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Imperatriz Viúva Cixi: Dama-dragão governou a China por 47 anos

Embora nunca oficializada, a Imperatriz comandou o país asiático até sua morte, há 111 anos

Simon Sebag Montefiore Publicado em 24/07/2019, às 04h00

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Bela, astuta e cruel, a Imperatriz Viúva Cixi foi o arquétipo da dama-dragão, a mulher de encanto sinistro. Ela saiu da obscuridade para tornar-se a governante efetiva da China ao longo de 47 anos, período durante o qual deteve o poder no humilhante declínio nos rumos do país. Na segunda metade do século 19, a dinastia Qing, que havia comandado a China por mais de 250 anos, lutava para enfrentar os desafios impostos pela modernização e pela crescente pressão das potências europeias.

Tendo sofrido derrotas militares nas mãos de seus rivais estrangeiros, e diante de uma crescente agitação interna, a última dinastia imperial da China finalmente caiu em 1911. Ninguém contribuiu mais para esse colapso do que a própria imperatriz.

Quando entrou na corte do imperador Xianfeng como sua concubina em 1851, a futura imperatriz viúva era conhecida como Dama Yehenara, filha de Huizheng. Ela foi rebatizada Yi logo em seguida, e, após o nascimento de seu filho Zaichun, em 1856, passou a ser chamada de Nobre Consorte Yi. Quando o imperador morreu, em 1861, Zaichun assumiu o trono, e para refletir sua nova posição como Divina Mãe Imperatriz Viúva, Yi recebeu o título Cixi, que significa “maternal e auspiciosa”.

Antes de morrer, Xianfeng incumbira oito “ministros regentes” de governar durante a minoridade de seu filho, mas em um golpe palaciano o poder passou para a consorte do falecido imperador, a Mãe Imperatriz Viúva Ci’na, e para a Divina Mãe Imperatriz Viúva Cixi. Ajudadas pelo ambicioso príncipe Gong, ambas desfrutariam de um período de doze anos de mando compartilhado, exercendo poder “por trás da cortina”. Zaichun, renomeado Tongzhi (que significa governo coletivo), foi tardiamente autorizado a iniciar seu reinado em 1873, mas as duas matriarcas, tendo adquirido gosto pelo poder, não demonstravam a menor intenção de retirar-se discretamente para a aposentadoria. Cixi, em particular, continuou a dominar o jovem imperador, convencendo-o a aceitar sua autoridade.

Depois de apenas dois anos, Tongzhi morreu, mas com a ascensão do primo de quatro anos de Cixi, o imperador Guangxu, as duas mulheres foram restituídas como regentes. Seis anos depois, 1881, a imperatriz Ci’an morreu repentinamente, suscitando rumores que Cixi a havia envenenado. A morte de Ci’an abriu o caminho para Cixi exercer poder irrestrito, mão de ferro reforçada em 1885, quando destituiu o príncipe Gong de suas funções.

A essa altura, a Imperatriz Viúva havia acumulado uma enorme fortuna pessoal. Em uma época de crescente crise financeira para a China, ela construiu uma série de extravagantes palácios e jardins e uma luxuosa tumba para si mesma. Ao mesmo tempo, reprimiu todos os esforços de reforma e modernização. Em 1881, proibiu os cidadãos chineses de estudarem no exterior por causa do possível influxo de ideias liberais. Vetou os planos e propostas para uma vasta e nova ferrovia que abriria grande parte da China, alegando que a via férrea seria barulhenta demais e perturbaria os túmulos dos imperadores.

O jovem imperador Guangxu deveria assumir as rédeas do poder em 1887. Sob a instigação de Cixi, vários dos altos funcionários da corte imploraram que ela prolongasse seu governo, devido à juventude do imperador. Relutantemente, ela concordou, e aprovou-se uma nova lei que lhe permitiu continuar aconselhando por tempo indefinido o imperador.

Mesmo depois de passar o poder adiante em 1889 — retirando-se para o enorme Palácio de Verão que construíra para si —, Cixi continuou a ofuscar a corte imperial. Ela obrigou o novo imperador a casar-se a contragosto com sua sobrinha, Jingfen. Quando mais tarde ele esnobou sua esposa para passar mais tempo com a consorte Zhen — conhecida como a Concubina das Pérolas —, Cixi mandou açoitar Zhen.

Em meados da década de 1890, a Imperatriz Viúva insistiu em desviar verbas da marinha de guerra chinesa para pagar amplas reformas em seu Palácio de Verão em virtude da celebração de seu aniversário de sessenta anos.

Quando o Japão declarou guerra contra a China em 1894, as Forças Armadas chinesas foram derrotadas. Os reformadores ganharam a confiança do imperador Guangxu do poder. Formalmente ele continuou como imperador, apenas no título, até 1908, mas um decreto redigido pela própria Cixi declarou Guangxu inapto a governar o país.

A ruína de Cixi provou ser a Rebelião dos Boxers de 1900.

Em 1900, o Punhos Justos e Harmoniosos (os Boxers), grupo secreto e clandestino cujos membros praticavam artes marciais (e inclusive alegavam ser capazes de ensinar a imunidade a balas), liderou uma insurreição na província de Shandong e ganhou a adesão de um número considerável de pobres das áreas rurais. O grupo produziu propaganda em massa acusando missionários católicos de abuso sexual e, imigrantes ocidentais de tentar solapar a China. Ataques violentos contra ambos tornaram-se rotineiros.

Acreditando que o movimento poderia ajudá-la a manter o poder, Cixi deu respaldo à rebelião como uma expressão da cultura popular chinesa. Depois disso, tumultos antiocidentais e a destruição de propriedades estrangeiras se intensificaram, e, no verão de 1900, um exército dos Boxers cercou as embaixadas ocidentais em Pequim. O exército imperial chinês foi cúmplice dos ataques, pouco fazendo para ajudar os defensores. Foi necessária a chegada de tropas internacionais para levantar o cerco, e somente depois de muitos meses a insurreição foi sufocada.

Ironicamente, a rebelião aumentou a interferência estrangeira na China. O Protocolo Boxer de 1901 não apenas forçou o governo chinês a aceitar uma lei de vultuosas reparações, mas também outorgou a países ocidentais consideráveis concessões comerciais e permitiu que eles instalassem tropas permanentemente em Pequim — mais um insulto ao sentimento de orgulho nacional ferido, justamente o que havia sido o fundamento da malograda rebelião.

O anúncio de Cixi em apoio ao movimento Boxer, que ela considerou um baluarte dos valores tradicionais chineses contra influências ocidentais e liberais, instigou as potências ocidentais a marchar sobre Pequim e tomar a Cidade Proibida. Cixi foi forçada a fugir, e a autoridade imperial só foi restaurada depois que o imperador assinou um humilhante tratado.

Cixi morreu em novembro de 1908, deixando como regente o imperador Puyi, de dois anos. Derrubado pela revolução de 1911, brevemente reinstalado no poder em 1917, transformado em imperador-fantoche de Manchukuo pelos japoneses de 1932 a 1945, ele foi o último monarca da China. No fim, Cixi mostrou ser a coveira do império chinês.


Reportagem retirada do Livro Titãs da História, do autor Simon Sebag Montefiore, Editora Crítica.