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Há 25 anos, o Massacre de Ruanda chegava ao fim

No final do século 20, o genocídio deixou quase um milhão de pessoas mortas em apenas 100 dias no país africano

Vinícius Buono Publicado em 18/07/2019, às 12h00

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- Crédito: Reprodução

Há apenas 25 anos ocorria, na África, o episódio conhecido como Massacre de Ruanda. Neste dia, em 1994, aproximadamente um milhão de pessoas foram mortas em apenas cem dias.

Tudo começa com os Tutsis e os Hutus, duas etnias presentes não só no país, como em toda a região dos Grandes Lagos Africanos. Quando os europeus — primeiro a Alemanha e depois, principalmente, a Bélgica — colonizaram o local, os Hutus, majoritariamente camponeses, eram a maioria.

Os Tutsis, geralmente pastores, foram escolhidos pelos belgas para formar a aristocracia do país. Os europeus inflamavam as diferenças étnicas entre os dois grupos, manipulando-os para gerar instabilidade e, assim, conseguir manter o domínio sobre um país desunido.

Em 1959,  os Hutus se revoltaram contra os belgas e, em 1962, conquistaram a independência, tomando o poder. Por três décadas, a violência entre as duas etnias se intensificou. Em 1990, exilados Tutsis organizaram, no país vizinho Uganda, um exército chamado de Frente Patriótica Ruandesa (FPR), invadindo o país para libertá-lo do domínio Hutu.

Foi em abril 1994 que a situação atingiu seu ponto crítico, quando o avião que levava o presidente Jouvenal Habyarimana, Hutu, foi abatido por mísseis. O real mandante do atentado nunca foi descoberto, mas foi o suficiente para que os Hutus acusassem a FPR.

Teve início o genocídio e, em pleno final do século 20, o que se viu foi um dos acontecimentos mais horríveis da história humana. Planejado pela alta cúpula do governo Hutu e incentivado pela mídia, o assassinato em massa da população Tutsi não foi feito apenas por oficiais do exército, mas sim por cidadãos Hutus comuns.

Os requisitos para que um Hutu conseguisse armas eram mínimos, e grupos de extermínio foram formados por civis. Não interessava a idade, gênero, profissão e nada além. Os Tutsis foram brutalmente massacrados por pessoas que até então eram seus vizinhos, colegas e amigos.

O triste episódio durou por 3 meses, até julho de 1994, quando a FPR derrotou o governo e assumiu o controle do país. Dentre algumas histórias macabras de milícias Hutus, existe o relato de pessoas sendo levadas de helicóptero para assassinar os Tutsis e religiosos que atraíam outros prometendo um lugar seguro. 

Área de distribuição de alimentos próxima a um dos campos de refugiados. Foto de Sebastião Salgado

 

Muitas críticas foram feitas à ONU e às potências mundiais, que assistiram de longe enquanto mais de 500 mil (alguns números falam até em 1 milhão) de Tútsis foram mortos. O número de refugiados nos países vizinhos foi enorme, tanto Tútsis durante o massacre quanto Hutus. 

Em Ruanda, um país majoritariamente agrário e de economia frágil, os efeitos foram devastadores. A infraestrutura do país entrou em colapso e, com 40% da população morta ou refugiada, nem o sistema jurídico se salvou, já que os poucos juízes que lá ficaram não tinham base para julgar devido à participação maciça de civis.

O sistema penitenciário ficou completamente abarrotado. Os inúmeros estupros ocorridos durante o massacre geraram problemas sociais como a inadequação social dos filhos nascidos dessas relações e a transmissão de DSTs.

Hoje, Ruanda é liderada por Paul Kagame, Tútsi e antigo chefe da FPR. Ele é o Presidente eleito desde 2000, com inúmeras suspeitas de fraude e irregularidades nas eleições que venceu neste século.

Embora controverso, Kagame tomou medidas importantes para o crescimento da economia destruída do país e para a comunhão das duas etnias — não consta mais na identidade dos Ruandeses, por exemplo, o grupo a que pertencem — porém, os assuntos acerca do genocídio segue sendo um tabu na mídia e nas escolas do país.