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Os crimes do Khmer Vermelho: Genocídio no Camboja a partir de trágicos relatos de sobreviventes

O regime de Pol Pot foi um dos governos mais autoritários e sangrentos da História e matou entre 1,7 e 2 milhões de cambojanos, equivalente a 25% da população

Isabela Barreiros Publicado em 04/02/2020, às 17h00

Crânios das vítimas do Genocídio do Camboja
Crânios das vítimas do Genocídio do Camboja - Wikimedia Commons

Entre 1975 e 1979, um dos maiores genocídios da humanidade, e o maior proporcionalmente à população, foi promovido pelo Khmer Vermelho, nome informal dado ao Partido Comunista do Camboja (ou Kampuchea, a autodenominação do país). Em apenas quatro anos de governo, o regime de Pol Pot matou entre 1,7 e 2 milhões de cambojanos, equivalente a 25% da população.

Em abril de 1975, propriedades começaram a ser confiscadas, hospitais e fábricas fechados, o dinheiro foi abolido, linhas telefônicas foram cortadas e religiões banidas do país. Tudo isso era feito com o intuito de preparar a população para seu novo modo de vida, em fazendas coletivas.

Homens, mulheres e crianças foram transformados em camponeses, com rotina de trabalho de — ao menos — 12 horas seguidas. Eles teriam que plantar o que comeriam. Como a maioria era de moradores de cidades, sem prática e sem poder contar com a ajuda dos agricultores locais, a fome logo tomou conta do cenário. Quem tentasse fugir ou violasse as regras era assassinado e depois colocado em valas comuns.

Confira os relatos.


Haing Ngor

Haing Ngor / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Eu já fui muitas coisas na vida: um médico… um ator de Hollywood. Mas nada moldou tanto minha vida como sobreviver ao regime de Pol Pot. Eu sou um sobrevivente do holocausto cambojano. É isso que eu sou". O autor dessa frase é Haing Ngor, que é exatamente isso que ele descreve: um sobrevivente do holocausto cambojano.

Antes de o regime autoritário subir ao poder no Camboja, Ngor era médico ginecologista na cidade de Phnom Penh, capital do país. Durante o massacre, ele foi preso e torturado três vezes, e ainda assim conseguiu sobreviver aos horrores que eram praticados pelo governo. Depois de tudo, foi como refugiado aos Estados Unidos.

Por mais irônico que pareça devido a sua profissão, sua esposa morreu durante o parto, e o filho dos dois também não conseguiu sobreviver. Esse acontecimento marcou fortemente o médico, que narrou suas terríveis experiências no livro A Cambodian Odyssey (Uma Odisseia Cambojana, em tradução livre), publicado em 1987.

Ao longo das 500 páginas que exalam sofrimento e dor, Ngor relata como foram as vezes em que foi aprisionado pelo regime de Pol Pot, as condições extremas que a população enfrentava naquela época e a trágica história de seu filho que não pôde nascer e de sua esposa que faleceu  devido à falta de equipamentos básicos para salvá-los.

Outro legado importante do cambojano para a exposição dos crimes cometidos pelo Khmer Vermelho foi o seu papel no filme Os Gritos do Silêncio, dirigido por Roland Joffé e lançado em 1984. O longa-metragem narra a história contada pelo jornalista correspondente de guerra do New York Times, Sydney Schanberg, que foi responsável pela cobertura do jornal sobre a Guerra do Vietnã.

O filme foi o primeiro a abordar o genocídio cambojano. Ngor fez Dith Pran, o tradutor de Schanberg e ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 1985.


Vann Nath

Vann Nath / Crédito: Wikimedia Commons

 

Antes de enfrentar os horrores do genocídio cambojano, Vann Nath era pintor. Quando o regime foi instaurado, ele foi levado para a prisão de Tuol Sleng, que ficou conhecida por ser um dos locais onde mais cambojanos foram assassinados. Lá, pelo menos 15 mil pessoas foram obrigadas, por meio de torturas, a confessar crimes que não haviam cometido para serem, depois, mortas.

Nath foi um dos apenas sete prisioneiros que sobreviveram à prisão. Sua vida foi poupada pouco antes das execuções devido a um insólito motivo: se pintasse retratos do sanguinário Pol Pot, poderia sobreviver. E assim ele o fez.

Sua atuação para que holocausto de seu país natal não fosse esquecido foi admirável. O local em que ele quase foi assassinado tornou-se um museu, e pinturas de suas memórias sobre as torturas sofridas estão penduradas nas paredes que antes observavam cenas aterrorizantes.

Além disso, o livro O Retrato de uma Prisão no Camboja, publicado em 1998, também se tornou um dos mais importantes relatos do que aconteceu no país durante o governo do Khmer Vermelho. Ao escrever sobre sua vivência dentro do local, ele revelou como os prisioneiros eram cruelmente tratados e posteriormente assassinados.


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