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O pior prisioneiro da Grã-Bretanha: A inacreditável história de Charles Bronson

Talvez você nunca tenha ouvido falar de Charles Bronson, um dos prisioneiros mais excêntricos da Europa. Mesmo sem ter matado ninguém, ele já passou mais tempo nas prisões britânicas do que muitos serial killers

M. R. Terci Publicado em 05/10/2019, às 09h00

Charles Bronson
Charles Bronson - Reprodução

“Era uma loucura absoluta no seu melhor”.

A frase foi escrita pelo próprio Charles Bronson para o roteiro do filme e dita a Nicolas Winding Refn durante uma de suas chamadas telefônicas. Refn não é da Grã-Bretanha, por isso, não foi autorizado a conhecer Bronson em pessoa. Em 2007, contudo, a administração penitenciária permitiu ao diretor fazer dois telefonemas para o prisioneiro.

Tom Hardy, premiado ator britânico, por seu turno, se reuniu com Bronson várias vezes. Os dois acabaram se tornando bons amigos. Bronson afirmava que Hardy era a única pessoa que poderia interpretá-lo. Hardy diz que Bronson é um artista.

Em março de 2009, estreava nos cinemas do mundo todo o filme Bronson. A saga do eterno prisioneiro encrenqueiro foi contada de maneira bela e teatral, tanto que a atuação de Hardy lhe rendeu o convite para ser o vilão Bane no último filme do Batman. Segundo consta, o ilustre prisioneiro não obteve autorização para assistir o longa-metragem. Mas, declarou que se sua mãe gostasse, isso seria o suficiente para ele. Sua mãe amou.

Obvio que não estamos falando do icônico ator norte-americano Charles Bronson (da franquia cinematográfica Desejo de Matar), falecido em 2003, mas sim de seu mais inusitado e fanático admirador, o prisioneiro inglês Michael Peterson, cuja trajetória maluca de vida vale a pena ser conferida, então, meus bons, venham comigo, pelos caminhos mais escuros da história, revelar até onde a vida imita a arte.

Na cidade de Ellesmere Port, um território industrial e portuário de Cheshire, Inglaterra, aos 13 anos de idade, o pequeno Peterson já havia se tornado um problema de ordem pública. De temperamento difícil, o jovem cabulava aulas na escola para, junto de um dileto grupo de delinquentes juvenis, se meter nas mais variadas encrencas.

Charles Bronson / Crédito: Reprodução

 

Em 1974, com 22 anos de idade, obteve a sua primeira condenação após ser preso por roubo à mão armada em uma agência do correio. Peterson roubou apenas 26 libras – cerca de R$ 131,00 – mas foi sentenciado a 7 anos de prisão.  Com bom comportamento, talvez, Peterson estivesse de volta às ruas em 3 ou 4 anos.

Mas aí não estaríamos falando de Bronson. Logo no primeiro mês na prisão acabou na solitária e quando saiu, atacou dois presos sem motivo algum. Nessa época, Peterson adotou o nome de Charles Bronson e uma sequência de agressões contra outros prisioneiros, guardas e carcereiros, bem como um número ilimitado de comportamentos bizarros e outras indizíveis maluquices, lhe garantiu o status de celebridade em todo o Reino Unido, mas também fez com que sua pena fosse majorada, postergando sua libertação até os dias de hoje.

É dele o recorde mundial de transferências de prisões em um país. Um legítimo prisioneiro indesejado, com passagem por mais de 150 localidades, entre prisões e hospitais psiquiátricos. Um lutador nato, verdadeiro berserker dos tempos modernos, responsável por hospitalizar mais de 20 guardas e quase matar com os próprios punhos outra dezena de prisioneiros.

Conhecido na Grã-Bretanha por seus motins e protestos de um homem só, adora fazer reféns e suas loucuras já causaram um prejuízo de meio milhão de libras esterlinas em danos físicos ao sistema carcerário britânico, afora, aquilo que os planos de saúde governamentais puderam cobrir.

Indomável, na prisão se recusava a trabalhar e, quando transferido para hospitais psiquiátricos, se recusava a tomar medicamentos. Foi em um desses hospitais que Bronson tentou matar um paciente acusado de pedofilia e, então, depois de quase sufocar até a morte o seu terapeuta com a própria gravata, foi devolvido à carceragem.

Pôster do filme Bronson, com Tom Hardy / Crédito: Divulgação

 

Talvez porque o sistema carcerário britânico não o aguentasse mais, tampouco as clínicas o desejavam, o maluco chegou a sentir o gosto da liberdade em duas oportunidades, uma em 1987, quando após 13 anos, foi solto. Bronson se tornou lutador de boxe ilegal, reza a lenda que, nesse curto período, numa luta, matou um rottweiler com apenas um soco. Sessenta e nove dias depois de ser libertado, ele foi preso novamente por assalto a uma joalheria

Da outra vez em que foi solto, em 1992, ficou livre por 53 dias. Novamente, se meteu em encrenca e para desespero de todos os detentos foi reconduzido à prisão.

Num dos episódios envolvendo reféns sua lista de exigências eram um helicóptero, uma boneca inflável e uma xicara de chá.  Em outra ocasião, fez dois terroristas iraquianos de reféns e exigiu cócegas nos pés e que fosse chamado de general pelos dois. Para os negociadores, ele pediu um machado, armas de fogo, munição, um helicóptero e um sanduíche de queijo.

Provocando confusão por onde passava, sua rotina a partir daí foram longos confinamentos em solitárias, treinamento de musculação e mais lutas. Contrário a todas as expectativas, Bronson se dedicava também a arte, com desenhos e pinturas a óleo, compondo poemas e prosas de reconhecida sensibilidade, que acabaram lhe conferindo diversas honrarias e prêmios mesmo dentro dos presídios. Escreveu também um bestseller sobre condicionamento físico.

Anos de brigas, solitária, desenhos, reféns, espancamentos, transferências e tudo o que poderia obter na boa e velha rotina como o pior prisioneiro da Grã-Bretanha. Mantido em solitária com cinco guardas escalados Charles Bronson, hoje, tem 65 anos e passou mais de dois terços de sua vida preso.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.