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Desastre de Kyshtym: O acidente nuclear que a União Soviética tentou encobrir

Em uma cidade excluída dos mapas, o governo soviético tentou esconder do mundo uma catástrofe que, em números, só perdeu para Chernobyl e Fukushima

Vinícius Buono Publicado em 16/07/2019, às 17h00

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Crédito: Reprodução

Todo mundo já ouviu falar em Chernobyl. O grande desastre nuclear soviético ocorrido na década de 80, como quase toda grande tragédia da história humana, acabou ocupando um lugar no imaginário público. O que pouca gente sabia — e o governo da URSS quis que ficasse assim — é que, antes, veio o Desastre de Kyshtym.

Quando os norte-americanos encerraram a Segunda Guerra Mundial soltando duas bombas atômicas sobre o Japão, os soviéticos ficaram em alerta. Já no início do contexto da Guerra Fria, a antiga URSS se viu defasada perante o poder de fogo das armas de destruição em massa dos EUA.

Em 1945, Joseph Stalin ordenou a construção da Usina de Mayak, uma usina nuclear de produção e enriquecimento de plutônio para a elaboração de bombas atômicas nas proximidades da cidade de Chelyabinsk-40, uma localidade que nem constava nos mapas e era assim chamada por Chelyabinsk ser a maior e mais próxima cidade, com o código postal 40, um padrão de nomeação soviético às cidades fechadas e secretas. 

O local recebeu o codinome de “Cidade 40”. Cerca de 40.000 prisioneiros de guerra e dos gulags foram mobilizados para a obra, que foi feita com total descaso por regras de segurança graças ao desconhecimento dos físicos soviéticos e à pressa em se equiparar aos rivais ocidentais.

A Cidade 40 foi o berço do programa nuclear dos socialistas, mas a sua existência era completamente desconhecida fora da União Soviética. Até 1957, as preocupações com o descarte do lixo nuclear na região foram nulas, o que gerou consequências catastróficas (o Lago Karachay, usado como depósito a céu aberto, é considerado o lugar mais poluído do mundo).

A "Cidade 40" hoje, chamada de Ozersk. Wikipédia/Commons

 

Naquele ano, uma falha não reparada num dos sistemas de refrigeração gerou um aumento na temperatura e, consequentemente, uma explosão com a força de aproximadamente 100 toneladas de TNT. A tampa de concreto, de 160 toneladas, foi arremessada ao ar como uma pena. Apesar de ninguém ter perdido a vida na explosão em si, a contaminação pela radioatividade se estendeu por vários quilômetros dali.

Sob a batuta de Stalin, o governo soviético escondeu o acidente tanto do mundo quanto de seu próprio povo. O nome “Desastre de Kyshtym” deriva da cidade mais próxima documentada nos mapas. Na época, foi considerado o maior desastre nuclear do mundo e, até hoje, ocupa a terceira posição no infame ranking, atrás apenas de Chernobyl e de Fukushima, no Japão.

Os efeitos da radiação após o desastre se estenderam por uma área de aproximadamente 350 km. A precipitação da nuvem radioativa espalhou partículas como o Césio-137 por uma área incalculável, com as estimativas variando de 800 a 20 mil metros quadrados. Em 1968, o governo soviético transformou essa área em uma reserva natural, como forma de evitar o acesso.

Uma operação foi realizada para evacuar aproximadamente 10 mil pessoas de mais de vinte vilarejos da região, mas nenhuma explicação foi dada e o processo levou quase dois anos para ser concluído. Como consequência, muitas pessoas foram afetadas sem sequer ter o conhecimento disso.

A incidência dos casos de câncer por radiação é difícil de ser calculada porque não há diferença detectável para as laudos comuns de câncer, no entanto, um instituto russo de biofísica em Chelyabinsk estimou que mais de oito mil pessoas morreram em decorrência de complicações causadas pela radiação do acidente, e diversos relatos sobre a região contam sobre problemas variados de saúde que afligem a população.

Apesar dos esforços do governo para manter tudo em segredo, a notícia chegou ao mundo ocidental em 1959, porém não obteve tanta repercussão. Apenas em 1976 o cientista soviético Zhores Medvedev anunciou o ocorrido para o mundo depois de desertar para o Ocidente, mas foi descreditado pois pensavam ser tudo propaganda.

Os documentos oficiais do governo só começaram a ser publicados em 1989. Há evidências de que a CIA tinha ciência do desastre, mas manteve segredo para não gerar pânico em decorrência da crescente expansão da indústria nuclear americana.

A Cidade-40 existe nos dias de hoje, oficialmente falando. Foi renomeada para Ozyorsk ou Ozersk e possui 82 mil habitantes segundo censo de 2010. O nível de radiação atualmente é considerado seguro. A cidade foi tema de um documentário produzido pela Netflix em 2016, com direção de Samira Goetschel.