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Lisboa vem abaixo: o grande terremoto de 1755

O terremoto que chocou a Europa, redesenhou a capital portuguesa e teve reflexos até na Inconfidência Mineira

Fernando Duarte Publicado em 01/11/2019, às 08h00

Terremoto de 1755 deixou entre 10 mil e 70 mil mortos e destruiu cerca de 85% das construções de Lisboa
Terremoto de 1755 deixou entre 10 mil e 70 mil mortos e destruiu cerca de 85% das construções de Lisboa - Wikimedia Commons

Era por volta de 9h40 de 1º de novembro de 1755. Portugal se orgulhava de ser o bastião do catolicismo, e as igrejas da capital estavam lotadas para a celebração do Dia de Todos os Santos. Lisboa, com 200 mil habitantes, era a quarta cidade europeia mais populosa na segunda metade do século 18.

Um quadro que ajudou a amplificar o impacto da primeira grande catástrofe natural moderna: naquela manhã de sol, um terremoto de força descomunal arrasou a cidade, matando milhares de pessoas e sacudindo muito mais do que apenas prédios e palacetes.

De acordo com testemunhas tão variadas como moradores da cidade e diplomatas estrangeiros, entrevistados pelas autoridades portuguesas, os tremores duraram de 3 a 6 minutos. Com epicentro no Oceano Atlântico, cerca de 200 km ao sul do arquipélago de São Vicente, o terremoto atingiu também o Marrocos e a Argélia, e foi sentido em outros países da Europa, incluindo a Inglaterra, com relatos de um tsunami que atingiu a costa da Cornualha.

Outras cidades portuguesas sofreram graves danos. Mas nenhum lugar foi tão devastado quanto Lisboa: o número de mortos é calculado entre 10 mil e 70 mil pessoas, e se estima que 85% dos prédios, incluindo marcos públicos, como o Palácio Real e igrejas, cheias de fiéis por causa do feriado santo, foram abaixo.

A tragédia foi maior ainda porque muitos habitantes de Lisboa correram para a beira do Rio Tejo com a intenção de fugir dos desabamentos e dos incêndios que se alastravam pela capital. A região, porém, foi atingida por uma série de tsunamis gerados em decorrência do terremoto. As ondas destruíram o porto e toda a parte baixa da cidade. O que não caiu ou ardeu em chamas acabou carregado pelas águas - um desastre até então inédito na Europa moderna.

Se provocou consternação de sobra em Portugal, a tragédia também impressionou vizinhos europeus. O terremoto de Lisboa foi a primeira e até agora maior catástrofe natural europeia devidamente registrada. Ocorreu num período em que a comunicação e a preservação da memória tinham avançado no continente, tanto que centenas de gravuras e imagens da tragédia foram confeccionadas em Portugal e no exterior.

"O terremoto teve um impacto no imaginário popular que pode ser comparado com o horror provocado pelo 11 de Setembro de 2001. Foi um evento que chocou o mundo da época. Já vi até comparações com a Bomba de Hiroshima. A repercussão foi imensa pela magnitude da destruição", diz o historiador inglês Edward Paice, autor de A Ira de Deus, uma reconstituição do terremoto. 

Era uma época turbulenta no que diz respeito ao relacionamento entre homem e Igreja. E a data da catástrofe não poderia ter sido mais sugestiva. O fato de Lisboa ter sido arrasada num dia santo não passou despercebido pelos dois lados do debate. Teólogos se apressaram em enxergar um castigo divino. Os iluministas tiveram no acontecimento um trunfo em seus argumentos em prol da razão sobre a fé.

A hipótese de castigo divino teve respaldo num país devoto como Portugal, embora a ironia de que o distrito de Alfama, onde ficava a zona do meretrício em Lisboa, resistiu ao terremoto por estar na parte mais alta da cidade, também tenha sido notada, assim como o fato de que quase 90% das igrejas lisboetas e pelo menos 80% de conventos e mosteiros terem sido reduzidos a escombros.

A tragédia levou a um questionamento da vontade divina. O filósofo francês Voltaire mencionou o sismo em seu seminal livro Cândido, atacando a noção de que "Deus sabe o que faz". Seu colega e compatriota Jean-Jacques Rousseau viu confirmada sua teoria de que a vida nas cidades era nociva ao ser humano - a aglomeração urbana em Lisboa teria contribuído para um maior número de mortes. Na Alemanha, Immanuel Kant foi uma das primeiras vozes a buscar uma explicação natural para o cataclisma.

A geologia era uma ciência nova no século 18 - estudos da época afirmavam que a Terra tinha 75 mil anos - e o terremoto ofereceu uma oportunidade preciosa de estudos, um empurrão para a criação da sismologia.

Uma iniciativa crucial veio na resposta das autoridades portuguesas à destruição. Lisboa e Portugal ficaram de joelhos após a catástrofe, os escombros do Palácio Real servindo de símbolo. O rei José I e sua família escaparam da tragédia por estarem fora da cidade, mas viveram como refugiados comuns nas colinas da Ajuda - o soberano ficou traumatizado e se recusou a dormir sob um teto.

Portugal só não ficou acéfalo porque o primeiro-ministro Sebastião de Melo chamou a responsabilidade para si. Mais conhecido por seu título de nobreza, o Marquês de Pombal comandou esforços de reconstrução impressionantes mesmo nos dias de hoje. A começar pela determinação em mostrar a mão forte do Estado.

Lei marcial

"Reis não se envolviam na administração, e as circunstâncias deixaram Pombal ainda mais poderoso. Ele era autoritário, mas é difícil não ter respeito pelo que fez para tentar trazer Portugal de volta à normalidade", diz Paice.

Pombal convocou batalhões para ajudar no combate aos incêndios e no resgate das vítimas e impôs Lei Marcial para conter saqueadores. Contrariando a doutrina católica, ordenou que cadáveres fossem recolhidos depressa para evitar doenças e atirados ao mar.

Alegoria ao Terramoto de 1755, por João Glama Strobërle / Crédito: Wikimedia Commons

Em 4 de dezembro de 1755, pouco mais de um mês depois da catástrofe, o engenheiro-chefe da corte, Manuel da Maia, já apresentava os planos de reconstrução. Eram cinco alternativas, do abandono da cidade a uma reforma completa. Pombal aprovou a quarta opção, que propunha um radical redesenho da Parte Baixa da capital.

Lisboa ganhou padronização na construção de casas e edifícios, nos aspectos estético e estrutural: uma trama de vigas de madeira conhecida como "gaiola pombalina", para melhor resistir a sismos, e mais espaçamento entre edificações para prevenir incêndios. Para testar a segurança dos prédios, Pombal criou um "simulador de terremotos" - tropas marchavam ao redor das edificações, criando pequenos temores.

Dos escombros, surgiu a Baixa Pombalina. Seus 236 mil m² viraram um dos mais estudados casos de projetos urbanísticos de larga escala no mundo. Pombal também tomou a decisão de fazer um censo da tragédia: questionários foram enviados a todas as paróquias pedindo informações sobre o terremoto.

Além de detalhes como rachaduras e intensidade dos tremores, o questionário de Pombal pedia observações sobre o comportamento de animais e mesmo sobre reduções de volume d"água em poços. Tais informações deram a cientistas subsídios para reconstituir os eventos geológicos de 1º de novembro, incluindo estimativas da intensidade do tremor - estima-se que o terremoto de Lisboa de 1755 tenha atingido de 8,5 a 9 graus na Escala Richter.

Pombal coordenou os esforços mesmo num momento em que Portugal tinha os bolsos vazios. Segundo o historiador e economista português Álvaro Pereira, a tragédia causou prejuízos da ordem de 48% do PIB da época. "A economia viveu uma fase de depressão entre 1750 e 1770 e obviamente a catástrofe não ajudou. Por outro lado, houve consequências positivas: o esforço de reconstrução reaqueceu setores da economia, como a construção civil", explica José Luís Cardoso, do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa.

Nenhuma surpresa, então, que as autoridades portuguesas tenham olhado para suas colônias na hora de pagar a conta. Especialmente a mais rica delas: o Brasil foi visto como tábua de salvação. Pombal aumentou os já rigorosos impostos sobre o ouro brasileiro vindo de Minas Gerais, acirrando o sentimento antiportuguês na região que anos mais tarde abrigaria o primeiro grande movimento pró-emancipação do Brasil, a Inconfidência Mineira.

Retrato de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Marquês de Pombal, por Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1766 / Crédito: Wikimedia Commons

A catástrofe aumentou a dependência econômica de Portugal junto à Inglaterra, por mais que Pombal tivesse tentado fomentar o desenvolvimento econômico do país, que vivia da exploração das colônias e comprava tudo dos ingleses. Hoje, Pombal é lembrado com uma coluna e uma estátua no centro da capital, mas caiu em desgraça após a morte de dom José I, em 1777. Destituído pela sucessora, Maria I, viveu no ostracismo até sua morte, em 1782.

Em 2004, o terremoto voltou a ser lembrado, com a publicação de um polêmico documento do Instituto Europeu de Estudos Marinhos. Pesquisadores detectaram atividades tectônicas na região e sugeriram que um novo grande tremor poderá atingir Portugal. Mas dificilmente terá tanto impacto nos rumos da história como o sismo de 1755, que mudou um país e um continente. E que tem nas ruínas do Convento do Carmo, no Rossio, uma rara lembrança.


Saiba mais sobre o trágico episódio 

A Ira de Deus - A Incrível História do Terremoto que Devastou Lisboa em 1755, Edward Paice, Record, 2010

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