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O império contra-ataca: Dom Pedro II e o medo das vacinas

Impetuosa, invencível, a varíola marchava por trás das linhas brasileiras e mais além nos charcos dos campos de batalha paraguaios, mas Dom Pedro II estava decidido a enfrentar o inimigo invisível

M. R. Terci Publicado em 08/12/2019, às 09h00

Dom Pedro II, imperador do Brasil
Dom Pedro II, imperador do Brasil - Getty Images

Em 2019, o movimento antivacina foi listado como uma das ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde. Nos Estados Unidos, surtos de doenças como o sarampo, erradicadas há décadas, voltam a suceder. No Brasil, pesquisas recentes comprovaram que 4,5% dos pais se recusam a vacinar seus filhos, e outros 16,5% têm receio, ou não creditam a devida importância à vacina.

O medo das vacinas não é algo recente no Brasil. Décadas antes da célebre Revolta da Vacina ocorrida em 1904, o país foi confrontado por uma grande epidemia, um drama sanitário de enormes proporções que se desenrolou ao longo de todo século 19.

Quando Dom Pedro II subiu ao trono em 1840, se viu às voltas com um país novo, imenso e repleto de problemas. Entre 1848 e 1852, três graves crises assolaram o país, a confrontação do tráfico ilegal de escravos, as revoltas internas e a Guerra do Prata. Mas nada se comparava ao flagelo da varíola, que se propagava rápido e sem resistência pelas extensões continentais do país.

Venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, descobrir que a despeito da descoberta da vacina e dos esforços de Dom Pedro II, a varíola se tornaria uma das responsáveis pelos altos índices de mortalidade brasileira durante o século 19.

A reputação de Dom Pedro II era mundialmente conhecida. Um monarca que não se importava de percorrer seu reino a lombo de cavalo para saber do povo as suas querências. Um rei que visitava seus soldados nas trincheiras. Um vigoroso patrocinador do conhecimento, da cultura e das ciências. À sua época, ganhou o respeito e admiração de estudiosos e se tornou amigo de Louis Pasteur.

Mas o inimigo, apesar de ser minúsculo, era imenso. Talvez o mais assustador. Poder-se-ia dizer o mais assustador da nossa história. Grassou livre pelo século 18, matou 400 mil europeus por ano. Era um assassino invisível que não fazia distinções; matou reis e plebeus, ceifava vidas com hemorragias letais e deixava para trás apenas um cadáver repleto de úlceras.

Impetuosa, invencível, agora a varíola marchava por trás das linhas brasileiras e mais além nos charcos dos campos de batalha paraguaios, calçada nas botas da resistência popular e do medo dos efeitos colaterais da pouco conhecida ciência.

No Ceará, ganhou territórios e arrematou o que restava das pobres vilas que padeciam sob o flagelo da longa seca. Em São Paulo, vitimou a população em surtos recorrentes que se perpetuaram mesmo durante o progresso experimentado com a comercialização do café. Nas trincheiras e campos sangrentos da Guerra do Paraguai, contribuiu para um panorama mais desesperançoso e triste, infligindo um terror crescente no coração dos bravos soldados.

A mão da peste era pesada. Sua marca era visível aos olhos de todos. Devido aos sintomas, as bolhas que se espalhavam pelos corpos dos infectados, era popularmente conhecida como bexiga.  Mesmo nos casos não letais, os sobreviventes carregariam, pelo resto de suas vidas, as cicatrizes profundas que os desfiguravam e apartavam do convívio com seus semelhantes.

Dom Pedro II / Crédito: Wikimedia Commons

 

A varíola se sentia à vontade por aqui. Instalara-se em terras brasileiras muito antes de Dom Pedro II fazer-lhe frente. Alcançara o Novo Mundo a bordo dos galeões e caravelas, provavelmente, originária da Índia.

O senador João Rodrigues de Carvalho, em 1826, discursava: “Em Santa Catarina, têm morrido para cima de 2 mil pessoas. Eu estabeleci ali a vacina, deixando-a encarregada a um cirurgião hábil, mas quase ninguém compareceu. Os povos estão no erro de que a vacina não faz efeito. Quando o interesse público não se identifica com o interesse particular, nada se consegue.”

A baixa adesão às campanhas de vacinação seria um problema que atormentou Dom Pedro II do início ao fim do Império. A tal ponto de forçar o imperador a assinar um decreto que tornava a vacinação obrigatória para todos os súditos, em 1846, cuja letra da lei, estabelecia, ainda, que só poderia ser matriculado nos colégios e admitido no serviço público quem estivesse com a vacinação em dia. O decreto foi solenemente ignorado pela maioria da população.

Em 1871, um projeto de lei, que previa uma multa de 200 mil réis para o chefe de família que deixasse de vacinar seus filhos e escravos, foi apresentado. Tampouco foi executada a lei.

Na Província de Minas Gerais, eram tantas as mortes, que o arraial da Passagem ficou reduzido à metade de sua população. Boatos maldosos, de opositores do governo, criminalizavam a prática da vacinação, a despeito dos esforços do governo de salvaguardar a todos. Dizia-se que o vacinado, desenvolveria a doença de forma mais rápida e letal. Reforçava esse temor o fato de o vacinado desenvolver uma bolha, ainda que superficial e inofensiva, no local da inoculação.

A população brasileira, sem compreender os princípios da vacina, tinha horror a essa prática, bem como nutria pânico de qualquer novidade no campo médico. Houve relatos de mães que escondiam os filhos debaixo da cama ao ouvir o vacinador bater na porta e de famílias inteiras que fugiam do povoado, carregando o que podiam, quando a campanha atingia a região.

Relatos traduzem esse medo em violência. O anúncio de uma campanha de vacinação fazia com que a população reagisse violentamente contra as autoridades sanitárias. Em muitas vilas, apedrejamentos e tentativas de linchamento ocorriam.

Dom Pedro II implementava medida após medida para barrar a doença que se alastrava. Mesmo assim as epidemias se sucediam. Na capital do Império, cidade onde a vacina estava mais disponível, as bexigas mataram 2,5% da população até 1870.

Assim, a luta contra a varíola mostrou-se inglória para o Império do Brasil. A extensão continental do país, aliada a boatos maldosos e dificuldades de comunicação em todas as Províncias, além imensa e supersticiosa resistência popular, contribuíram para o fracasso da vacinação, cujas repercussões ainda seriam sentidas no século seguinte.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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