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Liberdade estrangulada: A Primavera de Praga

Há 51 anos os checos tentaram democratizar o comunismo, terminaram invadidos pela União Soviética

Reinaldo José Lopes Publicado em 05/01/2019, às 07h00

Reprodução

Um dirigente tímido e afável tornou-se, em 5 de janeiro de 1968, primeiro-secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia. Seu nome era Alexander Dubcek, e ele ficaria conhecido como o arquiteto da Primavera de Praga – uma tentativa corajosa, mas ingênua, de criar uma sociedade comunista e democrática ao mesmo tempo, espécie de “desestalinização” do sistema que predominava no país.

Dubcek vinha de uma família de entusiastas idealistas do socialismo e tinha até morado com os pais no território do atual Quirguistão, então o recanto mais atrasado da União Soviética, como prova da disposição da família em colaborar com o comunismo. Por tudo isso, Dubcek achava que suas credenciais pró-Rússia eram impecáveis e que os dirigentes da superpotência comunista jamais pensariam que ele fosse um traidor do socialismo.

Perto dos cidadãos de outros países comunistas da Europa Oriental, tchecos e eslovacos sofriam menos com a censura da imprensa, tinham mais liberdade artística e conseguiam viajar ao Ocidente com mais facilidade. Não era difícil encontrar jovens cabeludos e barbudos, fumando maconha e ouvindo Beatles, nas ruas de Praga.

Apetite por reformas

Essa liberalização incipiente gerou um apetite por mais reformas, e o primeiro-secretário se dispôs a responder a ele. “Dubcek decidira fazer uma reforma profunda na estrutura política do país, com a intenção de remover todos os vestígios do autoritarismo que ele considerava uma aberração no sistema socialista”, escrevem Regina Zappa e Ernesto Soto, autores de 1968: Eles Só Queriam Mudar o Mundo.

Sob Dubcek, a imprensa se tornou a mais livre de todo o bloco soviético, com reportagens denunciando a corrupção de antigos líderes do Partido Comunista e vários correspondentes ocidentais circulando pela capital, Praga. Foram traçados planos para estabelecer o multipartidarismo e para dar autonomia aos eslovacos, a etnia de Dubcek.

Alexander Dubcek Reprodução

A União Soviética, no entanto, não gostou nada daquilo. Dubcek sempre jurou lealdade aos russos, mas ficava no fogo cruzado entre os aliados poderosos e seu povo, cada vez mais apressado em suas exigências de mudança. “Por que fazem isso comigo? Não percebem quanto dano me causam?”, queixou-se ele a um companheiro de governo, referindo-se à pressão exercida pelos tchecoslovacos.

Em agosto, a tensão acabou dando lugar ao confronto: forças soviéticas invadiram a Tchecoslováquia. Dubcek recebeu a notícia chorando de incredulidade. “É uma tragédia. Não esperava que isso pudesse acontecer. Dediquei toda a minha vida à cooperação com a União Soviética e fizeram isso comigo”, disse à chefia do Partido Comunista tcheco.

A população do país tentou resistir de forma não-violenta, deitando-se na frente de tanques, escrevendo frases provocativas nas paredes (“O circo russo chegou à cidade. Não alimente os animais”) e transmitindo ao mundo, por rádio, o que estava acontecendo.

Alvoroço

Dezenas de estudantes e cidadãos comuns que eram a favor das reformas se arriscaram a lançar coquetéis molotov nos veículos blindados russos, sendo sumariamente fuzilados – ao todo, foram 72 mortos e 702 feridos. Outros, ingenuamente, tentavam argumentar com os soldados invasores e convencê-los de que deveriam voltar para casa. Até países comunistas que andavam se distanciando da influência da União Soviética, como a Iugoslávia e a Romênia, condenaram a invasão de uma nação aliada dos soviéticos.

Não adiantou: os russos e os quatro países que os apoiavam na invasão mantiveram a pressão e levaram toda a cúpula do Partido Comunista tchecoslovaco para Moscou. A desculpa oficial era uma negociação. Mas, na prática, os russos colocaram os “aliados” em prisão domiciliar e chantagearam os dirigentes do país para que eles repudiassem publicamente as reformas.

Pessoas nas ruas durante o episódio Reprodução

A União Soviética, no entanto, não tinha levado em conta a teimosia quase inabalável dos tchecoslovacos. Mesmo com o país ocupado, o presidente Ludvik Svoboda recusava-se a assinar um documento apoiando oficialmente a invasão orquestrada pelos soviéticos. Comunista da velha guarda, Svoboda estava convencido de que seria possível chegar a um acordo se a chefia soviética topasse sentar-se à mesa com os que haviam sido um dia seus aliados.

Dubcek e companhia mostraram-se duros na queda e ousaram defender as reformas diante do líder soviético Leonid Brezhnev. É claro que foram vencidos e forçados a desfazer a Primavera de Praga (que já tinha esse nome na época basicamente porque durou toda a primavera do Hemisfério Norte). Mas saíram de Moscou com duas conquistas importantes: seus pescoços ainda estavam intactos e não houve expurgo assassino na Tchecoslováquia.