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Manicômio de Barbacena: O Holocausto brasileiro que matou 60 mil pessoas

Conhecido por manter seus pacientes sob condições desumanas, o Hospital Colônia já foi taxado como um campo de concentração nazista

Mariana Ribas Publicado em 14/02/2019, às 10h00

Pacientes do Hospital Psiquiátrico de Barbacena
Wikimedia Commons

Em comunicado lançado na última semana, o Ministério da Saúde do atual governo ataca as demandas da luta antimanicomial, presente no Brasil há mais de 30 anos. Essas demandas foram criadas para combater as violações aos direitos humanos nos hospitais psiquiátricos após os anos 1970. O Ministério sugere novas diretrizes de políticas de saúde a respeito de doenças mentais e drogas, e abre possibilidades para que o terror dos manicômios se instale novamente - como aconteceu no caso de Barbacena.

O complexo manicomial conhecido por "Cidade dos Loucos" foi fundado em 12 de outubro 1903, em Barbacena, Minas Gerais. O Hospital Colonial de Barbacena, antes de ser um local focado no "tratamento" psiquiátrico, tratava pacientes vítimas da tuberculose. O isolamento dos tuberculosos explica a localização afastada do hospital, que fica em cima de uma montanha. O local também se mostrou perfeito para excluir os grupos marginalizados da sociedade.

A instituição era formada por diversos prédios e pavilhões, e cada um deles tinha uma especialidade. Entre eles estavam o Pavilhão Zoroastro Passos, para onde iam as mulheres indigentes; o Antônio Carlos, a área dos homens indigentes. Os pavilhões Afonso Pena, Milton Campos, Rodrigues Caldas e Júlio Moura recebiam todo o tipo de pessoas - sendo que 70% deles não tinham nenhum diagnóstico mental - eram, em sua maioria, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, viciados em drogas, e mendigos. Os indesejados pela sociedade.

No Manicômio de Barbacena, crianças recebiam o mesmo tratamento que adultos Wikimedia Commons

Os tratamentos funcionavam à base da tortura: utilizavam cadeiras elétricas, solitárias e camisas de força. Os pacientes eram submetidos à situações precárias de sobrevivência, como fome e sede extremas. Em alguns casos, chegavam a beber a própria urina. Nos pátios, viviam nus e em meio a ratos e baratas; urinavam e defecavam no chão.

Muitas pessoas eram colocadas no Manicômio de Barbacena pela própria família. Era o caso de mulheres indesejadas pelos maridos e parentes que tinham algum tipo de deficiência, transtorno ou distúrbio, como Síndrome de Down, autismo e dislexia. 

Wikimedia Commons

Os métodos de tratamento e as condições do Manicômio causaram a morte de mais de 60 mil pessoas. O período em que mais morreram pessoas nessa instituição foi por volta de 1960 a 1970, anos de início do Regime Militar no Brasil (1964-1985).

O psiquiatra italiano Franco Basaglia, responsável por revolucionar o sistema de saúde mental de seu país, chamou a instituição manicomial de "campo de concentração nazista", conhecida também como "Holocausto Brasileiro"

A luta antimanicomial

Nise da Silveira Wikimedia Commons

A resistência até mesmo por parte dos psiquiatras foi forte no Brasil, afinal, esse sistema de tratamento não ocorria só em Barbacena, mas era utilizado em mais de 150 locais, como o Hospital Psiquiátrico do Juqueri e a Colônia Juliano Moreira

A psiquiatra Nise da Silveira se destacou na luta antimanicomial brasileira. Nise foi a única aluna de uma sala cheia de homens a se formar em medicina na Faculdade da Bahia. Aluna de Carl Jung, dedicou sua vida a lutar contra o modo absurdo de "tratamento" aos pacientes psiquiátricos.


Saiba mais

Holocausto Brasileiro - Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes No Maior Hospício do Brasil, Daniela Arbex, Geração Editorial, 2013