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Grávida e com olho de pedra: a múmia da nobre egípcia Neskhons

A dama tinha os lóbulos da orelha alongados e esticados, o que provavelmente indica que ela usava brincos muito pesados com frequência

Isabela Barreiros Publicado em 05/05/2020, às 07h00

A múmia de Neskhons
A múmia de Neskhons - Wikimedia Commons

O túmulo DB320 pode ser considerado uma espécie de esconderijo para múmias do Egito Antigo. A enorme tumba, localizada na necrópole de Tebas, no Egito, abrigava pelo menos 50 restos mortais de faraós, rainhas e nobres do Egito Antigo, contando ainda com muitos equipamentos fúnebres dessas pessoas.

A tumba de Deir el Bahri foi a responsável por guardar os corpos de figuras importantes como Seti I, Tutmés III e Ramsés II, por exemplo. Mas, além deles, outros indivíduos menos conhecidos — ainda considerados como relíquias — também foram escondidos e armazenados no local. Neskhons foi uma dessas pessoas.

O que se sabe é que sarcófagos, no geral, sempre sofriam com constantes saques feitos por vândalos. Os pesquisadores acreditam que algumas múmias apenas sobreviveram a essas drásticas situações devido a essa tentativa de proteger os cadáveres mumificados. Isso teria acontecido quando, em algum momento durante a dinastia 21, pessoas coletaram algumas múmias e as colocaram em uma outra tumba, para, assim, enganar saqueadores. A técnica funcionou, visto que hoje ainda temos acesso a inúmeras delas, encontradas no túmulo DB320.

O caixão de Neskhons

O sarcófago de Neskhons / Crédito: Wikimedia Commons

 

Também conhecida como Nsikhonsou, Neskhons pertenceu à família real da 21ª dinastia do Egito, sendo uma nobre dama. Filha do sacerdote Smendes II e Takhentdjehuti, provavelmente foi esposa de seu tio paterno, o Sumo Sacerdote Pinedjem II. O casal teve quatro filhos, Tjanefer, Masaharta, Itawy e Nesitanebetashru.

Seu caixão é objeto de uma enorme incerteza. O sarcófago de Neskhons foi desenterrado pela primeira vez em 27 de junho de 1886 pelo egiptólogo francês Gaston Maspero. No entanto, existiam dois caixões, um externo e o outro externo, que se acredita não terem sido construídos originalmente para ela.

Arqueólogos sugerem que o túmulo foi feito para abrigar o corpo da irmã de Pinedjem II, Isetemkheb, que também foi sua primeira esposa. Morrendo antes de seu marido, foi colocada no caixão. Mas a confusão ainda não terminou.

A múmia de Neskhons / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tanto o caixão interno quanto o externo foram encontrados. No entanto, um deles foi reutilizado, abrigando, em vez de Neskhons, o faraó Ramsés 4. O reuso de sarcófagos foi uma prática comum no Egito Antigo, mas o que intriga os pesquisadores é que não se sabe se isso foi apenas uma reutilização ou se a nobre teria doado o caixão para o enterro.

A primeira tese é sustentada pelo fato de que, aparentemente, não houve nenhuma tentativa de redecoração do caixão, que agora abrigaria uma múmia do sexo masculino, não mais feminino.  Já a última hipótese se apoia no conhecimento de que a mulher também doou roupas de cama a serem utilizadas na embalagem da múmia do governante.

Ainda junto com ela, foi descoberta uma tábua de madeira que continha um decreto escrito. Acredita-se que o artefato encontrado tenha sido uma espécie de “feitiço” grafado, feito no intuito de garantir seu bem-estar em sua vida após a morte, impedindo-a de causar problemas a seu marido e filhos. A proposta pode indicar problemas familiares envolvendo Neskhons.

A múmia de Neskhons

Crédito: Wikimedia Commons

 

Mesmo que tivesse sido encontrada em 1886 por Maspero, foi apenas em 1906, 20 anos depois, que Neskhons foi totalmente descoberta, dessa vez pelo egiptólogo australiano Grafton Elliot Smith. Foi ele também quem analisou profundamente a múmia, tentando desvendá-la.

Smith não conseguiu descobrir a idade com que a nobre morreu. No entanto, observou que seus cabelos ainda não estavam brancos, o que poderia indicar que ela faleceu ainda relativamente jovem. Além disso, percebeu seu estômago apresentava uma aparência inchada e seus seios estavam aumentados, o que fez com que o pesquisador sugerisse que ela havia morrido grávida, em trabalho de parto ou ainda devido a uma infecção pós-parto.

Seu escaravelho de coração foi roubado por ladrões de túmulo, assim como grande parte do ouro contido em seu caixão.

Neskhons ainda recebeu olhos artificiais feitos de pedra, aos quais Smith acrescentou uma observação curiosa — ele observou que os fragmentos haviam "se desintegrado muito”. Para descrever o rosto da múmia, utilizou os seguintes adjetivos: estreito, elíptico e gracioso. A técnica de embalsamamento, no entanto, fez com que grossas camadas de resina incrustada obscurecessem as características faciais da nobre.

Suas orelhas tinham os lóbulos, além de furados, visivelmente alongados e esticados. Para o pesquisador, isso indicava que a dama usava brincos muito pesados frequentemente.


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