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Regras específicas e moeda única: conheça Molossia, o país localizado dentro de Nevada

Em conflito com a Alemanha Oriental desde 1983, o tétrico país rejeita armas de fogo e cebolas

Fabio Previdelli Publicado em 08/09/2020, às 09h54

Kevin Baugh, o presidente da Molossia
Kevin Baugh, o presidente da Molossia - Divulgação/Twitter/Molossia

Provavelmente você já deve ter ouvido falar sobre países-enclave. Para quem não está habituado, a particularidade nada mais é do que um território encravado no meio de outro. Como se fosse uma ilha, só que, ao invés de serem cercados por água, eles são delimitados por terras de outro país.

Um exemplo para isso é San Marino, um país situado nos Apeninos que é completamente envolto pela Itália, assim como o Vaticano.  Todavia, diferente dessas duas situações, existe uma nação que fica dentro dos Estados Unidos, mas que não é oficialmente reconhecida como um país pelas Nações Unidas ou por qualquer outra grande potência mundial. Trata-se da República da Molossia, um país independente autoproclamado no deserto de Nevada.

Há cerca de meia hora a leste da cidade de Carson City e à esquerda da Rota 50 dos Estados Unidos, um pequeno terreno em Dayton Valley abriga o coração da República da Molossia, uma micronação que possui sua própria política, assim como sua própria moeda, marinha, serviço postal, programa de foguetes e, até mesmo, um presidente.

O rosto de Kevin Baugh está estampado nas garrafas de água do país / Crédito: Amy Lombard

 

Com uma população de 33 cidadãos, incluindo alguns cães — há também um gato, mas ele não foi homenageado com a cidadania, pois, segundo o presidente, ele é uma “fonte constante de irritação”, além de não demonstrar ser muito confiável — a minúscula nação comemorou seu 40º aniversário, em 2017, sob a liderança de seu irrepreensível presidente, Sua Excelência Kevin Baugh.

Descrito por sua esposa como um “ditador benevolente”, Kevin recebe de maneira peculiar as pessoas que decidem se aventurar pela Molossia. Além de o traje militar, ele também utiliza uma faixa de três cores, que representa a bandeira nacional, presa com uma dragona de ouro. Outro assessório marcante é seu quepe, que junto com óculos escuro, ajudam a cobrir metade de seu rosto.

A Molossia Trading Company, onde os visitantes podem comprar camisetas de lembrança / Crédito: Amy Lombard

 

Assim como qualquer nação, Molossia também tem suas regras. Algumas coisas não são permitidas por lá, como: armas de fogo e munições, qualquer tipo de explosivo, espinafre, bagres, missionários ou vendedores, morsas, cebolas e qualquer coisa originária do Texas (exceto a Kelly Clarkson).

A expedição pelo país demora aproximadamente duas horas, tempo suficiente para os turistas conhecerem todas as belezas de lá: parques nacionais, a Torre dos Ventos, monumentos decorativos com cascalho e terra vermelha, cemitérios e até mesmo um campo de batalha. Conflitos já aconteceram no país. Os mais famosos entre eles são a ‘Guerra do Cachorro Morto’ e a ‘Guerra com o Bigodestão’.

A história da República da Molossia começou quando o Presidente Baugh era chamado apenas de Kevin, um adolescente como outro qualquer. Naquela época, ele e seu amigo, James, moravam em Portland, Oregon, e ficaram impressionados depois que assistiram o filme ‘O Rato que Ruge’.

Assim nasceu, inicialmente, a Grande República de Vuldstein, onde James era o rei e Kevin era o primeiro-ministro. Entretanto, com o passar dos anos, James ficou velho e abandou o reinado. Mas Baugh havia sido fisgado, e levava a Grande República de Vuldstein em cada viagem que vazia. Somente em 1990 o país desembarcou em Nevada e adotou seu nome atual. A decisão de mudar o nome de Vuldstein para Molossia foi com o objetivo de deixá-lo menos germânico.

Por falar em Alemanha, a Molossia está em conflito com a parte Oriental do país europeu desde 1983 — período que Kevin servia no Exército. Na ocasião, ele foi acordado no meio da noite pelos militares e ele jurou que Vuldstein estava em guerra contra a injustiça.

Segundo o déspota, mesmo após a queda da Alemanha Oriental, uma parte dela ainda permanece viva. Baugh diz que a Ilha Ernst Thälmann — localizada na costa de Cuba e que foi dada como um presente de Fidel Castro para a Alemanha Oriental em 1972 — jamais foi mencionada em nenhum tratado de paz no final da Guerra Fria. Por isso, ele permanece sempre atento contra uma possível invasão.

Condecorações no uniforme de Kevin Baugh / Crédito: Amy Lombard

 

A família Baugh anuncia o país com um site e também participa em dois desfiles locais de Nevada. Caminhando ao lado de grupos de ginástica e celebridades locais de Nevada, eles conseguem mostrar seu pequeno país a milhares de pessoas todos os anos. Embora a maioria dos anos seja agradável para o pequeno país, o presidente observou que havia apoiadores de Trump que não eram fãs da ingenuidade de sua família.

O relacionamento entre Molossia e as áreas circundantes se estende além do turismo e dos desfiles, como por exemplo: Baugh e sua família compram mantimentos na "América" e denominam o ato como “importação de produtos”. Alegando dupla cidadania, os membros da família Baugh, maiores de idade, participam de eleições locais e nacionais americanas, além de pagar impostos.

Estimulados por Kevin, os moradores da Molossia adoram fazer filmes no que eles chamam de 'Mollywood'. Eles publicam um boletim mensal que detalha tudo o que está acontecendo, juntamente com seu próprio programa de rádio molossiano.

Para os molossianos, melhorar constantemente seu território é um projeto que eles aparentemente gostam. Mas isso é difícil quando o dinheiro é escasso e os EUA não aceitam a moeda local como forma de pagamento.