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Quando a Kodak descobriu testes secretos com bomba atômica nos Estados Unidos

O Projeto Manhattan do governo americano pretendia ser secreto, mas não foi bem isso o que aconteceu

Alana Sousa Publicado em 07/10/2019, às 12h00

Teste nuclear em 31 de outubro de 1952, nos Estados Unidos, parte do Projeto Manhattan
Teste nuclear em 31 de outubro de 1952, nos Estados Unidos, parte do Projeto Manhattan - Getty Images

O teste de bomba na madrugada de 16 de julho de 1945 em Novo México, nos Estados Unidos, foi o primeiro teste de armas atômicas em grande escala na história, realizado no secreto Projeto Manhattan. E a Kodak descobriu por acidente que os testes estavam sendo realizados.

O caso teve início quando a Kodak recebeu diversas reclamações de clientes que alegavam que manchas pretas no filme, e algo que embaçava as fotografias, haviam inutilizado as recentes câmeras compradas. Julian H. Webb, físico do departamento de pesquisa da Kodak, ficou responsável por conduzir a investigação.

Até hoje, os filmes de raios X utilizados em algumas câmeras são altamente sensíveis, e mesmo uma mínima exposição à luz pode danificá-los. As embalagens são a proteção do filme, garantindo que elas permaneçam em segurança. Quando Webb investigou o misterioso embaçamento descobriu que os danos não se originavam dos filmes de raios-X, mas da embalagem.

Explosão do projeto Trinity / Crédito: Wikimedia Commons

 

Após alguns testes, o físico escreveu em seu relatório que as manchas estavam sendo causadas por um “novo tipo de contenção radioativa não encontrada até agora”. A investigação de Webb mostrou que os locais onde a contaminação foi detectada eram próximas ao rio Wabash e ao rio Iowa, levando-o a acreditar que a contaminação vinha através da água.

O impacto da detonação da bomba foi mais forte do que se pensava, e deixou evidências nos rios a cerca de 724 km de distância. Logo Webb deduziu que algo que vinha de um lugar distante havia contaminado a água. Não se sabe se o físico da Kodak tinha conhecimento do projeto das bombas atômicas.

Entretanto, em seu relatório de 1949, ele escreveu: "A explicação mais provável da fonte desse contaminante radioativo parece ser que ele consistia em produtos de fissão radioativa derivados da detonação de bombas atômicas".

Julian H. Webb manteve-se em silêncio sobre sua descoberta. E em janeiro de 1951, após o meteorologista da Força Aérea norte-americana, o coronel BG Holzman, recomendar a escolha de um novo local de testes nucleares porque os ventos ocidentais provocam efeitos colaterais no país, Nevada se tornou o campo de testes para as bombas atômicas. No dia 27 daquele mês ocorreu a primeira detonação.

Modelo Kodak de 1945 / Crédito: Reprodução

 

Alguns dias depois da explosão em Nevada, em fevereiro de 1951, um contador Geiger na sede da Kodak, em Nova York, mediu leituras radioativas 25 vezes acima do normal. Com os equipamentos novamente danificados, no mês seguinte a Kodak ameaçou processar o governo dos EUA pela "quantidade considerável de dano aos nossos produtos resultantes dos testes de Nevada ou de qualquer outro teste de energia atômica”.

A empresa e o governo chegaram a um acordo e Webb tornou-se chefe da divisão de física da Kodak. Ele recebia cronogramas e mapas de testes futuros para que a empresa pudesse tomar as precauções necessárias para proteger seu produto. Em troca, as pessoas da Kodak deviam manter em segredo tudo o que sabiam sobre o teste nuclear do governo.