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O folclore está desaparecendo ou apenas se reinventando?

Em tempos de globalização, entenda o espaço e os rumos da tradição oral brasileira

Anna Capelli, Ingredi Brunato e Isabela Barreiros Publicado em 27/11/2019, às 18h00

Ilustração do livro Lendas
Ilustração do livro Lendas - Divulgação/Ivan Reis

Halloween, mitologia grega e até a mitologia nórdica: tudo isso é muito familiar para as gerações mais jovens da nossa sociedade. Povoam a primeira camada de bagagem cultural, a mais imediata. Em diversos filmes e séries é possível ver o Halloween sendo comemorado, a série best-seller de livros Percy Jackson e os Olimpianos que bebeu da cultura grega vendeu um milhão de exemplares no Brasil e o deus Thor é um dos Vingadores nos filmes campeões de bilheteria da Marvel.

Essas são referências mais frequentes no nosso cotidiano do que personagens como Saci Pererê, Boitatá e Mula-sem-cabeça. Surge então o questionamento:  o folclore ainda nos representa?

Não é uma resposta fácil. Para o professor de História Pedro Sérgio, é preciso considerar o papel do mercado e da indústria cultural. “É muito fácil ter contato com o cinema norte-americano e absorver esses elementos vinculados ao imaginário deles. Eu imagino que se a gente estivesse ainda muito pautado pela cultura do cinema e música europeia, como era antes da Era Vargas, a gente teria mais contato com outras coisas, que seriam vinculadas a essas sociedades”, explica. 

Para a tradição oral brasileira, o espaço privilegiado de resistência tem sido a escola, que acaba por cumprir a função social de manter as raízes nacionais populares vivas na memória coletiva.

“A cultura popular sempre teve dificuldade de ser valorizada. O que acontece é que em determinadas circunstâncias, quem é da elite abraça aquilo e aí aos poucos acaba sendo tolerado. Então, por exemplo, o samba era popular. Em determinado momento, lá pelos anos 40, anos 50, a elite começa a tolerar ele, e gradualmente o samba virou um símbolo nacional, apropriado pelas camadas mais privilegiadas da sociedade.”, esclarece Sérgio. 

Foi o que ocorreu quando o folclore virou objeto de ensino. Mas a saída da marginalidade foi acompanhada por limitações. Ao ser incluído na grade curricular das escolas, o folclore ganhou um caráter oficial que acabou como que congelando as imagens clássicas das figuras mitológicas.

“Bastariam poucas incursões nas escolas para nos certificarmos de que a concepção de folclore, na maioria das vezes, ainda se restringe ao calendário das efemérides, visto como ‘obrigação curricular’”, afirma a pesquisadora Patrícia de Cássia no artigo Educação, literatura e cultura da infância: compreendendo o folclore infantil em Florestan Fernandes.

A própria valorização da tradição oral no Brasil ocorreu durante uma época em que se buscava uma identidade nacional que pintasse a harmonia falsa de, por exemplo, exaltar a cultura indígena ao mesmo tempo em que o indígena em si não era valorizado. 

E alguns folcloristas acreditam que o buraco é mais fundo. “Como está estritamente relacionado a uma sociedade, o folclore pode não sobreviver quando certas formas de sociabilidade desaparecem. O que acontece no regime materialista da modernidade, é que o folclore vai desaparecendo quando os vínculos sociais tradicionais são substituídos pelos vínculos materiais”, defende a pesquisadora Monique Mendes Silva Batista no artigo Folclore e identidade nacional na modernidade pelo olhar de Mário de Andrade.  

Mário de Andrade tinha as mesmas ideias. Por meio de Macunaíma, o escritor tentou resgatar elementos que ele considerava essenciais à cultura popular brasileira, na tentativa de “cristalizar uma identidade nacional pautada no folclore e na cultura popular”, ainda segundo Batista.

“Uma possível integração entre elementos folclóricos e elementos urbanos ocorre quando o livro oferece uma explicação mitológica para o surgimento do automóvel”, completa o Doutor em Teoria Literária e professor da Faculdade Cásper Líbero, Danilo Teixeira. Ele dá outro exemplo: “Quando o Macunaíma quer comprar um revólver, ele procura os ingleses, que dizem ‘ó, para você conseguir uma garrucha, você tem que ir lá no pé de garrucha, e ver se tem alguma madura’”.

Em relação a essa inquietação, a pesquisadora Batista oferece uma possível crítica. “A aspiração à totalidade nos estudos folclóricos é inseparável de uma irremediável nostalgia, pois a totalidade almejada ou está perdida ou a ponto de perder-se no mundo moderno. Neste sentido, os estudos de folclore do intelectual manifestam-se pela ‘retórica da perda’”, escreve. Assim, a investigação da cultura popular teria sempre uma chave de valorização do “primitivo”, trazendo o clássico confronto entre o “eu civilizado” e o “outro primitivo”. Ela aponta o romantismo da ideia de que cultura brasileira original estaria nas criações artísticas populares. “O folclore é tomado como um amuleto nacional, ameaçado a perder-se pelos tempos modernos”, conclui.

Ilustração do Saci Pererê / Crédito: Wikimedia Commons

 

Buscando uma perspectiva mais aprofundada, ela traz à tona as pesquisas do antropólogo Luís da Câmara Cascudo, dizendo que o folclore “permanece no tempo e no espaço e que nenhum desenvolvimento industrial pode anulá-lo, mas sim pode fazer nascer outro. Para ele, é um equívoco dizer que a máquina asfixia o folclore, pois o folclore é mantido pela mentalidade do homem e não determinado pelo material manejado”.

O professor Sérgio concorda com esse ponto de vista. “Acho que o Folclore é uma manifestação de múltiplas culturas se encontrando, e como elas vão continuar se encontrando, ele continua a se manifestar”, explica. “As redes sociais são uma forma de perpetuar a tradição oral. Porque as pessoas ainda estão sentadas entre si conversando, só estão digitando o que vão dizer primeiro”, acrescenta.

Na medida em que figuras como Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Florestan Fernandes e outros folcloristas precursores pesquisaram e sistematizaram o folclore através dos estudos e da literatura, buscando assim mantê-lo como parte do imaginário popular de forma mais longeva, também acabaram como efeito colateral limitando aquilo que entendemos como folclore, originando o pensamento que temos hoje. O folclore é chamado de cultura popular, mas nem toda cultura popular é chamada de folclore. 

Tudo isso colocado, fica a pergunta: Qual então é o folclore que criamos depois dessa sistematização acadêmica? O atual, que veio da produção popular heterogênea que temos nos dias de hoje? Será que apenas daqui a cem anos que seremos capazes de olhar para o passado, identificá-lo e resgatá-lo com um sentimento de nostalgia, como foi feito antes? 

“Por exemplo, essa nossa obsessão por extraterrestre. E também a maneira que você identifica o extraterrestre: ou ele é um bicho feio e bobo, ou ele é um bicho feio destruidor de mundos. Isso não é folclore, minha gente?”, questiona Sérgio.

Para ele, a junção de todos esses fatores — indústria cultural, sistematização do conhecimento folclórico, mercado, escolas — faz com que apenas os personagens principais, como Saci Pererê, Boitatá e Mula sem Cabeça, ganhem status de cultura popular oficial. Mas, na verdade, folclore é muito mais que isso, e pode se atualizar e se transformar a partir dos novos contextos históricos e sociais de uma cultura.

“Como é que o folclore ficaria nesse contexto de globalização?”, provoca Danilo Teixeira. “O folclore tem um componente de atemporalidade, o Saci Pererê não está datado. Mas também, como é que ficaria o Saci num contexto urbano? Será que teríamos que produzir um novo Saci, um neo Saci?”.


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