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Confusão colonial: A incrível história de Jean Cointac

Ele traiu os franceses, brigou com os jesuítas e criou problemas por onde passou, até acabar na fogueira

Alexandre Rodrigues Publicado em 28/11/2018, às 16h00

Ele foi criticado por José de Anchieta e denunciado à Inquisição
Arquivo AH

Se tivesse nascido nos tempos atuais, é provável que se tornasse um polemista do quilate do britânico Christopher Hitchens (para quem Deus é um problema). Mas vivendo em 1555 nas terras onde seria fundado o Rio de Janeiro, o francês Jean Cointac  também provocou uma quantidade considerável de confusão. Controverso misto de herói e anti-herói para portugueses e franceses, conseguiu o feito de brigar com os dois lados e perturbar a paz por onde passava. Cinco séculos depois, ainda se discute seu papel no primeiro século do Brasil Colônia.

Entre 1555 e 1557, dois navios franceses, com 600 passageiros, chegaram à Baía de Guanabara. Comandada pelo militar Jean de Villegagnon, a expedição tinha o objetivo de fundar um paraíso religioso. Enquanto protestantes, inspirados nas teses de João Calvino e do alemão Martinho Lutero, se digladiavam na França, Villegagnon organizou a expedição com a promessa de um lugar onde os dois grupos pudessem conviver. Os imigrantes ergueram o forte Coligny na Ilha de Serigipe, em frente à atual Praça XV, hoje chamada Ilha de Villegagnon, e deram início à França Antártica. Passageiro da segunda embarcação, o francês Jean Cointac se destacava pela erudição.

Doutor pela Sorbonne, falava hebraico, grego e latim e conhecia a Bíblia, além de ciência e filosofia. Segundo seu próprio relato, reproduzido pelo historiador Capistrano de Abreu em Ensaios e Estudos, vinha de família nobre, nascido em Bolés, na região de Champagne. Sem nenhuma modéstia, se orgulhava de conhecer a França, Itália e Espanha e de "nunca ter achado quem se igualasse a ele em gramática, retórica, dialética, lógica, física e filosofia". Também se considerava grande entendedor de temas religiosos.

Entre homens simples, artesãos, alguns ex-prisioneiros e aventureiros, veio ao Brasil para ser responsável pela aplicação das leis. O que ninguém contava era com seu talento para se meter em confusões. "Além de livre-pensador, era polemista inveterado", diz Ivo Pereira da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), autor de As Aventuras e Desventuras de João de Bolés: um Calvinista Renascentista nos Trópicos do Século XVI. Além de Jean Cointac, Jean de Bolés e João de Bolés são outros dos nomes pelos quais ficou conhecido.

Na Guanabara, não se restringiu à função de organizar leis. Reivindicando o papel de especialista em questões religiosas, passou a desafiar ministros protestantes em temas como o significado da hóstia e do vinho. Para perplexidade dos adversários, defendia o retorno a algumas práticas católicas. Criticou a falta de cerimônia nos rituais, celebrados por pastores em roupas comuns. Persuasivo, envolveu Villegagnon na briga. "Os dois não aceitavam todos os pontos do papado. Dos alemães, queriam conservar o que achassem bom, acrescentando e tirando da doutrina conforme lhes ditava sua fantasia", criticou Jean Crespin em seu História dos Mártires, sobre a perseguição aos protestantes.

Por causa das discussões religiosas, o ambiente na França Antártica azedou, reproduzindo as brigas que varriam a Europa. Havia o grupo dos calvinistas, o de Cointac e o de Villegagnon, que no meio da polêmica radicalizou e se reconverteu ao catolicismo, todos acusando uns aos outros de heresia. Seis meses depois, o comandante perdeu a paciência com o auxiliar atrevido e expulsou-o do forte. Jean Cointac teve de ir viver com seus poucos seguidores onde hoje fica o bairro carioca da Gávea.

A situação na Ilha de Villegagnon piorava, a ponto de um emissário ter sido enviado à França para perguntar ao próprio Calvino sobre qual orientação seguir. O comandante passou a perseguir os calvinistas, e enforcou três deles. Cointac acompanhou tudo de longe. Mas, em 1558, convencido por Villegagnon, aceitou participar, com alguns franceses e índios tupinambás, de um ataque a Bertioga e São Vicente, colônias portuguesas no litoral paulista. Começava sua grande aventura. Cointac, mais tarde, diria que não concordou com o ataque, pois, embora tivessem problemas com os índios, que escravizavam para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, os portugueses jamais haviam incomodado os franceses. Cointac foi enviado para espionar os portugueses. Ao chegar, porém, avisou sobre o ataque iminente e virou herói. Passou a viver entre os colonos.

Jean Cointac Arquivo AH

A vila de São Vicente, ocupada por portugueses, índios e padres, tinha poucas casas, igrejas e engenhos de cana-de-açúcar, além de um colégio jesuíta. Era um lugar relativamente tranquilo onde, como no resto do Brasil colonial, o poder da Igreja Católica não enfrentava a mesma contestação vista na Europa. A chegada de Cointac mudou o cenário. Se entre os protestantes havia provocado escândalo por defender práticas do catolicismo, entre os católicos fez o contrário: tornou-se advogado de Lutero e Calvino, atacando o celibato e investindo contra o papa, a quem acusava de "tirar dinheiro dos pobres". Também falava mal dos santos, da missa e até da ideia de um purgatório.

"Vistas hoje, essas questões parecem bobagem, mas na época eram a discussão intelectual mais importante", explica o historiador gaúcho Voltaire Schilling. "Há de se lembrar que a França viveu 40 anos de guerras religiosas, e tanto o rei como outros grupos usaram a religião como desculpa para perseguir adversários. Ser um livre-pensador nessas circunstâncias era perigoso." Para quem manifestava tais opiniões, havia o risco de enfrentar a Inquisição, instalada em Portugal desde 1536.

Mas o francês não se intimidou. Dizia-se nobre, usando o título de "Senhor de Bolés". Logo São Vicente estava em polvorosa. O jesuíta Manoel da Nóbrega até achou graça no estrangeiro. José de Anchieta, porém, não via a situação com bom humor, reclamando de um francês "muito culto, versado em grego e espanhol" que, tendo chegado "com três companheiros idiotas", derramava "a peçonha luterana" na colônia. Incomodado mesmo estava Luís da Gram, rígido padre provincial de São Vicente. Irritado com o atrevimento de Cointac, que o desafiava em público, pregava contra o "herege" e o denunciou à Inquisição.

Cointac deixou São Vicente e visitou Pernambuco e Bahia, propagando suas opiniões atrevidas. Em Salvador, frequentava a casa do governador-geral Mem de Sá, que o convidou a participar, em 1560, da expedição para expulsar os franceses da Guanabara. Mesmo dizendo-se "enojado" com a missão, concordou após saber que o rei da França, Henrique IV, havia dito que não tinha nada a ver com Villegagnon.

O Senhor de Bolés foi fundamental para a expulsão dos franceses. "Como viveu no Forte Coligny, Cointac conhecia bem a estrutura de defesa", afirma Ivo Pereira da Silva, da UFPA. Segundo o historiador Capistrano de Abreu, Cointac ensinou aos portugueses como entrar na fortaleza e se apoderar do paiol de munições. Cercados, os franceses fugiram para a mata, deixando o forte para o inimigo.

Prestigiado, Cointac voltou a São Vicente com Mem de Sá e depois partiu para Portugal. Chegava a hora, calculou, de receber a recompensa por suas façanhas. Não sabia que Luís da Gram havia apresentado nova denúncia por heresia. O Senhor de Bolés foi preso quando o navio fez uma parada na Bahia. Cointac conseguiu anular boa parte das acusações alegando que Luís da Gram era seu desafeto. Em 1563, ao saber que seria mandado para Lisboa escreveu uma longa carta ao bispo criticando sua perseguição. Dom Pedro Leitão ficou tão furioso que o prisioneiro só não foi queimado vivo porque estava sob jurisdição da Inquisição.

Em Lisboa, continuou a se recusar a admitir a culpa. Só às vésperas da sentença aceitou as acusações e pediu perdão. De alguma maneira impressionou seus algozes. A pena foi branda: renunciar à doutrina protestante e rezar sete salmos todas as quartas e sextas-feiras, além da proibição de deixar Portugal. Viveu por alguns meses no Mosteiro de São Domingos em Lisboa, tendo, segundo os monges, comportamento exemplar. Apenas na década de 60 um documento descoberto na Biblioteca Nacional de Lisboa revelou o verdadeiro destino de Jean Cointac. Em 1569, por alguma razão ele se encontrava em Goa, na Índia, quando mais uma vez caiu nas mãos da Inquisição sob a acusação de heresia. Depois de três anos de processo, foi queimado vivo em 20 de janeiro de 1572.


Saiba mais

Villegagnon e a França Antártica: Uma Reavaliação, Vasco Mariz e Lucien Provençal, Nova Fronteira, 2001