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Abuso sexual e ataque de animais: o inferno de Tippi Hedren nos bastidores de Os Pássaros

O caso da relação abusiva entre o diretor e a atriz Tippi Hedren já denunciava a situação comum de assédio na indústria cinematográfica

Mariana Ribas Publicado em 03/05/2020, às 07h00

Alfred Hitchcock e Tippi Hedren
Alfred Hitchcock e Tippi Hedren - Wikimedia Commons

Entre os trabalhos mais renomados do diretor Alfred Hitchcock, nascido há exatos 120 anos, em 13 de agosto de 1899, está Os Pássaros. Estrelado por Tippi Hedren, o filme foi um dos primeiros trabalhos da atriz, na época com 33 anos.

Em 1961, Hedren foi descoberta por Hitchcock enquanto era garota propaganda para a bebida dietética Sedo. Os dois marcaram uma reunião. No entanto, a jovem atriz não sabia a real intenção do renomado diretor.

Hitchcock manipulou Hedren para que acreditasse que um contrato de sete anos traria benefícios para sua carreira. Ela aceitou a proposta. Em seguida, o diretor disse que ela seria a protagonista de Os Pássaros.

No começo das gravações, a atriz começou a se sentir desconfortável e infeliz. O diretor tirava todo o seu tempo, e Hedren só tinha uma tarde livre durante a semana. Logo começaram as torturas psicológicas —Hitchcock dizia que se ela desistisse das filmagens ele iria acabar com a carreira dela.

Ainda durante as gravações, Hedren foi assediada por Hitchcock, que insistia para que ela o tocasse. Em outra ocasião, em sua limusine, tentou beijá-la a força.

Tippi Hedren / Crédito: Wikimedia Commons

 

A cena mais famosa da obra mostra a atriz sendo atacada pelos corvos — ela realmente estava sendo atacada por eles, sem saber que seria submetida a isso. Hitchcock disse que a cena seria filmada com pássaros mecânicos, mas quando ela chegou ao set os animais eram reais.

Um corvo arrancou um pedaço de sua bochecha e quase atingiu seu olho. A primeira cena, regravada cinco vezes, terminou com a atriz chorando e com seu rosto ensanguentado. De prontidão no set, o médico até chegou a questionar o diretor: “Você esta querendo matá-la?”.

Hedren suportou os abusos durante um bom tempo. Até que, após seu segundo filme, Marnie, lançado em 1964, ela se revoltou após uma discussão com Hitchcock, dizendo: “Você não é meu dono”, ao que ele respondeu: “Sou, tenho um contrato”.

A atriz se recusou a continuar trabalhando com o cineasta. Mas ele continuou com o contrato e a pagava para que ela não conseguisse ser escalada para outro papel. Hedren, revoltada, chegou a chamá-lo de Porco Gordo, durante uma entrevista.

Em 1979, durante uma homenagem ao diretor em sua premiação do AFI Life Achievement Award, a atriz afirmou: “Eu tenho sido capaz de separar os dois. O homem e o artista. O que ele deu à indústria cinematográfica nunca pode ser tirado dele. Mas por outro lado, há aquele lado escuro que foi realmente horrível”.

O filme The Girl, de 2012, inspirado na experiência de Tippi Hedren, conta o drama dessa relação abusiva, em que um lado está uma mulher e seu corpo marginalizado, e um homem com a “síndrome do poder”.


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