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O Fazedor de Viúvas: A angustiante história do submarino soviético k-219

Na tentativa de demonstrar poder de destruição ao inimigo, a União Soviética apressou-se em colocar seu primeiro submarino nuclear na água, deixando de lado inspeções de segurança e protocolos para reduzir exposição à radiação

M. R. Terci Publicado em 14/01/2020, às 16h00

Submarino soviético k-219
Submarino soviético k-219 - Wikimedia Commons

Quando se fala em Guerra Fria, logo vem à memória a Crise dos Mísseis de Cuba ocasião em que o mundo foi colocado à beira de um conflito nuclear de larga escala, diante do impasse bélico entre norte-americanos e soviéticos.

Mas uns poucos meses antes, o mundo esteve a ponto de sofrer uma catástrofe nuclear, em tese, muito mais devastadora que a de Chernobyl e mais recentemente, que a de Fukushima.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, submergir àquele fatídico dia de 04 de julho de 1961, quando o submarino soviético K-219, o Fazedor de Viúvas, sofreu uma grave avaria nas profundezas gélidas em algum ponto entre a Groelândia e a Noruega.

Quando Kennedy tomou posse em 1961 o pavio da Guerra Fria foi aceso. Apesar da significativa vantagem na corrida armamentista deixada por Eisenhower, logo de início, JFK ordenou a produção de 1000 mísseis balísticos intercontinentais e 32 submarinos Polaris com capacidade de lançamento de 656 mísseis.

Nesse tempo, Moscou não tinha um submarino sequer capaz de lançar mísseis balísticos. Para ter uma exata dimensão da supremacia militar norte-americana, naquele ano, afora sua recém-inaugurada produção maciça de mísseis intercontinentais, os EUA possuíam 500 bombardeiros, abastecidos e prontos para lançar toneladas de ogivas nucleares sobre a Rússia, enquanto os soviéticos tinham apenas 50 bombardeiros precariamente disponíveis para contra-atacar. 

Mas levando-se em conta o poderio nuclear em questão, as duas superpotências tinham capacidade para se destruir e levar o resto do mundo consigo; a União Soviética poderia devastar todo o planeta por 2 vezes consecutivas, e os EUA contavam com um poder nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes mais.

O modelo da Guerra Fria não comportava tamanho desiquilíbrio estratégico e os russos tiveram que correr atrás do prejuízo. Os EUA tinham acabado de lançar o submarino atômico George Washington, e a URSS não podia ficar atrás. A resposta veio com o submarino de propulsão nuclear K-219, uma embarcação de 114 metros de comprimento, capaz de submergir a 300 m de profundidade e com capacidade para lançar três mísseis balísticos nucleares de 1,4 megaton cada um.

Na tentativa de intimidar os norte-americanos, colocando seu primeiro submarino nuclear na água, a União Soviética deixou de lado inspeções de segurança, bem como protocolos padrão, peças e instrumentos essenciais de segurança para reduzir exposição à radiação – incluindo vestuário e máscaras.

Alguém na linha de comando simplesmente esqueceu que se tratava de um submarino nuclear e para baratear custos e acelerar prazos, forneceu equipamento de proteção, acessórios e instrumentos para eventuais acidentes elétricos e químicos.

Mesmo antes de navegar, o K-219 já havia feito vítimas fatais. Dez operários e um marinheiro morreram devido a acidentes e incêndios a bordo. Antes do lançamento, a maruja supersticiosa já havia apelidado o submarino como Fazedor de Viúvas.

Poucos dias depois, navegando, em algum lugar entre a Noruega e a Groelândia, no dia 4 de julho de 1961, o K-219 sofreu uma grave avaria em seu reator.

Submarino soviético k-219 / Crédito: Wikimedia Commons

 

"A princípio, não sabíamos o que fazer. A temperatura começou a subir e a radiação se propagava por toda a embarcação. Não tínhamos instruções. Todo mundo pensava que o reator era confiável. Uma avaria era algo impensável", relatou Victor Strelets, sargento do K-219.

"Depois, o comandante Vladimir Zateev anunciou pelos alto-falantes que tinha acontecido uma avaria e que devíamos manter a calma. Por sorte, nos ocorreu de esfriar o reator com água potável. A ideia funcionou, mas custou a vida de vários companheiros", sentenciou o marinheiro.

A causa das mortes foi simplesmente a displicência e a arrogância das pessoas no comando em Moscou. Seis jovens marinheiros foram vestidos com equipamento de proteção química e designados para soldar uma peça, que possibilitaria o resfriamento do reator, dentro de uma sala ao lado do reator nuclear.

No total, oito marinheiros que participaram diretamente na reparação da avaria morreram em questão de dias, e 15 outros, nos dois anos seguintes.

Essa história só pode ser contada após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e consequentemente, a derrocada da Cortina de Ferro. O comandante do K-219, Nikolai Vladimirovich Zateev, antes de falecer em Moscou, em 1998, fez uma crítica contundente aos responsáveis pelo desastre e um relato detalhado em suas memórias.

"A avaria do reator direito é grave. Há sinais de radiação. Existe ameaça de explosão. Retornamos à base a dez nós de velocidade. A base não responde" – menciona Zateev.

“Junto com o capitão Kozirev, entramos no sexto compartimento para comprovar se tudo andava segundo o previsto. Honestamente, não fui ali por esse motivo. Tinha certeza que enviava os homens para uma morte certa. Devia animá-los, dar-lhes a entender que seu comandante estava com eles no momento de mais dificuldade", continua o comandante. "Desci ao sexto compartimento. Nesse momento a porta se abriu e do interior do reator saiu Boris Korchilov. Ele tirou a máscara e vomitou uma espuma amarelada", diz em suas memórias.

Navios americanos que navegavam as águas da região, ao captarem altos índices de radiação, ofereceram sua ajuda para ajudar os marujos a abandonarem a embarcação, mas, diante do envolvimento direto do inimigo, Zateev se opôs. A essa altura, no interior do submarino, o nível de radiação era 17 mil vezes maior do que o permitido. 

"Estávamos no meio da Guerra Fria e atracar em ilhas onde provavelmente haveria uma base naval do inimigo era considerado traição a uma pátria que nos confiou seu único submarino nuclear", relatou posteriormente.

Àquela altura, acaso os marinheiros não tivessem resfriado o reator, o cataclismo criado pela explosão nuclear, destruiria os navios norte-americanos e, por óbvio, bem em meio à crise dos mísseis de Cuba, os Estados Unidos teriam interpretado como uma provocação por parte da União Soviética, o que prenunciaria a tão temida Terceira Guerra Mundial.

Muito tempo depois, Zateev lançou suas memórias que foram utilizadas para uma série de obras literárias, bem como um documentário e um filme angustiante com Harrison Ford e Liam Neeson, em 2002.

Mesmo com o reparo que evitou a explosão, a radiação a bordo do submarino poderia matar a todos antes que conseguissem voltar. Sem opções, a tripulação estava à beira de um motim quando surgiu o submarino soviético a diesel S-270 e, depois, o S-159, que recolheram a tripulação do K-219: "Os marinheiros tiveram que ficar nus e jogar a roupa ao mar para não contaminar os navios.” – menciona Zateev.

De volta, eles foram recebidos no estaleiro naval por soldados com metralhadoras e cachorros com máscaras de gás.  E, por longas semanas, os marinheiros foram interrogados pela KGB, sempre defendendo seu comandante.

As ações que Zateev e sua tripulação adotaram em 4 de julho de 1961 levaram os tripulantes sobreviventes a uma indicação conjunta para o Prêmio Nobel da Paz, em março de 2006, indicação defendida até mesmo pelo último dirigente soviético, Mikhail Gorbachev que considera que seria um ato de "justiça histórica" agraciar os marinheiros com o prêmio por "salvar a paz no mundo".


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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