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Pioneira: Patricia Douglas, a destemida atriz que fez a primeira denúncia de estupro em Hollywood

Em meados de 1937, a artista foi atacada por um empresário do meio cinematográfico e fez de tudo para conseguir justiça

Pamela Malva Publicado em 05/06/2020, às 08h00

Patricia Douglas, a primeira atriz a denunciar um estupro em Hollywood
Patricia Douglas, a primeira atriz a denunciar um estupro em Hollywood - Divulgação

Hollywood aparece constantemente em revistas e jornais pelas diversas polêmicas que acontecem entre os artistas e empresários do meio cinematográfico. Harvey Weinstein, um dos últimos escândalos, chocou o mundo inteiro quando surgiu nas manchetes.

De repente, dezenas de mulheres estavam saindo de seus esconderijos e denunciando casos de abuso sexual por parte do empresário. Em meio ao movimento Me Too, atrizes lembraram a história de Patricia Douglas.

Em meados de 1937, a artista foi a primeira a acusar um famoso empresário de Hollywood de estupro, quando ela tinha apenas 20 anos. Ao contrário das mulheres abusadas por Weinstein, Patricia foi atacada em uma festa do estúdio MGM.

Segundo conta o podcast Hollywood você deve lembrar disso, tudo começou quando ela foi convidada pela MGM a fazer um teste para um filme. Patricia e outras 120 mulheres apareceram na audição e receberam fantasias minúsculas.

Foto meramente ilustrativa de cobos de bebida / Crédito: Divulgação

 

De repente, foram levadas para uma festa, regada a 500 caixas de uísque e champanhe. O evento, sediado pelo próprio estúdio, comemorava mais um bom ano. Segundo testemunhos, eram mais de 300 executivos e vendedores da MGM.

Sem saber, as meninas foram contratadas para animar os homens presentes na festa. “Eles nunca disseram que era uma festa”, contou Patricia, em entrevista à Vanity Fair, em 2003. “Eu não teria ido se soubesse”.

No final do trabalho, todas receberam US$ 7,50. Foram menos de dez dólares para lidar com homens bêbados, que, de acordo com um garçom ouvido pela Vanity Fair, “estavam tentando molestá-las" a noite toda.

Segundo a versão contada pela própria Patricia, em determinado momento da noite, David Ross, um dos empresários, tentou dançar com ela. Percebendo as segundas intenções, a jovem fugiu para o banheiro, mas foi capturada no caminho.

Jornal da época com manchete do caso / Crédito: Divulgação

Ross e um amigo seguraram a atriz e a forçaram a tomar uma dose de bebida alcoólica. Patricia, então, tentou fugir, mas foi jogada em um carro, onde David Ross a estuprou. “Quando ele terminou, Patricia saiu do carro gritando”, contou Karina Longworth, a apresentadora do podcast, em um episódio de 2015.

A atriz foi levada ao hospital, que, ironicamente, tinha convênio com a MGM. O médio que a examinou não encontrou evidências de relações sexuais e a mandou para casa. “Eles me deram uma ducha de água fria”, contou Patricia. “Não é surpresa que ele não tenha encontrado nada. A água removeu todas as evidências.”

“Estava dolorido lá em baixo, meu rosto ainda estava inchado”, ela narrou à David Stenn, diretor do documentário Girl 27. Ela não pediu uma segunda opinião médica e apresentou uma queixa contra Ross com um promotor do condado de Los Angeles.

Patricia também contou que tentou denunciar o estupro na mídia, mas todas as suas tentativas eram abafadas pelo poder onipresente da MGM. O estúdio, por sua vez, demonstrou surpresa, mas não ergueu qualquer protocolo para ajudá-la.

Muito pelo contrário, o agente da MGM fez de tudo para que as pessoas não acreditassem na história de Patricia. Entre as tentativas, ele alegou que ela teria bebido demais na festa e que teria passado por uma "infecção urinária genital".

Patricia, que denunciou o crime, nunca conseguiu justiça / Crédito: Divulgação

 

Entretanto, durante as investigações, Patricia reconheceu David Ross em uma foto. Ele negou as acusações, mas a promotoria "ficou sem opção a não ser convocar um grande júri", segundo David Stenn. O julgamento não levou à nada e, mais tarde, Patricia entrou com uma ação civil contra vários executivos da MGM. Ainda assim, a atriz ficou sem justiça e cresceu com o gosto amargo daquele trauma.

Quando Stenn, diretor do documentário, escreveu a matéria na Vanity Fair, Patricia tinha 86 anos. “Ele arruinou minha vida”, ela disse. “Tirou toda a minha confiança. Nunca me apaixonei. Nunca tive um orgasmo. Fui uma zumbi ambulante que deslizou pela vida".

No final da entrevista, Stenn perguntou à atriz o que ela faria a seguir. Em resposta, ela disse que estava disposta a ir a público mais uma vez. "Quando eu morrer, a verdade morrerá comigo, e isso significa que esses bastardos vencem", finalizou.


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