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101 anos depois, Milagre de Fátima continua a levantar questões

Em 13 de outubro de 1917, 70 mil pessoas afirmaram ter uma visão em Fátima, Portugal. O que realmente aconteceu é uma discussão séria ainda hoje

quarta 10 outubro, 2018
Milagre?
Milagre? Foto:Shutterstock

No dia 10 de maio de 1917, um pastor de 10 anos de idade chamado Severino disse ter visto uma mulher, antecedida por relâmpagos, com véu e vestido branco, pedindo que as pessoas rezassem o terço. Maravilhados, todos levaram a história ao padre, que a levou a seus superiores, buscando registrar um grande milagre.

Não estamos falando de Fátima, mas do Barral. O caso é parecidíssimo ao dos três pastores que receberam uma visão quase igual apenas três dias depois. Mas Severino não virou santo nem celebridade: levou uma vida humilde e anônima, e morreu em 1985. Uma capelinha discreta lembra a aparição. Enquanto isso, Fátima é um dos maiores centros de peregrinação religiosa do planeta. Qual a diferença? O que a Igreja decidiu fazer com cada história.

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Os escolhidos

Se, em algumas denominações, milagres parecem acontecer a baldadas, milagre católico é coisa rara. Só pode ser confirmado após análises criteriosas. São enviados especialistas, que entrevistam os envolvidos, buscam provas, questionam evidências. Quando eles falam em milagre, como o de 100 anos atrás em Fátima, Portugal, presenciado por uma multidão, esperam ser levados a sério mesmo pelos não católicos.

O que aconteceu foi assim: por volta do meio-dia de 13 de maio de 1917, Lúcia dos Santos, de 10 anos, e dois de seus primos mais novos, os irmãos Francisco Marto (8) e Jacinta Marto (7), teriam visto um clarão, seguido de uma visão. E recebido a recomendação da rezar o rosário. 

Os três pastorinhos de Fátima Wikimedia Commons

A mais velha orientou os dois a não comentar nada com ninguém, mas Jacinta não se segurou e falou tudo à mãe, Olímpia. Disse que os três tinham visto uma moça de casaco e manto brancos, meias na mesma cor, olhos negros, brincos de argolas e saias curtas, na altura dos joelhos. E, por fim, que ela havia prometido voltar mais cinco vezes, no dia 13 de cada mês, no mesmo local - um descampado usado para pastoreio pertencente à família de Lúcia.

A mãe e o pai de Jacinta e Francisco acreditaram nas crianças. Já Maria Rosa, mãe de Lúcia, correu para o padre local, Manuel Marques Ferreira. Queria que ele interrogasse a filha, a mais nova de sete irmãos, e a convencesse a admitir que estava mentindo. 

Maria Rosa era uma das poucas pessoas letradas da região e gostava de ler histórias para os filhos. Entre os livros favoritos da mãe estava Missão Abreviada, que contava a história de Monte Salette, na França, onde Nossa Senhora teria aparecido a duas pastoras, em 19 de setembro de 1846. As crianças francesas teriam visto um clarão, seguido de uma visão.

Ao que tudo indica por sua reação inicial, Maria Rosa via no relato da filha uma simples tentativa de chamar a atenção inspirada na história do livro. Mas Lúcia sustentou o relato. E continuaria a repetir tudo o que Nossa Senhora dizia, mês a mês.

Peregrinos em 13 de outubro de 1917 Wikimedia Commons

Até que, em agosto, os três pastores encontraram o administrador do conselho local, Artur de Oliveira Santos. Anticlerical empedernido, ele exigiu das crianças que confessassem a fraude - e as sequestrou. Estavam presas no dia 13. Nada disseram ao administrador e reencontraram a visão no dia 19.

De acordo com os depoimentos prestados pelas crianças na época, a mãe de Jesus aparecia sempre com as mesmas roupas e sempre com o mesmo pedido, o de que as pessoas rezassem o terço. Ela fazia também uma promessa: a sexta e última aparição, a de outubro, seria acompanhada de um milagre. O que aconteceu foi um fenômeno extraordinário e uma profecia constrangedora.

Nem todas as pessoas viram, mas muitos relatos de quem viu eram parecidos. Diante de 70 mil pessoas, enquanto a Virgem conversava apenas com as crianças, o Sol se tornou pálido, possível de olhar sem ferir os olhos. Depois, saracoteou pelo céu e mudou de cor, até voltar à sua posição original.

É possível que as pessoas tenham visto um evento natural perfeitamente explicável pela ciência: o parélio, um acontecimento atmosférico raro que ocorre quando a luz do Sol passa por nuvens formadas por cristais de gelo. 

Mas, na Portugal católica de 1917, ninguém pensou nisso. Parecia um milagre incontestável. Mais difícil de explicar foi a profecia.

"A guerra acaba ainda hoje; esperem cá pelos seus militares muito breve", Nossa Senhora teria dito. A Primeira Guerra Mundial não acabou naquele dia. Teria fim apenas em 11 de novembro de 1918, mais de um ano depois. Como uma aparição tão importante poderia estar tão errada?

Ninguém jamais apresentou uma solução. Jacinta repetiria algumas vezes para os adultos que a entrevistavam: "Não sei o que significa, só sei que ela disse".

Versão oficial

Nos anos que se seguiriam, toda a história das aparições seria reescrita e ajustada. Dois religiosos seriam protagonistas nesse processo: o padre Manuel Nunes Formigão e dom José Alves. O vexame da profecia errada não seria nenhum impedimento. "A Igreja, logo nos primeiros meses após as aparições, foi polindo e adaptando Fátima na medida do que lhe era mais conveniente", afirma a jornalista portuguesa Patrícia Carvalho em seu livro, Fátima, Milagre ou Construção?. 

"A Igreja Católica desempenha um papel importante para a constituição da legitimidade desses fenômenos", escreve a pesquisadora de antropologia social da Universidade de São Paulo (USP) Lílian Sales em um estudo sobre o tema. Ela diz que a aparição de Fátima não é tão diferente das que aconteceram antes ou depois, incluindo o século 20, marcado pela racionalidade. Ela apresenta inclusive algumas contradições e correções de versão graves. Mas foi escolhida pela Igreja para ajudar a renovar o interesse no catolicismo, que estava em crise em Portugal.

A partir de 1918, as crianças somem e entra o clero. Os dois primos morreram logo. Francisco, em 1919, vítima de pneumonia, aos 10 anos. Jacinta sofreu mais: em 1920, faleceu sozinha, em um hospital de Lisboa. "Com a morte de Jacinta, agiganta-se a lenda em torno da criança. Nos anos que se seguem, não param de aumentar os mitos em torno da menina, chegando mesmo a publicar-se que seu cadáver `fora encontrado a chorar sangue"", escreve a jornalista Patrícia Carvalho.

As crianças e os peregrinos em 1917 Wikimedia Commons

Muitos anos depois, Lúcia afirmaria que os meninos já sabiam que iriam morrer. A Virgem teria avisado a eles - mas, no decorrer de 1917, essa informação nunca havia sido mencionada. Os dois acabaram beatificados em 2000. A visita de João Paulo II naquele ano teve esse objetivo, o de celebrar esse processo. Agora, em 2017, os irmãos foram aclamados Santa Jacinta de Jesus Marto e São Francisco Marto.

Já Lúcia foi afastada. Em 1921, o bispo da cidade vizinha de Leiria, dom José Alves Correia da Silva, pedia que ela deixasse o local dos acontecimentos. Acabou enviada para um convento na Espanha e só voltaria a viver em Portugal a partir de 1946. 

O contato com o mundo exterior seria barrado. Até mesmo as cartas trocadas com a mãe, Maria Rosa, seriam vistoriadas pelo bispo. A pastora voltaria à Cova da Iria poucas vezes e não foi autorizada nem a ir ao enterro de Maria Rosa.

Enquanto isso, Fátima era transformada. Dom José Alves agilizou o processo de compra de imóveis da região. Proibiu a venda de bebidas alcoólicas aos visitantes, que num primeiro momento eram realizadas inclusive por familiares de Jacinta e Francisco. 

O bispo dom José Alves Correia da Silva, com a Irmã Lúcia Wikimedia Commons

Mês após mês, romeiros visitavam o local, principalmente nos dias 13 de maio e 13 de outubro. Bebiam da água suja de um poço aberto no local e muitas vezes a misturavam com terra da região. Um centro médico improvisado avaliava os possíveis milagres. 

Um dos casos foi problemático: em 1923, o jornal católico Voz de Fátima anunciou a cura de uma senhora chamada Judith Guimarães, que estaria à beira da morte. Faleceria dez dias depois.

Em 1920, a imagem oficial de Nossa Senhora de Fátima seria apresentada. Encomenda de um fiel, Gilberto Fernandes dos Santos, a um artesão de Braga, José Ferreira Thedim, foi elaborada com base em informações enviadas não pelos pastores, mas pelo padre Formigão. Pressionada, Lúcia passou a descrever a santa com uma saia mais longa do que a que ela havia visto na infância.

Refém da Igreja

A mando do bispo de Leiria, a freira enclausurada escreveria quatro memórias a partir de 1935 - 18 anos depois dos acontecimentos. Ali, recontou todo o acontecido. Adicionou três aparições anteriores, de um anjo, que teria se manifestado ao longo de 1916. 

Mudou detalhes, acrescentou uma oração que Maria teria ditado. Adicionou uma recomendação, que teria surgido durante uma sétima aparição, esta privada, recebida em 1925 dentro do claustro: a de que os católicos realizassem atos de devoção e oração em cinco primeiros sábados, cinco meses consecutivos. O pedido seria adotado como recomendação oficial da Igreja. Mas, principalmente, detalhou os segredos que a Senhora havia transmitido, aos quais as crianças até então faziam apenas referências lacônicas.

O primeiro, ela escreveu, consistia em uma visão do inferno. "Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra", Lúcia escreveu em suas memórias. "Mergulhados em esse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor."

O segundo era um pedido de que os fiéis realizassem o culto ao Imaculado Coração de Maria. Já o terceiro ela dizia não ter autorização para revelar. Escreveu em uma carta e enviou ao Vaticano, onde ficou guardada. Só no ano 2000 ele veio à tona: trata-se de uma visão de um papa sendo assassinado. 

O papa João Paulo II após o atentado Reprodução

A Igreja interpretou como uma antiga profecia a respeito do atentado contra o papa João Paulo II, realizado precisamente num dia 13 de maio, em 1982. Devoto de Fátima desde então, o papa mandou colocar a bala retirada de seu corpo na coroa da imagem oficial da santa.

Em 1930, um relatório elaborado por uma equipe liderada pelo padre Formigão confirmou que a Igreja considerava válidas as aparições de 1917. O Vaticano desobriga os fiéis a acreditar nesse tipo de evento, mas, em 1953, a grande basílica de Fátima seria inaugurada. Duas décadas depois, a cidade era outra.

Casos similares

Para centenas de supostas aparições de Maria, foram apenas 16 casos reconhecidos e legitimados. "As aparições da Virgem Maria são fenômenos bastante antigos no catolicismo. Historiadores demonstram a existência de manifestações de contato entre a Virgem e os humanos desde a Idade Média", afirma Lílian Sales. 

Em seu livro, Patrícia Carvalho lembra que, dessas centenas de visões, registradas desde pelo menos o século 12, mais uma aconteceu em Portugal, em 10 de maio de 1917, apenas três dias antes da primeira aparição de Fátima. 

Além do Severino que abre a matéria, houve o caso de Alexandrina Maria da Costa, do povoado de Balasar. Paralítica desde 1925, ela teria passado mais 30 anos de vida tendo visões de Maria e de Jesus, curado doentes e se alimentado, por 13 anos, exclusivamente de hóstia. Alexandrina foi beatificada por João Paulo II, mas o culto a ela não foi estimulado com a construção de igrejas e centros de peregrinação.

Já em 1946, Maria teria sido vista por outra moça portuguesa. Era Amélia da Natividade, uma jovem de 22 anos doente, que vivia na cama e dizia receber durante a noite chagas e marcas de cruzes marcadas na testa e nas mãos, enviadas por Nossa Senhora. 

Neste caso, a Igreja não estimulou o culto - Amélia foi enviada ao hospital da Universidade de Coimbra e declarada uma farsante. Também seria desacreditado pela Igreja o caso de Maria da Conceição Mendes Horta, que começou a falar em visões e a realizar um trabalho social nos anos 1960 e continuou até a morte, em 2003.

"A verdade é que Fátima não deixava espaço para mais nada", escreve Patrícia Carvalho. "Por mais que os outros `videntes" não se contradissessem e que o povo afluísse aos milhares para os novos locais de cada `aparição", seria extremamente complicado colocar novos locais `sagrados", um confronto como que já fora assumido, em 1953, como o `altar do mundo"".

Um dos maiores críticos desse culto é o padre português Mário de Oliveira. Em seu livro Fátima Nunca Mais, ele chega a afirmar: "Alguns clérigos mais fanáticos do catolicismo obscurantista e moralista de então haviam conseguido arrastar a pequenina Lúcia para fora da sua aldeia e encurralaram-na. O terreno estava, pois, mais do que preparado para obter dessa antiga `vidente" uns relatos bem mais completos das `aparições", os quais, duma vez por todas, impusessem Fátima à Igreja e ao mundo".

8 milhões de visitantes

Em 13 de maio deste ano, 2017, o papa Francisco visitou a basílica do povoado de Aljustrel, em Fátima, a 130 quilômetros de Portugal. Foi o quarto pontífice no local - antes dele, estiveram ali Paulo VI em 1967, João Paulo II em 1982, 1991 e 2000 e Bento XVI em 2010.

Como todos os anteriores, Francisco se apresentou como peregrino, e não como o chefe da Igreja Católica. Declarou: "Se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a ele". Canonizou Jacinta e Francisco.

A estátua da Virgem de Fátima numa procissão Wikimedia Commons

Estiveram na cidade nesse dia mais de 1 milhão de pessoas. É um número impressionante, mas corriqueiro: todos os anos, são 5 milhões de visitantes. A cidade, que atualmente tem 7 mil moradores, hoje abriga uma basílica, uma capela, uma praça de eventos, uma estação de ônibus, estacionamentos e hotéis, lojas com souvenires e uma fonte para quem quer levar a água local, que teria poderes curativos.

Lúcia faleceu em 2005, num domingo, dia 13 de fevereiro, aos 97 anos enclausurada desde os 14. Em uma de suas memórias, ela afirmou: "Ofereço a nosso bom Deus e ao Imaculado Coração de Maria este pequeno trabalho".   

Tiago Cordeiro


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