histórico familiar.

Isso porque, além da dor física, o torturador tinha a indecência de envolver familiares (principalmente mães, esposas e filhos) nas sessões de horror. 

“Ele leva meus filhos para uma sala, onde eu me encontrava na cadeira do dragão, nua, vomitada, urinada, e ele leva meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos tinham 5 e 4 anos. Foi a pior tortura que eu passei”, levanta Teles.

Outro aspecto do método para torturar presos era a condução das práticas e o uso de ferramentas ao extremo do invasivo, gerando ao mesmo tempo o desconforto, a dor física e a criação do sentimento de vulnerabilidade. Ratos na vagina, madeira no ânus, estupros e afogamentos eram consideravelmente corriqueiros, até onde é possível conhecer.

Pau-de-arara / Crédito: Reprodução

 

Gilberto Natalini, atualmente político do PV, assim como Dilma Rousseff, é um dos atuais governantes do Brasil que passaram na mão do torturador - a diferença é que Natalini nunca se envolveu com a luta armada.

"Tiraram a minha roupa e me obrigaram a subir em duas latas. Conectaram fios ao meu corpo e me jogaram água com sal. Enquanto me dava choques, Ustra me batia com um cipó e gritava me pedindo informações", relembra. "A tortura comprometeu minha audição. Mas as marcas que ela deixou não são só físicas, mas também psicológicas”. 

Como a conduta policial de Ustra era brutalmente violenta, muitas sessões de tortura do DOI-CODI de São Paulo acabaram em óbito. Natalini acusa o coronel de ser responsável diretamente pela morte de 60 pessoas durante a Ditadura.

Duas características da forma como Ustra torturava eram incrivelmente assustadoras. A primeira é o fato de que, mesmo no campo da violência verbal, a vontade de desestabilizar o refém possibilitava qualquer tipo de humilhação e pressão, o que desembocava no sadismo dele, muitas vezes relatado.

Natalini e Ustra batem boca na CNV / Crédito: Reprodução

 

Natalini relatou à CNV que o torturador bateu pessoalmente nele, e que era possível compreender um certo gozo dele naquela ação. “Ele era muito violento, era um doente mental. Ninguém pode, em sã consciência, torturar uma pessoa. Uma pessoa assim não é um humano normal. O Ustra era um ser desse tipo. Ele passava da serenidade máxima para a demência máxima.”

Ele sempre justificou sua ação como forma bruta de resolver o também bruto problema dos terroristas de esquerda no país. Porém, muitos reféns das torturas dele não eram membros da luta armada e mesmo os que foram sofreram com ações extremas que desviavam da pura necessidade de conter a guerra social. Existia sadismo e abuso de poder nas ações do Dr. Tibiriçá.

Quando a CNV ganhou autonomia o suficiente para ter ações legítimas conta a memória dos ditadores e torturadores, Ustra se tornou o primeiro oficial condenado em ação declaratória por sequestro e tortura. Porém, o torturador morreu em liberdade, vítima de um câncer de próstata e pneumonia.