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Período das luzes: a verdade sobre a Idade Média

O milênio que liga o século 5 ao século 15 foi muito mais dinâmico e criativo do que a narrativa oficial nos ensinou

Raphaela de Campos Mello Publicado em 16/08/2019, às 14h55

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Crédito: Getty Images

O ano era 1305. Em vez de enaltecer as glórias do Senhor aos fiéis italianos, o dominicano Jordano de Pisa exaltou apaixonadamente algo bastante mundano. “Não faz 20 anos desde que se encontrou na arte de fazer óculos que permitem enxergar bem, uma das mais necessárias artes do mundo, e é tão pouco o que se fez: uma arte nova, que nunca existiu. Eu vi aquele que primeiro os inventou e fez, e falei com ele.”

Se você, leitor, tem alguma dificuldade de visão, mas está lendo perfeitamente este texto com o auxílio de lentes com grau, agradeça à inteligência da Idade Média. As mentes vivazes do período injustamente conhecido como Idade das Trevas inventaram não só os óculos, como também o relógio mecânico, o papel, os botões, as notas musicais, os algarismos arábicos.

Enfim, uma série de valiosos recursos – tanto criações europeias como adaptações de conhecimentos vindos do Oriente – que impactaram as mais diferentes áreas da vida humana. Diante dessas evidências de luz e de engenhosidade, fica difícil sustentar a tese de que a Idade Média teria sido um dos piores momentos da humanidade, marcadamente associado ao obscurantismo religioso, cultural e científico.

Hoje, a maior parte dos estudiosos defende que o milênio, desde a queda do Império Romano no Ocidente (476) até a descoberta da América (1492), foi um tempo dinâmico e criativo, apesar da opressão social e econômica exercida pelos nobres e pela Igreja.

Grande estudioso desse período, com mais de 40 obras sobre o assunto, o historiador francês Jacques Le Goff é categórico: “Na Idade Média surgiram os traços essenciais da civilização ocidental”. Isso muda tudo. Em vez de uma era de regressão da civilidade, da arte e do pensamento, ela representa nada menos que “a base do nascimento da Europa Moderna, uma Europa de povos autônomos e politicamente definidos, mas, ao mesmo tempo, bastante conscientes de pertencerem a uma entidade político-cultural, religiosa e social mais ampla”, segundo a historiadora italiana Elena Percivaldi, autora de A Vida Secreta da Idade Média.

Pintura Cena do mercado / Crédito: Getty Images

 

Se corrermos atrás de culpados por pregarem rótulos tenebrosos em um ciclo tão importante da História, chegaremos aos contemporâneos do Iluminismo. Os partidários da razão acima de todas as coisas viam as sociedades precedentes como bárbaras, irracionais e retrógradas. No entanto, estavam, em boa medida, enganados.

“As ciências na Idade Média eram muito mais produtivas do que o senso comum acredita”, afirma o historiador Icles Rodrigues, criador do canal no YouTube Leitura ObrigaHistória. Ele lembra que não podemos restringir o que se passou nesse período à Europa ocidental. “Aproximadamente entre os séculos 8 e 13, o mundo muçulmano teve o que alguns chamam hoje de ‘renascimento islâmico’, uma era de profundo avanço científico em áreas como matemática, astronomia, medicina e filosofia, só para citar algumas. Mas, como estamos falando de algo ocorrido fora da Europa, muita gente não sabe”, lamenta.

Não por acaso, uma grande referência da filosofia medieval foi o persa Avicena (980-1037), que em mais de cem livros versou sobre lógica, ciências naturais, matemática, metafísica, teologia e medicina – nessa época, o saber era integrado, ou seja, um mesmo indivíduo dominava várias disciplinas.

Esse legado de peso levou o medievalista francês Alain de Libera a considerá-lo introdutor da ciência e da racionalidade religiosa no mundo ocidental. Jacques Le Goff, por sua vez, enaltece a figura de São Tomás de Aquino (1225-1274), autor da célebre Suma Teológica, como o grande conciliador da fé e da razão – cerne do pensamento escolástico. Vale lembrar que Aquino foi aluno de Santo Alberto Magno (1206-1280), filósofo e teólogo alemão, notório pensador que se aprofundou nos estudos do grego Aristóteles e acabou inserindo o aristotelismo no pensamento cristão, segundo o qual o empirismo e a sistemática do conhecimento têm valor fundamental.

Como destaca Aline Dias da Silveira, professora associada no Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista em História Antiga e Medieval, o trânsito do conhecimento não ficou restrito às igrejas e aos mosteiros. Ele também passava pelas cortes da alta nobreza no mundo cristão latino e grego, e pelas madrassas (escolas muçulmanas) e casas da elite do mundo islâmico.

“É importante ter em mente que as pessoas viajavam anos atrás do conhecimento e que existiam muitas rotas marítimas e terrestres de comércio que ligavam os três continentes (Europa, Ásia e África). Neste contexto, a questão religiosa não impedia que o califa de Bagdá, por exemplo, tivesse em sua corte cristãos, judeus, zoroastristas e hindus traduzindo, juntos, textos de saberes de diversas culturas para a língua árabe.”

Cena de comércio em uma loja de talheres, século 15 / Crédito: Getty Images

 

De fato, se pensava muito na era medieval. Do contrário, as universidades não teriam surgido no século 12, em resposta ao crescimento populacional, econômico e urbano. A Universidade de Bolonha, por exemplo, data de 1158; a de Paris, de 1200. Nelas havia quatro ramos do saber: Artes, Direito, Medicina e Teologia.

Criatividade em alta

A genialidade humana se mostrou com força e expressividade no ramo artístico, tendo como expoente a arquitetura. Símbolos da ligação entre Deus e os homens, as igrejas despontavam na paisagem medieval como se fossem joias. E, no final do século 12, essa diretriz ficou ainda mais evidente com a introdução do estilo gótico, rebuscado e suntuoso. Criada no norte da França, essa linha arquitetônica substituiu o estilo anterior, o românico, trazendo soluções construtivas que se expandiram para grande parte do continente nos séculos posteriores.

Os arquitetos da época implementaram, por exemplo, as abóbodas ogivais, sustentadas por colunas mais leves, que possibilitaram aumentar a altura das construções. Isso permitiu a remoção de parte das paredes laterais, agora ocupadas por estonteantes vitrais. Além dessas estruturas de sustentação mais leves, foram desenvolvidos os chamados arcobotantes nas paredes externas, utilizados para sustentar o peso da abóboda da nave central sobre os tetos das naves laterais.

Um dos mais representativos exemplos do estilo gótico, a Catedral de Chartres, situada no noroeste da França, ostenta números impressionantes: 137 metros de comprimento, 36,55 metros de altura da nave, 64,30 metros de extensão do transepto. Ela surgiu da reconstrução da igreja românica local, incendiada em fins do século 12, e foi consagrada em 1260, com a presença do rei São Luís. Até hoje encanta seus visitantes pelo naturalismo de suas esculturas e pela beleza de seus vitrais, que cobrem mais de 2 mil metros quadrados.

A Idade Média também pode se orgulhar de ter sido o berço de uma das obras mais importantes da literatura universal: A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321). Para os estudiosos, o escritor italiano foi um visionário que antecipou o espírito do Renascimento por seu caráter humanista, irônico e político, ainda que bastante influenciado pela religiosidade. Escrito entre 1307 e 1321, o poema épico, dividido em três partes, narra a viagem imaginária que o próprio Dante empreende pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso.

Nesses domínios, ele encontra inúmeros personagens históricos (políticos, burgueses, filósofos, poetas, santos, teólogos) e transforma esse percurso numa alegoria do mundo terreno sob a perspectiva de um homem medieval. Como queria ser entendido pelo maior número de pessoas, Dante optou por uma linguagem acessível, sendo A Divina Comédia o primeiro dos grandes livros ocidentais a ser escrito numa língua vernácula, ou seja, não escrita em latim, e sim num dialeto que viria a se tornar o idioma italiano. Dessa maneira, o poeta florentino se posicionou como um defensor da laicização cultural.

Caça à raposa, século 14 / Crédito: Getty Images

 

O cultivo em campo

Avanços também ocorreram no campo, tendo em vista o aumento populacional a partir do século 11. Para se ter ideia, na Idade Média central – do século 11 ao final do século 13 – a população cristã dobrou. A necessidade de alimentar tanta gente estimulou a criatividade dos camponeses para que a lida se tornasse mais eficiente. Então, novas técnicas e ferramentas passaram a fazer parte do dia a dia desses trabalhadores, tais como a “utilização mais constante do ferro na fabricação de enxadas, rastelos e forcados, ou de equipamentos como a charrua, arado grande com rodas e pontas de metal”, lista o historiador José Rivair Macedo, no livro Movimentos Populares na Idade Média.

 No entanto, a maior invenção do setor foi o sistema de cultivo trienal, no lugar da rotação bienal. O solo passou a ser dividido em três partes, de modo que, a cada ano, uma permanecia em descanso e as demais eram trabalhadas. Passados três anos, todas tinham sido utilizadas. “A nova técnica era melhor, pois permitia um maior aproveitamento do solo, facilitando a variação das culturas”, justifica Macedo.

Luta por direitos

O campo também viveu anos de efervescência político-social, uma vez que foi palco de uma série de movimentos populares pela busca de direitos. A subordinação dos camponeses – o maior contingente populacional – aos nobres e à Igreja era a base das relações. Estavam todos de acordo, como rezava a tradição, segundo a qual permutava-se trabalho por segurança. No entanto, quando os mais poderosos impunham condições abusivas, a base da pirâmide reagia, levada por um forte senso de coletividade e solidariedade. Não raro, as reivindicações viravam insurreições.

A primeira grande revolta camponesa de que se tem notícia ocorreu na Normandia, no norte da França, em 996, durante o governo do duque Ricardo II. Os trabalhadores resolveram explorar a reserva senhorial sem a devida autorização e acabaram sendo massacrados pelas tropas oficiais. Séculos adiante, contudo, outra querela obteve resultados favoráveis.

 “Entre 1250 e 1251, os servos de Orly, uma aldeia localizada no sul de Paris, recusaram-se a pagar impostos pessoais aos seus senhores, os padres da Abadia de Notre-Dame. O movimento de insatisfação cresceu. Aldeias vizinhas se rebelaram e em pouco tempo havia aproximadamente 2 mil vilãos revoltados”, relata o historiador José Rivair Macedo. A pressão popular levou a disputa aos tribunais da Coroa e, após negociações, os servos ficaram livres da taxa extra. Anos mais tarde, em 1263, a própria servidão acabou sendo abolida no sul de Paris. Vitória do povo.

Outros motins, também deflagrados por cobranças de impostos, atingiram as cidades. Nessas localidades, líderes populares despontaram e entraram para a História, como, por exemplo, Estevão Marcel, representante dos comerciantes parisienses que, entre 1356 e 1357, junto com seus partidários, forçaram a retirada do regente Carlos e controlaram Paris.

Mais tarde, em 1381, na Inglaterra, foi a vez de Watt Tyler e John Ball assumirem as reivindicações de camponeses e artesãos, e dominarem a cidade de Londres. Os dois episódios, contudo, terminaram com o assassinato de seus líderes. Mesmo assim, somaram-se a tantos outros espalhados pela Europa, reforçando o anseio popular por justiça e melhores condições de trabalho.

Ao contrário do que nos foi ensinado, havia espaço para as camadas populares medievais se expressarem e viverem a vida conforme suas crenças e anseios. O problema é que, por muito tempo, aprendemos sobre a Idade Média tendo como base fontes eclesiásticas, que expressavam um ideal religioso e moral proveniente de uma restrita parcela da população. Portanto, como explica Aline Dias da Silveira, é equivocado afirmar que a Igreja detinha total controle sobre o comportamento das pessoas.

“Até o século 9, o papa era apenas o patriarca da Roma ocidental e estava submetido ao Imperador Romano do Oriente (ou Bizantino). Não havia uma unidade entre o poder local dos bispos que pudesse constituir uma instituição que tivesse tal poder. Além disso, os padres falavam em latim na missa para uma população que não sabia ler ou escrever e a igreja não possuía exércitos, logo necessitava do apoio de reis e de nobres para qualquer tipo de coerção, como foi o caso da perseguição às heresias nos séculos 12 e 13.”

O que existia, de fato, era a influência religiosa sobre as práticas cotidianas, principalmente porque o cristianismo se fundiu aos antigos ritos pagãos, como provam as festas do calendário litúrgico. Mas, do ponto de vista comportamental, incluindo a sexualidade, a repressão não foi tão severa assim.