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Marcelo Vip, o golpista que escandalizou o Brasil

Marcelo passou anos realizando artimanhas em busca de fama e vida boa. Chegou a se passar por herdeiro de linha aérea e deu até entrevista em rede nacional

Vinícius Buono Publicado em 24/01/2020, às 14h00

Marcelo Vip
Marcelo Vip - Divulgação

Quão longe você iria em nome de um estilo de vida? Para Marcelo Nascimento da Rocha, não existia distância nem obstáculo intransponível entre ele e seu objetivo, e esse geralmente envolvia um estilo de vida luxuoso e opulente.

Um dos maiores golpistas da história do país, Marcelo nasceu de família humilde em Maringá, no Paraná. Aos oito anos, viu o pai morrer em sua residência em Rondônia, e esse foi o gatilho para a vontade de viajar e conhecer o mundo.

Sem dinheiro para tanto, passou a empreender pequenos golpes ainda na adolescência. Viajava de ônibus pelo Brasil alegando ser parente dos donos das companhias rodoviárias, o que nem sempre dava certo.

Aos dezesseis anos, passou a frequentar delegacias da Polícia Civil do Paraná e aprendeu algumas coisas sobre o ofício. Com isso, aumentou seu repertório e começou a se passar por policial, principalmente do Grupo T.I.G.R.E (Tático Integrado de Grupos de Repressão Especial), um batalhão de operações táticas da polícia paranaense que protege seus integrantes sob anonimato e, quando em atuação, são encapuzados.

Por algum tempo, Marcelo viveu como policial. Hospedou-se na delegacia, passeou de viatura e fez até abordagens e prisões antes de ser desmascarado e preso por um dos homens que era realmente um policial — que foi lhe fazendo roleta russa até a cadeia.

Nem quando passou pelo exército, aos 18 anos, deixou de aplicar pequenos golpes, tentando fugir dos exercícios. Vendeu até motocicletas de posse das forças armadas.

Viajou por diversos lugares se passando por repórter de televisão, DJ ou integrante de alguma banda famosa como Engenheiros do Havaí, com quem chegou, inclusive, a cantar em bares, e Nenhum de Nós. Pouco antes da Copa do Mundo de 1994, fingiu ser olheiro da comissão do técnico Carlos Alberto Parreira. Dessa maneira, conseguia vantagens como hospedagem, alimentação, transporte… Tudo do bom e do melhor além, é claro, do prestígio.

Marcelo e Amaury Jr / Crédito: Reprodução

 

Passou a residir, com a família, nas proximidades de um aeroclube de Curitiba. Naturalmente, tornou-se frequentador assíduo do lugar até que traficantes da região recrutaram-no em troca dos seus serviços, contrabandeando drogas e produtos entre o Brasil e o Paraguai. Ocupou-se dessa atividade por alguns anos e chegou a se envolver com o DEA (Órgão para o Controle de Drogas) — o braço do FBI encarregado da investigação do narcotráfico, na Colômbia.

No início do século, em 2001, deu o golpe que lhe trouxe fama nacional. Em Recife, numa festa de carnaval, fora de época, cheia de celebridades, passou-se por Henrique Constantino, um dos diretores da empresa de aviação GOL Linhas Aéreas. Foi esnobado inicialmente pelos outros participantes da festa, mas ao se aproximar do ator Ricardo Macchi, revelou a sua nova identidade e deu até entrevista para o apresentador Amaury Jr.

Fez amizades com famosos e, após o término da festa, alugou um jato para encontrá-los no Rio de Janeiro. No aeroporto, chamou a atenção da Polícia Federal e foi detido. Segundo relatos, o juiz e a promotoria riram quando souberam dos detalhes do caso, mas Marcelo não escapou da cadeia.

Nela, passou por mais uma situação peculiar. Cumprindo pena no presídio de Bangu, uma rebelião de presos estourou e adquiriu tanta magnitude que chamou atenção até da mídia. Marcelo assumiu a identidade de Juliano e se colocou como líder dos presos rebelados. Apareceu, inclusive, no Jornal Nacional, fazendo demandas em nome dos detentos.

Ganhou o respeito deles e chegou até a dissuadir o planejamento de um assalto, mas orquestraram uma fuga bem-sucedida da cadeia. Ele foi pego novamente no Paraná pouco tempo depois.

Marcelo / Crédito: Reprodução

 

Em 2005, foi lançado o livro VIPs - Histórias reais de um mentiroso, contando a vida e as peripécias de Marcelo. Segundo o próprio, até na hora de negociar os direitos acerca da obra com a autora, a jornalista Mariana Caltabiano, ele usou de artimanhas, saindo com 50% de participação dos lucros.

Ao ser perguntado por ela como ele fazia para enganar as pessoas, Marcelo teria respondido: “da mesma forma que te convenci hoje”. Em 2010, o livro virou um documentário e, em 2011, Wagner Moura fez o papel de Marcelo em filme ficcional baseado na obra de Caltabiano. Chegou a concorrer a vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro de 2012.

O famoso golpista obteve permissão para o regime aberto em 2014. Passou a dar palestras para ex-detentos que buscam se ressocializar na sociedade, além de consultorias sobre técnicas de persuasão e defesa contra golpes em geral. Em 2018, voltou à cadeia por fraudar a progressão de seu regime penal com falsos atestados.