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Jornalista que investigou caso Watergate se manifesta sobre escândalo de Trump: "É algo muito pior"

"Ilegalmente, inapropriadamente e imoralmente, ele tenta incitar um golpe para continuar como presidente dos EUA", diz Carl Bernstein. Relembre o caso Watergate!

Fabio Previdelli Publicado em 04/01/2021, às 08h24

Trump (à esqu.) e Nixon (à dir.)
Trump (à esqu.) e Nixon (à dir.) - Wikimedia Commons

O Washigton Post revelou novos capítulos da saga de Donald Trump nas últimas eleições presidenciais dos EUA.

Através de um áudio, o jornal revelou que o político pressionou Brad Raffensperger, atual secretário de Estado da Geórgia, para ‘encontrar’ votos que seriam suficientes para reverter o quadro de sua derrota local.

"Então, olhe. Tudo que eu quero fazer é isso. Eu só quero encontrar 11.780 votos, que é um a mais do que nós temos. Porque ganhamos no Estado", afirmou o atual presidente dos EUA através da ligação.

Como era de se esperar, o episódio rodou o mundo. Uma das pessoas que se manifestaram sobre o caso é Carl Bernstein. O escândalo é mais preocupante que o polêmico caso Watergate, nas palavras do jornalista, que participou das investigações que resultaram na queda de Nixon.

Segundo Carl, a gravação divulgada pelo Washington Post seria suficiente para resultar no impeachment do presidente.

"Isso não é um déjà-vu, é algo muito pior do que o que aconteceu no Watergate", explicou Bernstein durante entrevista à CNN. "Essa gravação evidencia o que esse presidente está disposto a fazer para enfraquecer o sistema eleitoral. Ilegalmente, inapropriadamente e imoralmente, ele tenta incitar um golpe para continuar como presidente dos EUA”.

Ao cobrar uma medida do Partido Republicano contra o político, o jornalista também afirmou que Trump é ‘criminoso’ e ‘subversivo’. Ao relembrar o caso Watergate, Bernstein explica que os republicanos “não toleram a conduta de Richard Nixon”.

"É isso que deveríamos estar ouvindo dos republicanos neste momento: 'Senhor presidente, renuncie, deixa a Casa Branca. Isso é inescrupuloso, é errado, e nós, do seu partido, não vamos permitir isso", relatou o jornalista.

Relembre o caso Watergate.

“Depois de minha conversa com os membros do congresso e outros dirigentes, cheguei a conclusão de que o caso Watergate me privou do apoio do congresso, que considero necessário para tomar as decisões mais difíceis e cumprir com as responsabilidades deste cargo de acordo com o interesse da nação.  Portanto, eu renunciarei à presidência efetivamente ao meio-dia de amanhã. O vice-presidente Ford, prestará juramento como presidente nessa mesma hora, neste gabinete”.

Aparentemente calmo e falando com um tom de voz firme e inalterado, assim foi a postura de Richard M. Nixonanunciando que renunciaria ao cargo de presidente dos Estados Unidos, em discurso feito há 45 anos no Salão Oval e que foi transmitido através das redes de televisões do mundo todo.

Richard Nixon durante seu discurso de renuncia / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir dali, o 37º presidente dos Estados Unidos entraria para a história, sendo o primeiro entre eles — e único até hoje — a renunciar ao cargo. O escândalo envolvendo o homem mais poderoso do mundo começou há cerca de dois anos antes, ainda no período de eleições americanas, quando cinco homens foram presos ao invadir e grampear ilegalmente a sede do Comitê Nacional dos Democratas. Partido concorrente de Nixon naquelas eleições.

O caso foi investigado ao longo de vários meses por dois jornalistas novatos do jornal The Washington Post. Carl Bernstein e Bob Woodward descobriram que um dos invasores tinha o nome na folha de pagamento do comitê da reeleição de Nixon, este seria só o inicio da bola de neve do maior escândalo político dos Estados Unidos.

Seguindo informações de uma fonte anônima, conhecida como Garganta Profunda, os dois jornalistas passam a descobrir novos fatos que relacionavam Nixon ao caso.

Os encontros com o Garganta Profunda eram feitas de maneira ultra secreta, a fonte anônima somente confirmava ou negava a autenticidade das informações apuradas por eles.  

O caso terminou com a condenação de dois assessores e quatro integrantes da equipe presidencial. Em suas últimas palavras, Nixon disse que “ao tomar esta atitude [renúncia], eu espero poder apressar o início do processo de cura, que é tão desesperadamente necessário na América”.

Nixon embarcando pela última vez no helicoptero pesidencial / Crédito: Wikimedia Commons

 

No dia seguinte, Nixon entrou com sua família em um helicóptero dos jardins da Casa Branca. Assim, ele deixaria para trás toda a esperança de uma nação que o reelegeu com uma grande vantagem de votos, e levou consigo o status de governante mais impopular na história do país — posto que divide com George W. Bush.

O política morreu em 22 de abril de 1994, aos 81 anos de idade. E quatro anos depois o mundo descobriria a identidade do Garganta Profunda, trata-se de Mark Felt, segundo homem do FBI na época.