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O inesperado episódio em que Che Guevara se encontrou com Leonel Brizola

O governador trabalhista e o famoso líder guerrilheiro comunista tinham discordâncias, entretanto, tornaram-se inspirações, um para o outro, em 1961

Simone Bitar Publicado em 25/01/2020, às 09h00

Leonel Brizola e Ernesto Guevara se conhecem no Uruguai
Leonel Brizola e Ernesto Guevara se conhecem no Uruguai - Wikimedia Commons

Ernesto Che Guevara e Leonel Brizola eram duas figuras de peso da esquerda latino-americana dos anos 1960. Che ligado à revolução cubana, e Leonel como articulador do trabalhismo brasileiro. Em 1961, essas duas figuras protagonizaram um encontro que ficou marcado, tanto para os esquerdistas presentes, quanto entre as duas personalidades.

No mesmo ano, o Uruguai realizou uma das Conferências Pan-americanas, que visavam articular as relações entre os países da América Latina, e os dois personagens participaram. Che, Ministro da Indústria e do Comércio, comandava a equipe cubana enquanto Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, era conselheiro da comitiva brasileira.

Ernesto Guevara de la Sierna / Crédito: Getty Images

 

Mediado pelo jornalista brasileiro Flavio Tavares, Che foi apresentado a Brizola durante o evento. Os dois estavam na casa do presidente uruguaio em Punta del Este, onde fizeram um churrasco de união entre os “povos gaúchos” (Argentina, Uruguai e RS).

Na época, Brizola era um jovem governador associado ao presidente brasileiro Jânio Quadros, e Che, a maior estrela do momento, um ícone do socialismo.

No primeiro encontro, Che e Brizola discutiram sobre a guerrilha cubana e as riquezas da ilha. A curiosidade do jovem Brizola o intrigava sobre tal figura lustre de seu tempo. O clima era de diversão, Brizola perguntava se as minas sobre qual Che falava “Ficam no norte ou no sul?“ e Che respondia “Cuba não tem nem norte nem sul. Cuba é como uma linguiça espichada no mar do Caribe”.

Leonel Brizola / Crédito: Senado Federal

 

No último dia da Conferência, Brizola, antes de voltar ao Brasil, declarou que primeiro precisava ir se despedir do comandante Che Guevara. Tavares vai ao hotel onde estava o argentino, o encontrando em meio a um ataque de asma e anunciando o desejo de Brizola. Che entra no carro do governo brasileiro animado, e vai ao encontro de Brizola. Os dois conversaram e se despediram, em uma relação de camaradas.

Flavio Tavares expõe como Che Guevara mudou e influenciou a cabeça de Leonel Brizola depois do encontro. “Isso não é uma conferência dos povos da América Latina, é uma conferencia das oligarquias latino-americanas!” declarou Brizola na época.

Os dois ícones se encontram no Uruguai / Crédito: Domínio Público

 

Conhecer o guerrilheiro também pode ter influenciado o governador gaúcho a tomar a decisão que tomou em agosto de 1961, quando iniciou a Campanha da Legalidade contra o golpe militar, dando armas ao povo para defender a normalidade democrática.

Ao mesmo tempo, Che saiu influenciado, principalmente pelo contato que teve com a realidade brasileira.

Numa época em que o governo brasileiro alinhava-se tanto aos EUA quanto à Cuba, em um momento de politização efervescente e lutas de esquerda pela melhoria da vida dos mais pobres, Che declarou: “Vocês, brasileiros, fazem milagre. São exímios fazedores de milagres”.

Guevara, Brizola e Tavares na Conferência / Crédito: Domínio Público

 

Diferentemente de Che, Brizola não era socialista, mas trabalhista e, por isso, era mais ligado a noções como democracia representativa e papel social da propriedade, que seriam relevantes no desenvolvimento da guerrilha de Che no Congo e na Bolívia.

Che Guevara morreu seis anos depois, assassinado pelas Forças Armadas da Bolívia em associação com os Estados Unidos, que viam nele uma verdadeira ameaça. Brizola voltaria ao Uruguai depois do Golpe Militar ocorrido no Brasil em 1964, passando a se exilar no país. Só retornou ao seu país de origem em 1979, com o processo de Abertura. Morreu em 2004.


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