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Bandeirinhas, camelôs e chimpanzés: o julgamento contra a teoria da seleção natural

Em 1925, no interior dos EUA, um professor foi ao tribunal por ensinar as ideias do naturalista Charles Darwin

Reinaldo Lopes Publicado em 17/02/2020, às 20h50

Julgamento de John Thomas Scopes, em Dayton, em 1925
Julgamento de John Thomas Scopes, em Dayton, em 1925 - Getty Images

Não é tão incomum um julgamento se transformar num circo, mas em Dayton, cidadezinha no estado americano do Tennessee, isso aconteceu quase literalmente. Naquele verão de 1925, bandeirinhas e camelôs vendendo limonada lotavam as ruas em volta do tribunal, enquanto chimpanzés realizavam truques para divertir a multidão.

Os donos dos bichos diziam que os animais estavam ali para serem testemunhas do julgamento. Até que a piada fazia sentido: o que estava em jogo na corte era a teoria que defende o parentesco entre os símios e os seres humanos.

Quem estava sentado no banco dos réus era John Thomas Scopes, professor do ensino médio. Scopes foi acusado de ter ensinado as ideias do naturalista Charles Darwin numa escola pública. Naquela época, a teoria da seleção natural, já era amplamente aceita pelos cientistas.

A polêmica de Dayton acabou opondo um dos maiores políticos dos Estados Unidos ao advogado mais famoso do país. Foi considerado um dos primeiros casos de interesse público a ser acompanhado em tempo real, graças às transmissões de rádio.

O professor John Scopes era agnóstico e parecia simpatizar com a teoria darwinista, mas não há nenhuma indicação de que ele tivesse feito disso uma bandeira quando começou a dar aulas. Aliás, ele era professor de Educação Física e só havia ensinado Biologia quebrando o galho como professor substituto.

John Thomas Scopes em seu julgamento / Crédito: Getty Images

 

Ao longo dos anos 1920, 15 estados americanos criaram projetos de lei que restringiam de alguma forma o ensino da evolução. O Tennessee foi o primeiro a proibir o ensino em escolas públicas de “qualquer teoria que negue a história da criação divina conforme ela é contada na Bíblia, e que ensine que o homem descende de uma ordem inferior de animais”, segundo o texto legal. A situação do Tennessee logo fez do estado um alvo da ACLU (União Americana das Liberdades Civis) — opositora de intervenções religiosas no governo.

A ACLU se ofereceu publicamente para bancar os custos judiciais de qualquer pessoa que desafiasse a lei. George Rappalyea — dono de uma empresa de mineração em Dayton — achou a legislação absurda e convenceu vários moradores influentes de que um julgamento sobre a questão iria atrair publicidade e, quem sabe, melhorar a economia de Dayton.

O professor Scopes, então com 24 anos, foi chamado para uma reunião. “Você andou dando aulas com este livro?”, teria lhe perguntado Rappalyea, mostrando uma cópia do livro didático A Civic Biology (Uma Biologia Cívica, em tradução livre). O professor admitiu que pediu aos alunos para lerem o capítulo do livro sobre o tema em casa, mas parece não ter dado uma aula a respeito em classe. 

O professor americano John Thomas Scopes durante o julgamento / Crédito: Getty Images

 

Do lado da acusação, o julgamento atraiu o principal inimigo de Darwin em território americano, o político William Jennings Bryan, do Partido Democrata. Bryan era um populista (apelidado de o Grande Plebeu), defensor dos direitos dos trabalhadores e das minorias. 

Famoso pela religiosidade e pela oratória capaz de emocionar multidões, o democrata Bryan tinha sido três vezes candidato a presidente dos Estados Unidos. Bryan tinha sido, ainda, o principal articulador das várias leis anti-Darwin e por isso se ofereceu para auxiliar na acusação do julgamento.

O juiz John Raulston iniciou o julgamento, que logo ganhou o apelido de Julgamento do Macaco de Scopes, em referência ao parentesco entre o homem e outros primatas. Mais de 100 repórteres fizeram a cobertura, entre eles H.L. Mencken, do Baltimore Sun.

“Ele já teve um pé na Casa Branca, e a nação tremeu ao som de suas palavras. Agora ele é um papa de araque, irmão dos pastores esquecidos que convencem ignorantes em tabernáculos de ferro atrás dos pátios de estações de trem. Que tragédia, começar a vida como herói e terminá-la como bufão”, disse H.L. Mencken

O objetivo era levar o caso até a Suprema Corte do Tennessee, para que a instância máxima da justiça estadual definisse de uma vez por todas que a lei era inconstitucional, pois interferia na separação entre a religião e o Estado. Quando o caso chegou aos juízes da Suprema Corte, eles se apegaram a um detalhe técnico do veredicto: após decidir que Scopes era culpado, Raulston o havia multado em 100 dólares.

A lei estadual do Tennessee estipulava que todas as multas acima de 50 dólares tinham que ser fixadas por um júri, não apenas por um juiz. Baseados nisso, eles anularam a sentença, mas a lei anti-Darwin só seria derrubada definitivamente mais de 40 anos depois, em 1968. Scopes morreu dois anos depois disso, em 1970.


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