Matérias » Bizarro

A loucura que caiu em um vinil – A estranha história do Okeh Laughing Record

Desagradável, assustadora e extremamente perturbadora, um clássico obscuro da indústria fonográfica americana, gravado em 1920, e que intriga e afeta as pessoas no mundo todo até hoje

M. R. Terci Publicado em 16/02/2020, às 08h00

A estranha história do Okeh Laughing Record
A estranha história do Okeh Laughing Record - Wikimedia Commons

“Senhor Vandeco o senhor está muito mal mesmo. O senhor tem um caso grave de trombonosis. Eu vou sugerir um repouso completo, num lugar quieto e bem distante porque se o senhor não se afastar desses trombones barulhentos todo o seu sistema nervoso vai desmantelar e o senhor vai explodir”.

Muitos entre vocês não irão se lembrar e outros, talvez, nem tinham nascido quando, nos anos 1980, o desenho animado SH-H-H-H-H-H da Turma do Pica-pau foi exibido pela primeira vez no Brasil.

O Sr. Vandeco – Mr. Twiddle no original – é um trombonista extremamente estressado que protagoniza o episódio em que seu psiquiatra lhe indica um retiro tranquilo nas montanhas para acalmar os nervos, um lugar tão silencioso que os funcionários e pacientes se comunicam apenas por sinais.

Finalmente, instalado em seu quarto, o Sr. Vandeco se prepara para adormecer confortavelmente e gozar de uma noite tranquila de sono. De repente, alguém no quarto ao lado começa a tocar trombone, enquanto outras pessoas começam a gargalhar descontroladamente. Depois de uma sucessão de situações desconcertantes e hilárias, o Sr. Vandeco invade o quarto vizinho e surpreende o seu psiquiatra tocando trombone enquanto sua auxiliar, uma enfermeira, não para de rir.

Esse foi o único episódio protagonizado pelo personagem.

Pudera, o senhor Vandeco explodiu.

Foi também o quarto e último desenho animado dirigido pelo lendário Tex Avery na Walter Lantz Productions. Tex ficou famoso por produzir desenhos durante a chamada Era de Ouro da animação americana. A maior parte de sua obra foi produzida nos estúdios da Warner Bros. e da gigante Metro-Goldwyn-Mayer, criando os personagens Pernalonga, Patolino, Droopy e ajudando no desenvolvimento de Gaguinho e Chilly Willy. Seus traços e influências podem ser encontrados em quase todos os desenhos produzidos nas décadas de 1940 e 1950.

O personagem do desenho, o Sr. Vandeco, provavelmente, é autobiográfico, pois foi criado em um período em que o diretor cinematográfico, animador, cartunista e dublador estadunidense, estava sofrendo de esgotamento e exaustão.

Cena do episódio citado / Crédito; Divulgação

 

O que torna o episódio SH-H-H-H-H-H diferente dos demais desenhos animados dessa época é a sonoplastia. Durante o tormento do Sr. Vandeco, Tex utilizou como fundo a Okeh Laughing Record – registro de riso Okeh – uma gravação no mínimo bizarra.

Sua criadora, a Okey Records, era uma fornecedora de fonógrafos norte-americana que migrou para o ramo das gravações em 1918. Fundada em 1916, em Nova York, pelo germano-americano Otto K. E. Heinemann, a Okeh foi subsidiária da Columbia Records e posteriormente da Sony Music.

Seus primeiros discos foram gravados no sistema vertical-cut, mas logo Otto migrou para o método mais comum da época, o lateral-cut. Sendo uma novidade no ramo, rapidamente a gravadora prosperou e ganhou notoriedade. Os discos comuns de 10 polegadas eram comercializados a 75 centavos, enquanto os de doze polegadas eram vendidos por 1,25 dólares.

Nos anos 1920, a Okeh lançou músicas populares, números de dança e esquetes de vaudeville – entretenimento embrião do stand-up moderno, predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930.

A gravadora também foi pioneira na prática de gravações fora do estúdio, utilizando caminhões móveis para registrar e catalogar as obras de dezenas de artistas dos primórdios do jazz e country norte-americano, imprimindo e comercializando milhares de discos de blues afro-americano e artistas R&B, nadando contra a corrente e contrariando as convenções da época. A Okeh foi também a responsável pela reintrodução de Little Richard a um amplo público na década de 1960.

Mas talvez a gravação mais comumente associada ao selo é o Okeh Laughing Record. Descrito pela Biblioteca do Congresso – a instituição cultural mais antiga dos EUA – como um dos registros mais incomuns, influentes e surpreendentemente duradouros já registrados, a Okeh Laughing é exatamente o que o nome implica.

Começa uma performance bastante lenta, triste e fúnebre de um trompetista, apenas para ser rapidamente interrompida pelo riso agudo, impenitente e, aparentemente, genuíno de mulher. Ela é rapidamente acompanhada por um segundo riso – um homem de voz profunda – que também parece incapaz de se conter. 

A mulher misteriosa e o homem continuam com as gargalhadas, construindo coro histérico que afoga e usurpa toda a atenção do trompete. Apesar de algumas tentativas do solista para retomar sua música, seus esforços não são páreo para os gemidos do riso de seu pequeno público, que continua até a gravação terminar em dois minutos e 20 segundos.

Bizarro e fundamentalmente isso é tudo que há para ouvir na gravação. No entanto, devido a sua natureza incomum e estranha, o registro se tornou uma sensação internacional.

Desagradável, assustadora e extremamente perturbadora, esse clássico obscuro da indústria fonográfica norte-americana, foi gravado em Berlim, em 1920, e até hoje intriga, perturba e afeta as pessoas do mundo todo.

Okeh Laughing Record / Crédito: Wikimedia Commons

 

Seus protagonistas são a berlinense Lucie Bernardo e o polonês Otto Rathke. Enquanto Lucie era uma cantora de ópera muito popular, o músico, compositor, líder da banda e humorista era pouco conhecido. No entanto, Otto era um músico de estúdio deveras solicitado no final dos anos 1910 e 1920. O trompetista triste é provavelmente Otto, embora algumas fontes sugiram que era o austríaco Felix Silbers, um virtuoso músico de Viena.

O Okeh Laughing Record vendeu cerca de um milhão de cópias o que a tornou uma das gravações mais populares da época e certamente a faixa mais ouvida no vinil que contava ainda com a faixa The Gypsy Baron – Wer Uns Getraut, composta pelo prolífico compositor de operetas Johann Strauss II, em seu lado B.

Curiosamente a gravação deu origem aos risos enlatados – gravados – utilizados pelos produtores de rádio e posteriormente nos programas de TV para estimular o riso na audiência durante a apresentação de comediantes em seus respectivos programas humorísticos.

Mesmo no Brasil – onde Caneta Azul ganha notoriedade da noite para o dia – o estranho hit da Okeh não chegou às paradas de sucesso, e, certamente, não é um disco que você ouviria duas vezes.

Para os ouvintes modernos, pode soar sinistro demais e um tanto quanto perturbador para as pessoas mais sensíveis, por isso, não recomendo. Mas como disse o psiquiatra do desenho animado: “Tem gente que não ouve o conselho de seus médicos”.

Ouça aqui a gravação na íntegra!


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


+Saiba mais sobre música através das obras abaixo

As raízes do rock, de Florent Mazzoleni (2014) - https://amzn.to/2QKcltX

O som da revolução: Uma história cultural do rock 1965-1969, de Rodrigo Merheb (2013) - https://amzn.to/2QFW3C7

Breve História do Rock, de Ayrton Mugnaini Jr. (2007) - https://amzn.to/2uuJ6Cu

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, assinantes Amazon Prime recebem os produtos com mais rapidez e frete grátis, e a revista Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.