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Ibn Battuta: O jovem marroquino que viajou por quase 50 países durante a Idade Média

No início do século 14, o viajante percorreu o equivalente a três voltas ao mundo, passando por África, Oriente Médio e Ásia Central

Isabelle Somma Publicado em 27/12/2019, às 08h00

Battuta
Battuta - Wikimedia Commons

Aos 21 anos, Ibn Battuta decidiu que era hora de cumprir o haji, um dos cinco pilares da fé muçulmana. Juntou algumas poucas economias e partiu para a cidade sagrada de Meca. Gostou da experiência e seguiu pela estrada. Assim fez por quase três décadas, percorrendo 120 mil quilômetros, o equivalente a três voltas ao mundo.

O jovem de origem marroquina passou por pelo menos 44 países da atualidade, inclusive os lugares mais sagrados do Islã e a famosa Rota da Seda. Conheceu os assustadores mongóis, virou juiz na Índia e nas ilhas Maldivas e atravessou o sul da China. Sobreviveu a naufrágios, a ataques de piratas e ao jugo de tiranos e se tornou um dos viajantes mais famosos da Idade Média.

Pouco se sabe sobre Battuta além do seu próprio relato. Conhecido como Rihla, o gênero literário árabe de descrições de viagem, o texto do andarilho foi narrado por ele a um escriba profissional, Ibn Juzayy, contratado pelo governante marroquino Abu Inan, usando as notas que tomou enquanto esteve longe da terra natal. Suspeita-se também que, além de copiar o que lhe era ditado, o escriba acrescentou alguns cacos e histórias de outros viajantes e historiadores anteriores.

"O próprio redator tece também seus comentários, alertando o leitor, porém, sobre sua identidade. Alguns estudiosos põem em dúvida que a ordem da narrativa corresponda ao espaço de deslocamento de Ibn Battuta e que ele tenha ido a todos os locais que diz ter visitado", afirma o historiador José Rivair Macedo, da UFRS, autor de um documentário sobre o aventureiro.

Para além dos floreios e exageros, o relato do viajante oferece um testemunho bastante acurado sobre sociedades localizadas na África, no Oriente Médio e na Ásia Central, além de Al Andalus, o território na península Ibérica que era dominado por muçulmanos.

"O relato é extraordinário, pois Battuta não fala apenas sobre a diversidade no Islã, mas considera grupos como os hindus, que não são ahl al-kitab (que não seguem uma revelação escrita, como judeus e cristãos). Quando descreve uma viúva hindu sendo queimada (na pira de cremação do marido), por exemplo, ele enfatiza que desmaiou e quase caiu do cavalo", afirma Nina Berman, especialista em viajantes medievais da Universidade do Estado de Ohio.

Battuta provavelmente não esperava encontrar tanta diversidade. Afinal, ele optou por viajar somente em territórios sob o domínio muçulmano. E há uma explicação bem razoável para isso. Como membros da elite e governantes muçulmanos falavam árabe, como ele, a comunicação não seria um problema.

Conseguir trabalho e ser bem recebido também não foi difícil. Outra das principais razões de o marroquino circular livremente pelo mundo islâmico foi o fato de ter estudado leis antes de partir, facilitando que encontrasse emprego onde fosse, sobretudo como juiz.

"Questões legais eram negociadas em árabe e ele oferecia seus préstimos em lugares distantes, como as ilhas Maldivas", diz Berman. Ser árbitro em locais tão distintos não era lá muito fácil. Battuta sofreu, por exemplo, para tentar aplicar o código islâmico de vestimenta feminina nas tropicais Maldivas.

Ilustração da rota de Ibn Battuta / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Quando eu era um qadi (juiz) lá, eu tentei colocar um fim a essa prática e ordenei a elas (às nativas) que vestissem roupas, mas não tive sucesso", relatou, contratado pela rainha local. Mesmo assim, ele permaneceu no posto por quase dois anos, contrariando seu costume de passar pouco tempo em cada lugar.

Bom observador

A importância do testemunho de Ibn Battuta está, principalmente, em constituir o único registro escrito da existência histórica de certos governos, reis e cortes. Entre os relatos mais preciosos está o do reinado de Mansa Sulaiman, no Mali. "Pela descrição, se pode avaliar a natureza do poder do governante, as hierarquias políticas dos membros da corte, os diferentes grupos que lideravam as forças militares e os rituais praticados no antigo Mali.

São ressaltados a riqueza e o poder do mais importante estado africano desenvolvido na região da savana antes do século 16", diz Macedo. O atento viajante não deixou de anotar que achava Sulaiman bastante sovina — e lamentou que, ao chegar à rica corte local, recebeu apenas alguns pedaços de pão como banquete de boas-vindas.

Ele também ficou bastante impressionado com a destruição provocada pelo avanço mongol por toda a Rota da Seda. Do que viu, destacou Bukhara, que fora uma rica cidade persa até 1220 (no atual Uzbequistão). "Atualmente, suas mesquitas, suas escolas e seus bazares estão todos em ruínas, exceto alguns", escreveu sobre a passagem avassaladora de Gêngis Khan por lá.

Também esteve em Bagdá quase 80 anos depois da destruição da capital do califado abássida pelas hordas de Hulagu, neto do Khan. Porém, quando Battuta visitou a região, os mongóis haviam se islamizado e ele não encontrou problemas para atravessar os territórios que ocupavam.

A Rihla, contudo, revela poucas informações objetivas sobre o autor. Sabe-se apenas que nasceu em Tânger, em 1304. Perdeu os pais enquanto estava fora. E casou-se várias vezes em diferentes lugares. "Battuta teve quatro esposas nas ilhas Maldivas. Algumas delas tiveram filhos. Em todos os casos, ele as deixou e seguiu o seu caminho. Também teve mulheres como concubinas viajantes e falou mais sobre elas do que sobre suas esposas", diz Ross E. Dunn, professor da Universidade Estadual de San Diego e biógrafo do aventureiro.

Viajar naquele tempo não era nada fácil. Em sua primeira escala em Meca, ele embarcou na costa do Marrocos, cruzou o Mediterrâneo até Alexandria e depois desceu o Nilo até chegar a um porto do lado egípcio do mar Vermelho. De lá, só precisaria atravessar o mar de barco até atingir a península Arábica. Mas a travessia era perigosa e o mar estava infestado de piratas.

Teve de dar meia volta até o Delta egípcio e seguir por terra até a Síria. Na capital, Damasco, se uniu a uma caravana de mercadores - a forma mais segura de chegar à cidade sagrada no início do século 14. Tardou meses somente para alcançar o primeiro destino. "No deserto, há muitos gênios malignos. Quando o guia da caravana está só, eles aparecem e brincam com ele, atraindo sua atenção, desviando-o do seu rumo e levando-o à morte, pois não há caminho visível nem qualquer ponto de referência, apenas areia que se move a todo instante com o vento", diz Battuta.

Naquela época, a maioria dos viajantes era formada por peregrinos, mercadores e soldados, que faziam grandes trajetos por mar ou terra. Não havia turismo como hoje. "A viagem por terra era lenta. Os pobres viajavam a pé e os ricos a cavalo ou, às vezes, de carroça. A pé, o viajante fazia, em média, de 20 a 40 quilômetros por dia", afirma Berman.

Ilustração de Ibn Battuta durante sua viagem / Crédito: Wikimedia Commons

 

As estradas não eram pavimentadas e implicavam um grande risco. Bandoleiros controlavam algumas rotas e desastres naturais afetavam significativamente a duração da viagem. Navegar por rios ou pelo mar e atravessar lagos era bem mais rápido, mas trazia outros perigos, como naufrágios e ataques de piratas.

Ibn Batutta não escapou dos percalços comuns aos viajantes de então. "Ele ficou doente várias vezes, se perdeu numa tempestade de areia na Anatólia (atual Turquia), foi capturado por bandidos na Índia e quase foi executado pelo sultão de Délhi", afirma Dunn.

"Também estava num barco invadido por piratas, que o abandonaram apenas com suas roupas, foi atingido por uma flecha no ombro por bandidos e naufragou no oceano Índico. Mas escapou de contrair a peste negra, doença infecciosa que varreu o Oriente Médio e o norte da África durante a metade do século 14."

De acordo com o biógrafo, Battuta teria a intenção de estudar jurisprudência no Oriente Médio e voltar para casa com diplomas na mala. Entretanto, não há nenhuma evidência de que tenha frequentado bancos escolares durante toda a sua peregrinação. Sabe-se que procurou mestres sufis para conhecer mais sobre o misticismo islâmico, mas não teria ficado muito tempo com eles.

Tampouco permaneceu por grandes períodos nas cortes em que tinha trabalho fixo e ganhava bem, o que demonstra que não era movido por questões financeiras. Resta a hipótese de que suas viagens eram impelidas apenas pelo gosto por aventuras e pela curiosidade, cessada apenas quando morreu, aos 64 anos, provavelmente em 1368, na terra natal.

As mentiras do marroquino e de Marco Polo

Ibn Battuta e Marco Polo (1254-1324) têm muitas coisas em comum. Foram contemporâneos durante 20 anos - o primeiro caiu na estrada um ano após a morte do segundo. Ambos fizeram viagens incríveis, sobreviveram, voltaram para sua terra natal e relataram suas peripécias a um escriba. Mas também contaram algumas mentiras.

"Duvida-se, por exemplo, que Battuta tenha visitado os turcos da Crimeia por causa de incoerências entre as informações fornecidas sobre as distâncias da viagem. Pode ser que o problema tenha sido o grande lapso de tempo entre a viagem e o relato. Em sua narrativa, há também elementos do imaginário das viagens, como menções ao povo dos canicéfalos (com cabeça de cão) das Índias", diz o historiador José Rivair Macedo.

Segundo o biógrafo de Battuta, Ross E. Dunn, algumas passagens, principalmente em relação ao norte da China, foram copiadas de outros viajantes muçulmanos sem o devido crédito. "Naquele tempo, isso não tinha a importância de hoje. Mas, em geral, acredito que a narrativa é confiável e autêntica", afirma Dunn.


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