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A morte é estranha: Os ritos funerários mais chocantes do mundo

Colar de dedos amputados, sacrifício de búfalos, canibalismo ritual e mutilações cadavéricas, as práticas mais controversas e incomuns para se despedir dos entes queridos

M. R. Terci Publicado em 14/09/2019, às 08h00

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- Pixabay

Diz-se que todos somos iguais no nascer e no morrer. Isso nem sempre ocorre de modo linear dentro de uma ordem econômica ou social semelhante, mas vida e morte são aspectos comuns da existência, fatos distintos, conquanto intrínsecos.

Independentemente de nossas crenças, qualquer que seja o destino que nos esteja reservado, ao final da vida, o protagonismo se encerra e, impotentes, veremos descer o pano sobre o palco da vida. Mas o show deve continuar e uma vez adequadamente vestido, o morto está pronto para o velório e para aquilo que valha consolar ou causar assombro aos vivos.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, sondar as motivações seculares e as diferentes crenças que inspiram práticas funerárias surpreendentemente incomuns.

Amputação das falanges

Em algumas culturas, a automutilação, conquanto extrema, é uma forma tradicional de luto. Na fronteira entre a Indonésia e Papua-Nova Guiné, os membros da tribo Dani cortavam a ponta dos dedos como forma de expressar dor e tristeza pela perda de um parente.

Após a amputação, a falanges são queimadas e enterradas em um local reservado ou simplesmente usadas para fazer colares que adornavam o pescoço do falecido. Nos dias de hoje, a prática foi proibida, mas muitas famílias ainda seguem a tradição.

Meses em casa

Os indígenas Toraja, uma população que vive nas montanhas da Indonésia, possuem um ritual funerário tão estranho quanto longo. Depois de embalsamados, os mortos passam o ano todo com os seus familiares dentro de casa.

O ritual Ma'Nene / Crédito: Reprodução

 

Os mortos são despidos, limpos, vestidos novamente e simbolicamente nutridos até que o processo de decomposição esteja bem avançado. Finalmente, no dia de seu enterro, dois búfalos são sacrificados e o cadáver é carregado nos ombros dos familiares até o local de descanso.

Canibalismo ritual 

Na Índia, os ascetas Aghori Sadhu comem a carne de seus mortos. Para eles, ruim é bom, vida é morte e sujo é limpo. Com a convicção de que obterão grandes poderes físicos e mentais, os Aghori banham os cadáveres de seus companheiros nas águas do Rio Ganges e depois comem a carne em decomposição.

Loção de cadáver liquefeito 

Na Austrália, algumas etnias aborígenes creem que as virtudes do defunto podem ser transmitidas para os mais jovens, por isso, quando alguém morre, eles não enterram o corpo de imediato.

Ritual australiano / Crédito: Reprodução

 

Preparam uma espécie de colcha de ramos verdes que servirá para envolver o morto e absorver os fluídos decorrentes da decomposição. Passados muitos dias, os anciãos desmancham a colcha e utilizam seus ramos para untar o corpo dos mais jovens com o pungente caldo.

Carne jogada às feras

Os enterros a céu aberto no Tibete são um ato de caridade e compaixão com os animais. Muitos tibetanos, em especial os budistas, esquartejam seus mortos e os deixam à borda de despenhadeiros, em vales profundos ou à margem de bosques para servirem de alimento para abutres e leopardos das neves. Como acreditam em reencarnação, para eles, cadáveres nada mais são do que cascas vazias.

Enterro a céu aberto / Crédito: Reprodução

 

Fazendo o que gosta

A população de Porto Rico é predominantemente formada por católico-romanos. Manifestam o luto através do uso de roupas pretas, rezam pela alma dos mortos, além de manter um comportamento de recolhimento, vigília e respeito pelo defunto.

Morto montado em sua motocicleta / Crédito: Reprodução

 

No entanto, algumas famílias têm o costume de vestir e preparar o corpo de seus entes queridos em posições que se assemelham à suas atividades preferidas em vida. No lugar do caixão, comumente se vê o morto montado em sua motocicleta, sentado em sua poltrona predileta assistindo um jogo ou, ainda, em pé, como se estivesse batendo um papo um meio aos convidados.

Debaixo da cozinha

Talvez soe macabro, mas a experiência de um funeral em terra estrangeira pode nos dizer muito sobre a cultura local. Nas Filipinas, ao norte de Luzón, os Apayos habitam a mesma área que os Igorot que amarram e estaqueiam nas alturas dos penhascos os caixões de seus entes queridos.

Ritual funerário / Crédito: Reprodução

 

Seus costumes funerários, contudo, diferem muito. Os Apayos vivem principalmente ao longo dos rios, em grandes casas arejadas que ficam em cima de postes de madeira e, quando perdem parentes, o costume é enterrá-los sob a área da cozinha. É uma prática única que demonstram, na sua cultura, amor e carinho pelo falecido.

Na pira funerária junto com o marido

Antigamente, as mulheres indianas, devotadas aos recém falecidos cônjuges, praticavam o Sati, ou seja, se jogavam, voluntariamente, na pira funerária onde os maridos estavam sendo cremados.  O termo tem origem no sacrifício de Sati, a primeira esposa do deus Shiva, que se matou, numa demonstração de fidelidade ao amado.

O costume foi proibido por lei pelas autoridades britânicas em 1829, acatando reivindicações de reformistas indianos. Mas, em algumas regiões mais tradicionais, ainda acontece. O último Sati que se teve notícia ocorreu em 2006, na vila de Tuslipar, no Estado de Madhya Pradesh, centro do país. O anterior, envolvendo uma mulher de 65 anos, também ocorreu em Madhya Pradesh, em 2002.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.