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Murder Inc.: Os assassinos judeus da Máfia italiana

Os criminosos judeus montaram a mais eficiente máquina de matar da máfia de Nova York, nos anos 30

Sergio Gwercman Publicado em 04/10/2019, às 13h00

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Em caso de necessidade, a ligação era feita para uma doceira na esquina das ruas Saratoga e Livonia, no Brooklin. Rose Gold, a simpática dona da loja que tinha um dos poucos telefones das redondezas, atendia o chamado e encaminhava o recado: Abe Reles e seus comparsas tinham serviço. Era ali que funcionava o escritório da Murders Inc.

Foram tantos telefonemas que, em meados da década de 30, a companhia já era a mais eficiente tropa de assassinatos por encomenda na história da máfia nos Estados Unidos. Para fazer parte do grupo exigia-se pouco do candidato: ele apenas precisava ser durão e, de preferência, judeu.

O comando da tropa estava a cargo de Louis Buchalter, o Lepke – o apelido é um diminutivo de Lepkeleh, algo como Luizinho em ídiche, a língua falada pelos judeus da Europa central. Quando saía uma ordem de execução, era ele quem acionava o esquema que terminava com o telefonema para a lojinha da dona Rose. Filho de judeus imigrantes da Rússia, Lepke conquistou poder e dinheiro controlando sindicatos e extorquindo comerciantes e industriais.

O chefão Louis Lepke Buchalter / Crédito: Reprodução

 

Para desconhecidos, gostava de se apresentar como alguém do ramo de padarias - um negócio associado aos judeus por séculos na Europa central - enquanto alguns forneciam farinha, panelas e fornos, ele e seu parceiro Jacob Gurrah Shapiro cuidavam da segurança. O negócio valia mais de 1 milhão de dólares ao ano para a dupla, uma fortuna nos valores da época. Calcula-se que durante a Depressão norte-americana cerca de 10% de tudo que era consumido em Nova York ia parar nos bolsos dos gangsteres, numa espécie de imposto da máfia.

Trabalho em sintonia

Lepke trabalhava em sintonia com outros líderes do crime, quase todos também judeus. Arthur Dutch Schultz Flegenheimer dominava o Harlem, onde controlava uma loteria ilegal – a versão norte-americana do "bicheiro". Com ele não havia modernidade administrativa. Schultz sabia que sua principal força estava no uso da violência. Outros chefes eram Bugsy Siegel, que em 1946 abriria o primeiro cassino de Las Vegas, e Meyer Lansky, considerado o maior cérebro da história da máfia.

Meyer Lansky / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sua especialidade era descobrir novas possibilidades para o submundo ganhar dinheiro. Lansky também era amigo do siciliano Charles Lucky Luciano e foi um dos principais responsáveis pela união dos criminosos judeus e italianos na década de 30 – uma relação que existia desde o início do século, quando se juntavam para resistir aos gangsteres irlandeses, então grande força criminosa da cidade.

Em comum, todos tinham a mesma origem. O mentor intelectual do grupo atendia pelo nome Arnold Rothstein e pode ser considerado o inventor do mafioso moderno. Filho de uma família rica, Rothstein se apaixonou por uma goy, uma cristã e, num episódio tipicamente judaico, acabou deserdado pelo pai.

Com boas conexões (e por boas conexões entenda políticos e policiais), ele rapidamente conseguiu montar cassinos que recebiam alguns dos nomes mais importantes de Nova York. Quando a Lei Seca foi aprovada, foi o primeiro a ver ali uma oportunidade multimilionária de negócios. Rothstein investiu na montagem de um esquema sofisticado. A bebida vinha da Inglaterra em navios que ancoravam em águas internacionais.

Lá eram encontrados por lanchas, que desembarcavam o carregamento em praias desertas onde caminhões esperavam para transportar o contrabando para depósitos em Manhattan. Como os policiais estavam todos subornados, o único risco para o negócio eram os gangsteres rivais de olho na mercadoria. Para proteger seus investimentos, Rothstein contratou soldados para escoltar a bebida.

Entre eles Lansky, Shapiro, Lepke, Schultz, Luciano... uma turminha casca grossa. "Arnold Rothstein foi o Moisés do submundo: ele encaminhou a geração seguinte para a terra prometida, mas não pôde entrar nela", escreve Richard Cohen autor da obra Tough Jews, numa referência ao assassinato do mafioso, morto com um tiro no estômago em 1928.

Arnold Rothstein / Crédito: Reprodução

 

Ninguém ficou chorando a morte de Moisés por muito tempo. Em primeiro lugar, porque mafioso que é mafioso não chora. Em segundo, porque era hora de fazer bons negócios. Enquanto os gangsteres italianos se engalfinhavam nas batalhas que dariam origem às famílias mafiosas e à lendária comissão que as reunia, os judeus dominaram o submundo e se tornaram a grande ameaça à segurança nacional.

Terra Nostra

A história do crime organizado se confunde com a história da imigração nos Estados Unidos. Não por acaso, seu principal foco de atuação era Nova York, o grande porto de entrada para estrangeiros em busca do sonho americano. Se no início do século 20 houve a máfia irlandesa, após a cidade sofrer forte crise econômica, a partir dos anos 40 o cenário passou a ser dominado por italianos do sul que fugiam da pobreza e perseguição fascista.

Os judeus envolvidos no crime eram, em sua maioria, oriundos do Leste Europeu. Vinham fugindo das perseguições e destruições dos pogroms, as violentas ações anti-semitas em lugares como Rússia, Ucrânia e Lituânia. Ao chegarem aos Estados Unidos se agruparam e, como qualquer grupo imigrante, mantiveram suas tradições. Até na hora de matar.

Red Levine, por exemplo, assassino de Salvatore Maranzano, primeiro chefe de todos os chefes da máfia nova-iorquina, era um ortodoxo que se recusava a executar vítimas no shabat, o dia do descanso judaico. Walter Sage dizia que roubava para financiar seus estudos do Talmude. Até o chefão Meyer Lansky tinha suas crises com o Senhor. Casado com uma mulher religiosa, ele foi acusado pela esposa de ter despertado a ira de Deus, que como punição teria feito o primeiro filho do casal nascer com paralisia nas pernas.

Manter as tradições judaicas era essencial, mesmo para aqueles que se afastavam da vida religiosa. A convivência com outras culturas existia, gangues muitas vezes eram compostas por judeus e católicos italianos, mas seguia-se certa ética que separava os negócios. Especialmente na hora dos assassinatos: com raras exceções, na hora de colocar o dedo no gatilho, judeu matava judeu e italiano matava italiano.

Foi assim que a Murders Inc. prosperou. Abe Kid Twist Reles, Martin Bugsy Goldstein e Pep Strauss, três dos principais matadores, sumiam com qualquer um que falhasse com os chefões. Na máfia, o trabalho deles era imprescindível, talvez o mais importante de toda a operação liderada por Lepke, o que os colocava entre os criminosos mais influentes do país.

Kid Twist e Bugsy / Crédito: Reprodução

 

Além do salário, eles podiam explorar as extorsões e jogos em Brownsville, um antigo enclave judaico no Brooklin. Na metade dos anos 30, cada um já ganhava cerca de 100 mil dólares por ano com o negócio.

O sucesso também era consequência do trabalho bem feito. Quando a ordem de assassinato partia de cima, o serviço vinha com esmero. Investigava-se a rotina da vítima, depois um carro era roubado e clonado com placas de outro veículo, acertava-se a rota de fuga e só então a missão era conduzida.

Os alvos variavam de moradores que ameaçavam delatar o esquema para a polícia a mafiosos que cometiam atos de traição ou então concorrentes que atrapalhavam a arrecadação da grana. No entanto, nada, mas nada mesmo era feito sem a ordem direta de Lepke, Meyer ou de algum capo. O grupo fez pelo menos 50 trabalhos durante a década de 30. A cada sucesso, aumentava a sensação de que o bando era inatingível. Um engano.

Decadência

Quanto mais famosas ficavam as ações de Lepke, Schultz e companhia, maior era a ambição para desmantelar o grupo nos tribunais da cidade. Assim, bastou surgir um procurador jovem, com ambições políticas e obstinação pelo trabalho, para os poros do crime organizado começarem a se fechar. O então promotor Tom Dewey, que mais tarde perderia uma eleição presidencial para Franklin Roosevelt, assumiu o cargo de maior inimigo da máfia.

O primeiro alvo foi Lucky Luciano, preso e deportado para a Itália acusado de explorar a prostituição. Justiça 1 x 0 Máfia. Dewey então foi atrás de Dutch Schultz. Dessa vez, não teve o mesmo resultado. O criminoso levou o processo para a pequena cidade de Malone, mudou-se para lá alguns meses antes do julgamento, ficou amigo de todos, deu fortunas para caridade e converteu-se ao catolicismo.  Acabou inocentado por um júri popular. 1 x 1 no placar.

Schultz, porém, não duraria muito. Furioso com Dewey pediu a morte do promotor para a cúpula mafiosa. Pedido negado, saiu jurando que faria justiça com as próprias mãos. Na mesma hora, os gangsteres assinaram sua sentença de morte, que foi levada a cabo pela Murders Inc. Mesmo convertido, Schultz ainda era problema dos judeus.

Lepke deixando a corte / Crédito: Reprodução

 

Chegou a vez de Lepke, que decidiu viver clandestino por conta da marcação cerrada de Dewey. Ficou escondido por três anos, num dos períodos mais sangrentos da máfia nova-iorquina. Com uma fúria stalinista, Lepke mandava a Murders Inc. eliminar qualquer opositor que pudesse dar informações para a Justiça. Sem conseguir suportar a clandestinidade, no entanto, o mafioso resolveu se entregar. Foi condenado à pena de morte.

Sem a proteção de Lepke, Reles, Strauss e seus matadores foram presas fáceis. Um a um, foram detidos e seduzidos por propostas de acordo com a promotoria: quem delatasse os companheiros estaria livre da condenação. Reles resolveu falar. Ao prestar depoimento, tornou-se o mais alto funcionário de uma organização mafiosa a colaborar com a polícia até então.

Levou todo o grupo de amigos para a cadeira elétrica, mas morreu durante o julgamento dos companheiros ao cair por uma janela num episódio até hoje mal explicado. A Murders Inc. foi para o túmulo. E não deixou herdeiros.


Saiba mais

Tough Jews, de Richard Cohen, Vintage Books, Nova York, 1999