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A onda de suicídios que tomou a Alemanha nos momentos finais da Segunda Guerra

Hitler instaurou uma ideologia que preferia o suicídio à derrota. Como consequência, enforcamento, afogamento e envenenamento tiraram a vida de famílias inteiras

Isabela Barreiros Publicado em 13/09/2019, às 12h00

O suicídio do Ministro do Interior Heinrich Himmler
O suicídio do Ministro do Interior Heinrich Himmler - Reprodução

A medida que o Exército Vermelho se aproximava, e o medo das represálias da União Soviética aumentava, o cenário, que já era perturbador para os alemães, ficou ainda pior. O Führer e seus comandantes ainda incentivavam uma forma, considerada por eles, menos dolorosa de perder: o suicídio.

"É apenas [uma fração] de segundo. Então, é redimido de tudo e encontra tranquilidade e paz eterna”, disse Hitler durante uma conferência no dia 30 de agosto de 1944. Posteriormente, ele mesmo cometeria esse ato. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, além de suicidar-se, tirou a vida de seus seis filhos e esposa com veneno.

No entanto, o mais terrível é que isso não ficou restrito aos líderes e militares. Os civis também foram invadidos com a necessidade de acabar com suas vidas. A propaganda nazista foi um fator decisivo nessas circunstâncias — os longos anos expostos a esses anúncios colaboraram com a incapacidade de aceitar a derrota.

“Teve influência um efeito psicológico que transforma o suicídio em algo contagioso, quase como uma infecção”, analisa o historiador Florian Huber, autor do livro Filho, Me Promete que Vai Atirar.

Historiadores calculam que, nos últimos meses da Segunda Guerra, cerca de 10.000 e 100.000 pessoas tiraram suas vidas por motivos relacionados ao nazismo. Segundo Huber, os rios alemães se tornaram cemitérios a céu aberto. “As testemunhas se lembram de pessoas penduradas em árvores por toda parte”, comenta.

O caso mais extremo dos suicídios coletivos aconteceu na cidade de Demmin, no nordeste da Alemanha. Na época, a região tinha aproximadamente 15.000 habitantes. Entre 700 e 1.000 cidadãos tomaram a decisão de juntar-se à loucura, coletiva, do Führer. Esse foi o maior suicídio em massa que já aconteceu na história do país.

Além de tirarem a própria vida, os alemães também levavam consigo seus filhos. Bärbel Schreiner conta que, na época com apenas seis anos, sua mãe fazia parte do grupo que compactuava com essa ideia.

Bärbel com a mãe e o irmão / Crédito: Reprodução

 

Atualmente, ela afirmou que só sobreviveu porque seu irmão disse “mamãe, nós não, né?”, o que fez com que a mulher desistisse. “Ainda me lembro da água avermelhada pelo sangue. Sem essas palavras, tenho certeza que minha mãe teria afogado nós dois”, relembra.

As técnicas utilizadas por eles eram principalmente o afogamento, ingestão de cápsulas de cianeto e o enforcamento. Para este último, os britânicos encontraram um cartão-postal escrito em alemão que seria um “manual” ensinando como enforcar-se com uma quantidade mínima de dor.

Um dos panfletos encontrados / Crédito:  Drucksache

 

Seja por medo dos vencedores, fanatismo, ou culpa pelas atrocidades cometidas pelo nazismo, milhares de alemães tiraram suas vidas em um curto período de tempo por consequência do regime vigente.