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Mobilizou até Al Capone: Há 85 anos, o trágico sequestro e morte do filho de Charles Lindbergh era solucionado na Justiça

A comoção nacional pelo rapto do filho do primeiro grande aviador americano mobilizou o FBI a oferecer ajuda

Wallacy Ferrari Publicado em 13/02/2020, às 11h00

Fotografia de Charles Jr. no quintal da residência que foi sequestrado
Fotografia de Charles Jr. no quintal da residência que foi sequestrado - Federal Bureau of Investigation

Em 1927, o aviador Charles Lindbergh ganhou fama mundial ao ser o primeiro homem a cruzar o transatlântico sozinho em um avião, numa viagem que durou 33 horas, partindo a costa ocidental dos Estados Unidos até Paris, na França. Tal feito fez Lindbergh ser uma das figuras mais notórias de seu país. Como consequência, fez uma fortuna notável para a época e chamando atenção por sua vida no pequeno distrito de Hopewell, em New Jersey.

Cinco anos depois, em 1º de março de 1932, Charles Jr, seu primeiro filho do casamento com a escritora Anne Morrow, foi colocado pela enfermeira Betty Gow para dormir em seu berço, por volta das 20h.

Aproximadamente às 21h30, Anne relatou ouvir um som estranho enquanto tomava banho, enquanto seu marido, que estava no primeiro andar da casa, ouviu um estalo forte, que acreditou ser uma queda de um caixote de laranjas na cozinha, que ignorou.

Às 22 horas, a enfermeira voltou para o quarto e não encontrou o bebê na residência: era o começo de uma extensa investigação. Após todos os residentes vasculharem cada cômodo da casa, inclusive com Lindbergh armado, encontraram um envelope branco na sacada que dava acesso ao quarto do filho. No envelope, uma carta instruía os responsáveis por Jr. a pagar uma quantia de 50 mil dólares para o resgate.

A carta foi passada ao Departamento de Polícia de Hopewell, que passou o relatório para a Polícia do Estado de New Jersey, iniciando a investigação em parceria com o FBI. A investigação, apesar de rápida, com os policiais chegando em 20 minutos na casa após o chamado, foi difícil, visto que os comparecimentos de curiosos e da imprensa alteraram a cena do crime. Uma escada foi deixada pelo sequestrador na janela, inclusive com um degrau quebrado durante o seu uso, que causou o barulho notado pelo aviador anteriormente.

Pelo fato de terem sido examinadas por diversas pessoas, o grande número de digitais na escada e na carta impossibilitava a verificação. Além dos itens, não foi localizada nenhuma impressão no quarto do bebê.

Sem nenhuma atualização por parte do sequestrador ou da polícia sobre o paradeiro de Charles Jr., empregados da família foram interrogados e muitas ofertas de assistência e pistas falsas chegaram até a família.

Uma das ofertas partiu de Al Capone, na época preso em Cook County, em Chicago, que ofereceu 10 mil dólares por informações que levariam à captura dos sequestradores. O plano de Capone, entretanto, não era uma simples solidariedade: o gangster estava preso há quatro meses aguardando sua sentença e fez a proposta acreditando que poderia ajudar na sua imagem e poupá-lo de uma pena maior.

A negociação

Seis dias após o rapto, uma segunda nota foi recebida por Lindbergh, aumentando o valor do resgate para 70 mil dólares e solicitando uma personalidade para intermediar nas negociações. Além disso, uma terceira carta, recebida pelo advogado do aviador, solicitava a confirmação do pagamento e do intermediário por uma nota publicada em um jornal.

O professor John F. Condon, personalidade popular no bairro do Bronx, se ofereceu e adicionou mil dólares para o sequestrador devolver a criança para um padre católico.

Lindbergh aceitou a ajuda de Condon, que passou a negociar diretamente com os raptores por cartas, que eram mandadas ao longo dos dias, afirmando que a criança permanecia sem lesões e vivendo em um barco. Após 16 dias, Condon recebeu a sétima carta, contendo o pijama que Charles Jr vestia na noite do rapto. Com a confirmação, Lindbergh autorizou Condon a publicar que estava disposto a pagar o resgate sem intermédio militar.

No dia 1º de abril, um mês após o início do sequestro, recebeu a resposta dos sequestradores autorizando o pagamento. No dia seguinte, uma nova nota foi recebida por um taxista, que foi orientado a entregar por um passageiro que não se identificou, com o endereço de depósito.

O pagamento foi feito com notas falsas idênticas, porém com números de identificação das cédulas alterados para facilitar a investigação. O dinheiro foi colocado em uma caixa de madeira especialmente feita para facilitar sua identificação caso fosse encontrada.

A caixa foi levada ao local, onde Condor entregou para um homem que se identificou como “John”. Após a confirmação do pagamento, recebeu a última carta, orientando o comparecimento até um barco com a escritura “Nellie”, na ilha de Martha's Vineyard, em Massachusetts, no sul dos Estados Unidos.

De acordo com a carta, o bebê estava aos cuidados de duas mulheres que não tinham conhecimento de que o bebê era sequestrado. A busca foi realizada, mas não foi encontrada nenhuma embarcação com esse nome ou algum relato da criança.

A descoberta do corpo e o culpado

Charles Lindbergh, pai de Charles Jr., depõe no julgamento de Bruno Richard Hauptmann / Créditos: Wikimidia Commons

 

Em 12 de maio de 1932, mais de dois meses após o rapto, há 6,5 quilômetros a sudeste da casa de Lindbergh, o caminhoneiro Orville Wilson parou o veículo para William Allen, seu assistente, que desceu em uma estrada para urinar em uma árvore. William se deparou com um corpo infantil, mal enterrado e com sinais de decomposição avançada, e notificou a polícia.

O cadáver foi coletado e, com a averiguação científica, foi confirmado que o corpo era de Charles Jr. A cabeça estava esmagada com uma lesão formando um buraco no crânio. Além disso, o bebê estava parcialmente desmembrado.

A comoção nacional foi tão grande que o Congresso dos Estados Unidos se apressou em tornar o sequestro um crime nacional. As investigações prosseguiram de maneira intensa, tendo como principal suspeita a empregada Violet Sharp, que trabalhava com a família.

A empregada manifestou nervosismo nos depoimentos e, posteriormente, em junho, cometeu suicídio antes de comparecer ao quarto interrogatório. A polícia confirmou que não houve envolvimento da empregada e foi duramente criticada pelos métodos de interrogar.

Após orientar os bancos de todo o país a buscarem as cédulas com o certificado de ouro compatível com as do pagamento do resgate, o Federal Reserve Bank notificou o FBI em agosto de 1934, informando que havia compatibilidade e que o funcionário que recebeu anotou a placa do carro do cliente que fez a transação.

A polícia localizou o carro no Bronx, em nome de Bruno Richard Hauptmann. Averiguando a casa, localizaram mais 14 mil dólares com a certificação compatível  e prenderam Hauptmann em flagrante. Em fevereiro de 1935, Bruno foi condenado à morte e eletrocutado no ano seguinte.