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Há 179 anos, Dom Pedro II era coroado imperador do Brasil

Conheça a conturbada infância do Imperador que foi colocado no trono após um golpe vindo do desespero, em 1841

Simone Bitar Publicado em 18/06/2020, às 07h00

Dom Pedro II em pintura oficial
Dom Pedro II em pintura oficial - Wikimedia Commons

O menino tinha apenas 5 anos quando foi arrancado da cama e levado da Quinta da Boa Vista para o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Assustado, chorava sem parar, encolhido no
banco de trás da carruagem. No caminho, o veículo foi parado por populares, que tiraram os cavalos e se encarregaram de levar eles mesmos a carga preciosa ao seu destino.

Havia cheiro de pólvora, vindo de tiros de artilharia. Uma multidão tomava as ruas. O pequeno Pedro, tornado infante do Brasil naquela noite de 7 de abril de 1831, ocuparia o lugar do pai, que acabara de abdicar. Sua mãe, Maria Leopoldina, havia morrido quando ele era um bebê. Enquanto o garoto era levado ao paço, Pedro I já estava a bordo da fragata inglesa Warspite. Pai e filho nunca mais se viram outra vez.

Por quase meio século, o chamado órfão da nação ocuparia o papel de fiador do império. O golpe que lhe garantiu a maioridade aos 15 anos transformou Pedro de Alcântara no condutor do Segundo Reinado. Enquanto os vizinhos latino-americanos
se fragmentavam em pequenas repúblicas, comandadas por caudilhos, o Brasil, grande e unido, era visto pela Europa como uma ilha de civilização em meio à barbárie.

Pedro foi criado por tutores (o primeiro deles foi o Patriarca da Independência, José
Bonifácio) e por funcionários do palácio. Sua formação foi uma só: seus professores trataram de lhe ensinar como ser magnânimo, justo, educado, comprometido e fiel ao Brasil. Pedro cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Quando morreu no exílio, aos 66 anos, em 1891, seu obituário no jornal The New York Times afirmou que ele “foi o mais ilustrado monarca do século”.

Dom Pedro II foi um servidor de seu país desde a abdicação de seu pai. Seus passos eram vigiados, suas atividades se transformavam em relatórios analisados no Parlamento. O Marquês de Itanhaém, o tutor que sucedeu Bonifácio, preparou um regulamento para o garoto que incluía acordar diariamente às 7 da manhã. A partir daí, cada hora tinha uma atividade específica e até as conversas seguiam um tema definido. A rubrica de diversão durava duas horas diárias. O dia acabava às 21h30 e o sono era precedido de mais leituras.

O objetivo do tutor, como relata José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era criar um paladino. “Itanhaém queria formar um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante”, afirma Carvalho na biografia D. Pedro II. “Isto é, um governante perfeito, dedicado integralmente a suas obrigações, acima das paixões políticas e dos interesses privados”. Ao mesmo tempo, é necessário lembrar, seu governo, assim como o do pai, foi marcado pela restauração estrutural do escravismo.

Coroação de Dom Pedro II / Crédito: Wikimedia Commons

 

A vida pessoal de Pedro, como se vê, não pertencia a Pedro. Visitas de parlamentares para checar in loco a educação do príncipe eram comuns. O Parlamento recebia relatórios sobre os avanços do futuro monarca. O de 1837, por exemplo, dava conta que Pedro falava e escrevia em francês e era capaz de traduzir do inglês.

Mas, como registra José Murilo de Carvalho em seu livro, o deputado Rafael de Carvalho criticava a falta de exercícios e divertimento. “Segundo os observadores, era um menino tímido, ensimesmado e, seguramente, muito carente de afeto”, definiu o historiador.

Imperador na puberdade, dom Pedro logo encontrou uma palavra que o acompanharia ao longo de toda a vida para descrever as cerimônias, rapapés e atividades inerentes ao
mandato: maçada. Fez uso dela ao comemorar seu primeiro aniversário na condição de imperador, quando anotou em seu diário, depois de um dia que começou às 7 da manhã e incluiu missa, Te-Deum, beija-mão e teatro: “Agora, façam-me o favor de me deixarem dormir. Estou muito cansado, não é pequena a maçada”.

Diversos diplomatas, ao longo de seu reinado, observaram o tédio que brotava do imperador brasileiro. Sobravam palavras como triste, infeliz e enfadado para descrevê-lo. Para Carvalho, porém, tratava-se de uma máscara. “O laconismo e o aparente enfado eram, sem dúvida, recursos de que o rapaz fazia uso para acobertar a enorme insegurança.”

Talvez o golpe mais duro na vida do jovem imperador tenha sido seu casamento – e a vida em família. Para começo de conversa, encontrar uma noiva foi tarefa complicada. O
imperador governava um país distante e atrasado. Não havia no Rio de Janeiro nada que nem de perto lembrasse uma corte (diga-se, os títulos nobiliários do império brasileiro
não eram herdados). A cidade era impraticável no verão – e ainda havia a fama de garanhão do pai de Pedro II.

Para piorar, o imperador era um sujeito alto e de lindos olhos azuis, mas sua voz... “Bastava que abrisse a boca para que essa boa imagem inicial rapidamente se esvanecesse: a voz era aflautada, fina e aguda, como em falsete, mais própria de um adolescente em início da puberdade do que de um adulto”, registra o jornalista Laurentino Gomes, no livro 1889.


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