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Leonardo da Vinci era homossexual?

Uma das maiores polêmicas que envolvem o artista se refere ao seu relacionamento com Gian Giacomo Caprotti, seu discípulo preferido

Carlo Cauti Publicado em 21/07/2019, às 07h00

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- Crédito: Getty Images

“Veio a ficar comigo no dia da Madonna de 1490, com a idade de 10 anos.” Foi assim que Leonardo da Vinci relembrou em uma anotação a chegada de Gian Giacomo Caprotti em seu ateliê de Milão. O mestre tinha então 38 anos, e o jovem aprendiz parecia muito exuberante e agitado. O moleque incomodava os outros aprendizes, quebrava de propósito jarras de vinho e roubava tudo que podia.

Mesmo assim, Caprotti se tornaria em breve seu discípulo preferido, deixando um sinal indelével em sua vida. Tanto que o gênio toscano lhe deu o nome de Salaì, em referência ao sultão Saladino, líder islâmico nas cruzadas, que era tão sanguinário quanto sedutor.

Da Vinci/ Crédito: Getty Images

 

Leonardo logo começou a tratar o garoto de forma diferente. Salaì ganhava mais que os outros aprendizes, recebia presentes e era mimado pelo mestre, que aceitava todos os seus pedidos. Carinho paterno ou um relacionamento amoroso?

Hoje muitos historiadores tendem para a segunda hipótese, mas ninguém tem certezas absolutas. O certo é que entre os dois surgiu uma ligação peculiar. Tanto que, quando Da Vinci foi obrigado a deixar Milão, o fiel Salaì o seguiu em todas as suas viagens. Ao deixar a infância, o aprendiz ficou muito bonito, com cabelos loiros encaracolados, sorriso malicioso e os lineamentos delicados, quase femininos.

Leonardo ficou fascinado por essa beleza e retratou Salaì em numerosos desenhos. O rapaz virou modelo de pinturas como San Giovanni Battista, hoje no Louvre, em Paris. Alguns pensam que até a Mona Lisa seria inspirada no rosto de Salaì.

“Há alguns indícios, que vão da denúncia por sodomia em 1476 ao fato de que nunca se casou nem teve filhos, a completa ausência de relatos de suas amantes ou namoradas e seus comportamentos efeminados”, explica o professor Vezzosi. “Ao mesmo tempo, entre os escritos de Leonardo aparecem vários desenhos de órgãos genitais femininos e referências ao orgasmo da mulher. Ele devia saber do que estava falando para escrever isso com tanta precisão.”

Ainda segundo Vezzosi, ser homossexual na Florença da Renascença não era algo tão raro. “A cidade era muito mais tolerante e liberal do que outras cidades-estados italianas da época. Especialmente com os artistas. Tanto que se dizia que a homossexualidade era a ‘doença florentina’”, explica.