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Violação de direitos humanos e corrupção: Há 32 anos, acontecia a queda do ditador Alfredo Stroessner

Os 35 anos de ditadura resultaram 18 mil pessoas torturadas e mais de 400 execuções ou desaparecimentos

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 03/02/2021, às 08h38

O ditador Alfredo Stroessner
O ditador Alfredo Stroessner - Wikimedia Commons

No século passado, o Paraguai passou por revoluções, ditaduras e guerras civis em apenas poucos anos. Mesmo que tivesse vencido a Guerra do Chaco, conflito entre o país e a Bolívia que aconteceu entre 1932 e 1935, esse período foi responsável por moldar grande parte da fragilidade que se estabeleceu desde então.

Em 1949, Federico Chaves, do Partido Colorado, foi eleito presidente do Paraguai, herdando uma economia deteriorada, problemas de câmbio e insurreições sociais. Em pouco tempo de governo, arrumou para si o antagonismo do presidente do Banco Central, Epifanio Méndez Fleitas. Ele logo começou a articular uma movimentação contra o governante.

Alfredo Stroessner era o então comandante supremo das Forças Armadas, famoso por sua atuação na Guerra Civil do Paraguai. Fleitas conspirou junto do general para tirar Chaves do poder, ação que deu certo, mas com uma diferença: foi Stroessner quem assumiu, tomando posse em 15 de agosto de 1954. O organizador do golpe acabou voltando para o seu cargo inicial. 

Quando ele assumiu naquele dia, porém, não se esperava que fosse ficar tanto tempo no cargo. Apenas depois de 35 anos no poder, Stroessner, que se tornou um dos mais infames ditadores da América Latina, foi deposto por outro golpe de Estado. Há exatos 32 anos, ele foi derrubado com uma movimentação similar a que o colocou na posição. 

Longa ditadura 

Alfredo Stroessner / Crédito: Divulgação 

 

É possível perceber, portanto, que a chegada do ditador ao poder está relacionada a um cenário que antecede ao ano de 1954, quando ele passou a governar: o Paraguai já apresentava um cenário de instabilidade política, econômica e social muito antes disso. E a situação iria apenas piorar.

Em 1958, o político anunciou um estado de sítio permanente no Paraguai, em um regime que foi consolidado principalmente por sua atuação em duas instituições: as Forças Armadas e o Partido Colorado. As duas apoiavam Stroessner em pilares essenciais para a manutenção do governo, o primeiro com a força bruta e o segundo com a base popular. 

Para conseguir se manter no poder por esses 35 anos, o militar se submetia às urnas, que eram marcadas por uma falsa democracia. Sem candidatos da oposição, ele se reelegeu em 1958 e fazia “eleições” a cada cinco anos, sendo “eleito” para todos os seus mandatos. Isso aconteceu em 1963, 1968, 1973, 1978 e 1983. 

Os horrores do período

Durante o período Alfredo Stroessner, entre 4 a 5 mil civis foram assassinadas e centenas de milhares de paraguaios foram submetidos ao exílio. De acordo com a Comissão Verdade e Justiça, mais de 18 mil pessoas sofreram com torturas físicas, sexuais e psicológicas durante o regime. 

Muitas das torturas eram cometidas pelo próprio ditador. Stroessner, junto de seus ministros e generais, praticavam, nas horas livres, uma série de estupros — tendo preferência por violar meninas virgens. Seus assessores até mesmo solicitavam garotas para que o ditador as violentasse. 

O seu “harém” era composto por jovens, com idade entre 10 e 15 anos e, segundo o Ministério da Justiça em Assunção, estuprava quatro garotas por mês. Fazendo as contas, se somados todos os crimes em três décadas e meia de ditadura, ele teria violado mais de 1,6 mil crianças. 

Notícia de nazista que morreu no Paraguai / Crédito: Divulgação 

 

Além dos crimes contra a humanidade, o governo do ditador também foi responsável por outros episódios de procedência infame. O general tornou o Paraguai parte do contrabando de drogas, concedeu passaportes paraguaios para centenas de nazistas e ainda foi um dos militares que apoiou a Operação Condor. 

Fim de uma era

Stroessner foi eleito por oito vezes em suas eleições fraudulentas — das quais a maioria dava resultados de mais de 90% dos votos à favor do general. Mas, o seu governo acabou com outro golpe militar, em 3 de fevereiro de 1989, há exatos 32 anos. O militar Andrés Rodriguez, seu parceiro político, foi o responsável pela artimanha que resultou no golpe.

Rodriguez afirmava que a tomada de poder tinha como intuito trazer a democracia de volta para o Paraguai. Conforme publicado pelo The Guardian, ele disse aos jornalistas na época, logo após assumir o cargo: “Pretendo iniciar a democratização do Paraguai, bem como respeitar o cidadão paraguaio. Vamos trazer o respeito pelos direitos humanos de que tanto necessitamos”.

Stroessner logo depois obteve exílio político no Brasil, onde morreu em 2006, aos 96 anos.


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