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Conheça a insólita saga dos monges budistas que se auto-mumificavam ainda em vida

Conhecidas como sokushinbutsu, as múmias japonesas passavam por um longo e tortuoso processo em busca da ascensão espiritual

Vinícius Buono Publicado em 07/08/2019, às 08h00

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Sokushinbutsu: monges budistas que se mumificavam ainda vivos / Crédito: Reprodução

Embora as múmias mais conhecidas do mundo sejam as do antigo Egito, elas não são as únicas. No extremo oriente, principalmente no Japão, existem processos de mumificação budistas e o passo a passo é um pouco mais insólito do que o embalsamento das egípcias.

Conhecidas como sokushinbutsu, essas múmias eram resultado do processo empreendido pelos monges shingon (uma das maiores vertentes do budismo no país). 

Um dos monges que passaram pelo processo / Crédito: Reprodução

 

A prática, demorada e feita com os monges ainda vivos, veio da China, trazida por Kukai, o fundador da escola shingon e foi aperfeiçoada nas Três Montanhas de Dewa, um conjunto de três montes sagrados em Yamagata, província ao norte do Japão.

Dava-se da seguinte forma: o monge passava mil dias comendo apenas produtos das árvores encontrados nas montanhas, como pinhas e sementes. A intenção era eliminar o máximo de gordura corporal possível. Eles reduziam a quantidade de água ingerida até praticamente parar, causando encolhimento dos órgãos. Também fazia parte da rotina beber apenas um chá que causava vômito e perda de fluidos corporais.

Crédito: Reprodução

 

Ao término do ritual, os já debilitados monges entravam em tumbas de pedra com espaço suficiente apenas para seus corpos em posição de lótus. A tumba possuía apenas uma saída de ar para que respirassem e todos os dias o religioso devia tocar um pequeno sino, como um aviso de que ainda estava vivo.

Quando o sino parava de tocar, imaginava-se que ele tinha morrido e a tumba era hermeticamente selada. Dessa forma, a mumificação estava completa, com a pele e os dentes intactos e sem a necessidade do uso de conservantes, como faziam os egípcios.

Apenas 24 múmias foram encontradas no extremo oriente, mas especula-se que existam centenas. Isso porque a prática era popular entre os monges, que encaravam o processo como uma forma de transcendência, não como suicídio

A múmia de Luang Pho Deng, na Tailândia, com seu par de óculos escuros / Crédito: Wikimedia Commons

 

Morrer dessa forma era uma evidência de que aquele monge era de fato um bodhisattva, ou seja, alguém que está no caminho para se tornar um buda — ou iluminado. O costume existiu por muitos anos, sendo proibido só no período Edo, durante o século 18.

Apesar do sokushinbutsu ser mais popular no Japão, a mais famosa múmia está em exposição na Tailândia, e carrega algumas peculiaridades. O monge Luang Pho Deng morreu durante a meditação já no século 20, em 1973, e os cuidadores do templo onde ele se encontra deram uma curiosa adição: um par de óculos escuros para disfarçar o estado decomposto dos globos oculares.