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O Khmer Vermelho: Massacre no Camboja

Proporcionalmente, ninguém matou tanto quanto eles. Por quatro anos, sob a liderança de Pol Pot, na tentativa de criar uma utopia comunista rural, o Camboja viveu no mais abjeto terror

sexta 10 agosto, 2018
Crânios de vítimas do regime
Crânios de vítimas do regime Foto:Shutterstock

É um feriado no Camboja. Todos os anos, em 20 de maio, centenas de pessoas se colocam diante do grande monumento funerário de Choeung Ek – cuja construção, composta de milhares de ossos e crânios, tem mensagem nada sutil.

Elas fazem oferendas, acendem incensos e rezam pela alma de mais de 1,7 milhão de pessoas, ao mesmo tempo em que tentam superar e esquecer o capítulo mais tenebroso da história do Camboja. Esse é o Dia da Memória, lançado originalmente como Dia do Ódio em 1983, ou, mais precisamente, “Dia do Ódio contra a Gangue Genocida Pol Pot-Ieng Sary-Khieu Samphan e os Grupos Reacionários Sihanouk-Son Sann”. Ele marca o começo da coletivização forçada, em 1973, e dos assassinatos em massa, em 1976.

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Alguns dos crânios das vítimas Wikimedia Commons

Entre 1975 e 1979, um dos maiores genocídios da humanidade, e o maior proporcionalmente à população, foi promovido pelo Khmer Vermelho, nome informal dado ao Partido Comunista do Camboja (ou Kampuchea, a autodenominação do país). Khmer é o nome da etnia de 97,6% dos cambojanos. Liderado por Pol Pot, o governo tinha o objetivo de estabelecer, a qualquer custo, uma utopia agrária.

Cidades foram esvaziadas e milhões de pessoas, obrigadas a se instalar em fazendas coletivas, onde faziam trabalhos forçados por 16 ou mais horas por dia, sem alimentação adequada. Propriedades privadas foram confiscadas, escolas, bancos e hospitais não funcionavam, as religiões estavam proibidas. Com o fechamento de fronteiras e embaixadas, o isolamento era total. As áreas rurais foram tomadas por prisões e valas comuns, construídas para abrigar os inimigos do regime: qualquer um que não fosse camponês. Em quatro anos, o Khmer Vermelho dizimou cerca de 25% da população do Camboja – diretamente, por execuções; e indiretamente, por fome, exaustão e doenças.

Estudante em paris 

Saloth Sar, que mais tarde se tornaria Pol Pot, nasceu em 1925, no vilarejo de Prek Sbauv, província de Kampong Thom, em um Camboja dominado pela França. Sua família era próspera e bem relacionada. Aos 6 anos, Saloth foi estudar na capital, Phnom Penh, onde o irmão mais velho trabalhava como oficial de Justiça. Depois de passar por mosteiros budistas e escolas católicas, em 1949 ganhou uma bolsa de estudos para cursar radioeletrônica em uma universidade de Paris.

O tirano Pol Pot Wikimedia Commons

Ali, Saloth se envolveu em grupos de debates políticos. Ben Kiernan, professor de História da Universidade Yale, diretor do Programa de Estudos sobre Genocídio e autor de The Pol Pot Regime: Race, Power and Genocide in Cambodia under the Khmer Rouge (“O Regime Pol Pot: Raça, Poder e Genocídio no Camboja sob o Khmer Vermelho”, sem tradução), conta que Saloth Sar, “inspirado pelo nacionalismo anticolonial, filiou-se ao Partido Comunista Francês, expondo seus pontos de vista sob o pseudônimo de Khmer Original (khmaer da’em)”.

Em 1953, ao ser reprovado nos exames do curso, foi forçado a retornar ao Camboja, no mesmo ano em que o país conquistou a independência. Ele se tornou membro do Partido Comunista da Indochina, que daria origem ao Partido dos Trabalhadores Khmers em 1960. Três anos depois, tornou-se líder do partido, que em 1966 virou Partido Comunista da Kampuchea.

Mestre e discípulo 

Ainda em 1966, recebeu sua mais importante influência estrangeira: visitou a China pela primeira vez. Inspirado pelo maoísmo, Saloth passou a defender que a revolução deveria ter início no campo e, então, se estender às cidades. Isso ia em oposição ao marxismo-leninismo ortodoxo, do Vietnã do Norte e da União Soviética, que defendia o proletariado urbano como o germe da revolução. A versão chinesa acreditava na primazia da população camponesa, considerada retrógrada e religiosa demais pelos ortodoxos.

1966 é o começo da Revolução Cultural, um movimento para expurgar a China dos “Quatro Velhos”: cultura, tradição, hábitos e ideias. O que significou perseguir cruelmente professores, intelectuais e profissionais liberais, inclusive do Partido, o que podia incluir as relocações forçadas para o campo como “reeducação”. Dezessete milhões de jovens também foram movidos para o campo, para se isolarem dos “velhos” na cidade, inclusive da escola, e aprenderem o “novo” maoísmo.

A China apoiou o regime com armas, alimentos e treinamento. Andrew Mertha, diretor do Programa de Estudos sobre a China da Universidade Cornell e autor de Brothers in Arms: China’s Aid to the Khmer Rouge (“Irmãos em Armas: O Auxílio da China ao Khmer Vermelho”, sem tradução), é taxativo: “Sem a assistência da China, o regime do Khmer Vermelho não teria durado uma semana”.

De volta ao Camboja, Saloth passou a organizar uma guerrilha clandestina com o objetivo de derrubar o governo do príncipe Norodom Sihanouk e instaurar no país sua reforma agrária. Foi quando passou a se denominar Pol Pot, nome que aos cambojanos soava rural, camponês. Escondido na selva, desenvolveu uma comunidade autossuficiente e começou a preparar seu exército para a luta armada, que começou em 1968. Foi aí que os combatentes ficaram conhecidos como Khmer Vermelho – apelido dado pelo príncipe.

Uma ajuda do Tio Sam

O conflito não ia a favor do Khmer Vermelho até 17 de março de 1970. Enquanto o príncipe Norodom Sihanouk fazia uma viagem a Pequim, o primeiro-ministro Lon Nol deu um golpe de Estado e aboliu a monarquia constitucional, proclamando a República Khmer. No dia seguinte, a Assembleia Nacional votou a favor da deposição do príncipe, concedendo todo o poder a Lon Nol.

O governo de Sihanouk declarara neutralidade na Guerra do Vietnã. Isso não agradava aos Estados Unidos, que apoiavam o Vietnã do Sul contra o Norte comunista. Para os americanos, o novo cenário era ideal para ter o Camboja a seu lado. Segundo a jornalista Elizabeth Becker, autora de When the War Was Over: Cambodia and the Khmer Rouge Revolution (“Quando a Guerra Acabou: O Camboja e a Revolução do Khmer Vermelho”, sem tradução), “tudo o que Washington queria saber sobre Lon Nol era se ele controlava o Exército e estava disposto a lutar contra os vietnamitas comunistas”.

O golpe de Lon Nol, apoiado pelos EUA, envolveu o Camboja na Guerra do Vietnã. O líder autorizou o estabelecimento de bases militares americanas em seu território, e os EUA deram a Lon Nol 85 milhões de dólares como assistência militar. Do outro lado, Sihanouk, exilado em Pequim, aliou-se ao Khmer Vermelho, apoiado pelo Vietnã do Norte e pela China. Sihanouk era amplamente aceito no Camboja, sobretudo nas áreas rurais, o que aumentou o poder e a influência do Khmer Vermelho. Muitos dos que apoiavam Pol Pot contra o governo de Lon Nol pensavam estar lutando pela restauração de Sihanouk no poder.

Marcas de bala no templo de Angkor Wat Wikimedia Commons

Autorizados pelo presidente Richard Nixon e liderados pelo secretário de Segurança Nacional Henry Kissinger, bombardeios foram realizados no Camboja rural, com a intenção de destruir refúgios e rotas de suprimentos usadas pelos vietcongues. Acabaram matando mais de 500 mil cambojanos – isso levou os camponeses a apoiar o Khmer Vermelho. Grande parte deles acreditava que, com a vitória de Pol Pot, não haveria mais ataques.

Recrutando e se fortalecendo, o Khmer Vermelho acabou por tomar a capital, Phnom Penh, em 1975. Sihanouk foi declarado chefe de Estado, mas o comando do país estava mesmo nas mãos de Pol Pot. Então a vitória foi celebrada nas ruas.

Campos da morte 

Era 17 de abril de 1975 e começava o que Pot chamou de “Ano Zero”. Com o confisco da propriedade privada, o país seria radicalmente transformado. O Khmer Vermelho mandou fechar hospitais e fábricas, destruiu carros, aboliu o dinheiro, cortou linhas telefônicas, tomou os aparelhos de rádio e baniu qualquer religião. As medidas visavam isolar o Camboja das influências corruptoras do mundo. E preparar o envio da população para o novo modo de vida, em fazendas coletivas.

Ao colocarem o plano em prática, os oficiais informaram à população que o país estava na mira de um bombardeio americano. Então todos seriam levados para poucos quilômetros de distância e voltariam após dois ou três dias, quando a situação estivesse controlada. Em Primeiro Eles Mataram Meu Pai, Loung Ung relembra como os oficiais articularam a situação. “Levem o mínimo que puderem! Vocês não precisarão de seus pertences da cidade. Estarão de volta em três dias! Os Estados Unidos vão bombardear a cidade.” As pessoas chegaram às fazendas em longas marchas. Crianças, idosos e doentes ficaram para trás.

A evacuação forçada Reprodução

Ao chegarem, eram informados aos gritos que no novo Camboja não era mais necessário ter roupas de marca, objetos caros ou dinheiro. Homens, mulheres e crianças foram transformados em camponeses, com rotina de trabalho de (ao menos) 12 horas seguidas. Até os nomes ficaram de lado. Nas fazendas, um chamava o outro de “amigo”.

Eles teriam que plantar o que comeriam. E quem tem horta em casa sabe o que acontece quando amadores urbanos são responsáveis pela produção agrícola: a fome logo tomou conta do cenário. A maioria era de moradores de cidades, sem prática e sem poder contar com a ajuda dos agricultores locais, com medo dos oficiais. A refeição coletiva era de um prato por dia. Para comer, uma colher – não havia garfos e facas, que podiam ser usados como armas. Apelar para uma fruta ou qualquer semente gerava execução.

Quem violasse as regras ou tentasse fugir ia para florestas distantes para um brutal assassinato. Em seguida, tinha o corpo lançado em valas comuns (que formavam pilhas de cadáveres) – 20 mil delas seriam encontradas anos depois. Entre os principais alvos de perseguição estavam os “intelectuais”, vistos como ameaça para o regime, e as minorias étnicas, como vietnamitas, chineses, tailandeses, muçulmanos – obrigados a comer carne de porco – e monges budistas. Quem parecesse inteligente para bater de frente com o regime ou tivesse ligação com o governo antigo era executado ou preso.

Crianças nos campos Reprodução

De acordo com Henri Locard, historiador de origem francesa que viveu no Camboja em 1960, autor de State Violence in Democratic Kampuchea (“A Violência do Estado no Kampuchea Democrático”), o Khmer Vermelho criou mais de 150 presídios. O mais célebre foi o Presídio de Segurança 21 (S-21), em Toul Slong, por onde passaram 17 mil pessoas.

As celas apertadas da prisão em Toul Slong Wikimedia Commons

O prédio, uma antiga escola até 1975, foi cercado por muros com arame farpado, teve janelas bloqueadas com barras de ferro e salas de aula transformadas em celas minúsculas. Os prisioneiros eram sufocados com sacolas plásticas, torturados com choques elétricos, objetos quentes ou facas. O terror só acabava com a entrega de familiares, que também seriam perseguidos. Hoje, é um museu em homenagem às vítimas.

A queda

Em abril de 1978, Pot temia que o Camboja fosse atacado por vietnamitas. Defendiam, afinal, versões incompatíveis do marxismo, o maoísta versus o leninista, apoiados por potências que viviam sua própria Guerra Fria intracomunista. Em 30 de abril de 1977, aniversário da Queda de Saigon, vitória final dos vietcongues, Pot ordenou uma invasão ao vizinho. As forças cambojanas saquearam aldeias próximas. Um dos episódios mais temerosos foi o massacre na pequena cidade de Ba Chúc. Dos 3157 civis que ali viviam, dois sobreviveram. Foi um colapso nas relações entre Camboja e Vietnã.

Mais vítimas do regime Getty Images

No Natal daquele ano, as forças vietnamitas, junto com a Frente Unida para a Salvação Nacional do Kampuchea, composta de comunistas cambojanos contrários ao regime, invadiram o Camboja. Após conflitos, tomaram Phnom Penh em 7 de janeiro de 1979 e apearam Pol Pot do poder. O Khmer Vermelho foi substituído pela República Popular do Kampuchea, um regime leninista ortodoxo.

A ONU, num bloco antissoviético que incluía EUA e China, continuaria a reconhecer o Khmer Vermelho como representante legítimo do país. Pot e os adeptos ao movimento fugiram para florestas próximas à fronteira com a Tailândia e formaram o Exército Nacional do Kampuchea Democrático, lutando uma campanha de guerrilha até 1998. Em meio a isso, o país já havia se tornado uma monarquia constitucional não comunista, em 1993.

O ditador acabou vítima em uma de suas maquinações. Durante as negociações para a rendição do Khmer Vermelho, em 10 de junho de 1997 ele ordenou o assassinato de seu braço direito, Son Sen, e sua família. Esperava que isso fosse ajudá-lo a ter vantagens com o governo oficial cambojano, mas o que aconteceu foi que o líder do Exército Nacional, Tai Mok, ordenou sua prisão, confinando-o em sua casa.

O governo de Phnom Penh condenou- o à morte in absentia. Em 15 de abril de 1998, ouviu pela rádio Voice of America que o Khmer Vermelho havia concordado com sua extradição para um tribunal internacional. Morreu na mesma noite, esperando o carro, oficialmente de “ataque cardíaco”. Mas muitos defendem que tenha sido suicídio por overdose de Valium e Cloroquina. Ninguém vai saber por que seu corpo foi cremado antes que oficiais do governo do Camboja pudessem inspecioná-lo.

Ao ser entrevistado pelo jornalista americano Nate Thayer, meses antes de sua morte, Pot não parecia arrependido. “Ele admitiu estar com a consciência limpa e negou ser o culpado das mortes causadas pelo Khmer Vermelho. Pot se retratou como uma figura incompreendida que sofreu calúnia.” O Khmer Vermelho só encontrou seu verdadeiro fim em 1999, quando os outros líderes desertaram para o Governo Real do Camboja. Mas as punições pelos crimes só começaram em fevereiro de 2009, quando o atual Camboja fundou o “Tribunal do Khmer Vermelho.”


Saiba mais

Livro: Primeiro Mataram Meu Pai, Loung Ung, HarperCollins, 2000

Filme: Primeiro Mataram Meu Pai, Angelina Jolie, 2017

Leticia Yazbek e Thiago Lincolins


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