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Noite tupiniquim: Histórias e lendas que o Brasil esqueceu

Nossos mitos permanecem na obscuridade, não alardeiam seus sustos, aguardam os incautos na penumbra, pois anseiam, acima de tudo, dar continuidade a seus causos com letras tipografadas em vermelho sangue

M. R. Terci Publicado em 20/09/2019, às 09h00

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- William Adolphe Bouguereau

No imaginário popular, nos grimórios do horror dos epicuristas da literatura e dos cultores da fantasia, a criatura noturna que exerce maior fascínio sobre o mundo dos homens é, sem dúvida, o vampiro. Presente no folclore de muitas civilizações, sendo ainda o mito mais citado da cultura popular ocidental, a origem das criaturas sugadoras de sangue, está muito aquém de Drácula de Bram Stoker e se perde na aurora dos tempos.

O rol das crias da noite é imenso. As aparições fantasmagóricas se destacam, seja em casas mal-assombradas ou cemitérios ermos, os espectros do outro mundo inspiram e protagonizam as mais arrepiantes histórias. Lobisomens, monstros, demônios e bruxas ocupam lugares de destaque nas tradições dos povos e no âmago obscuro de sua cultura, muitas vezes, sendo aquilo pelo que identificamos culturalmente alguma região do globo, como no caso da Transilvânia, na Romênia.

Mas, na noite escura, não são apenas os sugadores de sangue ou as almas penadas que fazem o assombro e o medo acontecerem. Convém salientar que estamos entrando no terreno do imaginário popular e devemos estar preparados para toda gama de variedades, principalmente aqui no Brasil, úbere terreno dos mais férteis para as lendas de nosso folclore. Venham comigo, pelos caminhos mais escuros de nossa história, aclarar os mitos que permanecem na obscuridade.

Vampiro / Crédito: Edvard Munch

 

Eles não alardeiam seus sustos, aguardam os incautos na penumbra, pois anseiam, acima de tudo, dar continuidade a seus causos com letras tipografadas em vermelho sangue.

Corpo Seco é desses. Dizem que em vida, era um homem que vivia para promover maldades e que na morte, nem o inferno o queria, sendo rejeitado e vomitado pela terra de sua sepultura. Segundo o mito, trata-se de um corpo em decomposição que persegue e surra as pessoas na estrada. Assim, atenção aí quem trafega pelo interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Centro-Oeste.

Espreita pelos telhados do interior de São Paulo e também no Paraná e em Minas Gerais, uma bruxa velha e abominável que na calada da noite, entra pelas janelas e pisa sobre o peito dos adormecidos na intenção de mata-los sufocados. Minha avó me prevenira que apenas uma tesoura aberta oculta sob o colchão pode afugentar a criatura.

Nas serras e penhascos do Ceará, existe a assombração de um velho escravo faminto, o gigantesco e terrível Gorjala, que caça e devora os homens que se atrevem a percorrer esse caminho à noite.

Há em nossa criptozoologia verde amarela, relatos históricos de um ser chamado Anhangá na região Norte. As Cartas de José de Anchieta Manuel de Nóbrega e Fernão Cardim, no final do século XVI, descreviam uma criatura fantástica, antropoide, com olhos de fogo e que devorava as pessoas que se atreviam a visitar seus bosques.

O Boitatá foi uma das primeiras criaturas míticas a ganhar vida no imaginário brasileiro. Os povos tupi-guarani alardeavam que essa imensa cobra de fogo perseguia à noite os guerreiros mais bravos que se aventurassem na floresta e queimava-os para consumir suas cinzas. Seu mito é conhecido no Rio Grande do Sul.

Um dos mais conhecidos mitos brasileiros é a Mula Sem Cabeça. Comum em qualquer povoado onde exista uma igrejinha. Costuma correr pelas matas e assusta tanto homens como animais com seu formato grotesco. Possuí corpo equino e no lugar da cabeça se divisa apenas uma imensa tocha ardendo na escuridão da noite. Dizem que se trata do fantasma de uma mulher amaldiçoada por Deus por ter tido um filho com um padre.

Há quem o tome por um gênio bom da floresta Amazônica, mas poucos conhecem a verdadeira natureza do Curupira que sequestra crianças para devorar e tocaia os adultos que partem em sua busca.

A Iara é uma linda sereia que vive no Rio Amazonas, sua pele é parda, possuí longa cabeleira verde e olhos castanhos que encantam os barqueiros que cruzam suas águas. Há quem diga que, à noite, ela ataca os homens que acampam a margem dos rios para lhes afogar e consumir sua carne no lodo do rio.

Essa é, pois, uma pequena amostra do que espreita nas páginas de nossos mitos. Dada a tendência do cinema gringo de transformar strigois em vampiros bonzinhos que brilham a luz do dia e de preencher de amor o coração gelado dos mortos vivos, é bom ir se acostumando a valorizar o folclore de seu país, meu bom.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.