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O amor trágico de Pedro Abelardo e Heloísa de Argenteuil

Quando foi castrado pelo tio de sua amante, o filósofo abandonou tudo e os dois se destinaram à vida religiosa; isso não impediu, contudo, que trocassem cartas até o fim de suas vidas

Isabela Barreiros Publicado em 12/04/2020, às 09h00

Pintura de Edmund Leighton, de 1882, representando Pedro Abelardo e Heloísa de Argenteuil
Pintura de Edmund Leighton, de 1882, representando Pedro Abelardo e Heloísa de Argenteuil - Wikimedia Commons

Pedro Abelardo nasceu na Bretanha, em 1079, filho de um aristocrata francês. Apaixonado pelo saber, só teve uma saída: o clero. Aos 20 anos já estudava retórica e latim em Paris. Rapidamente ganhou fama, abriu uma escola e conquistou alunos de toda a Europa.

Abelardo era culto, eloquente e charmoso. Aos 40 anos, ocupando o cargo de professor de filosofia e teologia, o homem passou a receber reconhecimento dos demais. Nesse momento, vivia uma situação de sucesso e luxúria, no entanto, a vida do professor – e religioso – mudou de rumo. Motivo: o amor.

Ao conhecer Heloísa de Argenteuil, 23 anos mais jovem, apaixonou-se. Segundo Patrícia Rangel, professora da PUC-GO, no artigo A abadessa infiel e o cavaleiro apóstata, “quando descobre a existência de Heloísa, sobrinha do também cônego Fulberto, [...] passa a desejar seduzir a jovem. Aqui, ele abandona sua vida de ‘sublime continência’ para colocar em prática seu plano”.

Heloísa era extremamente inteligente. Com habilidades notáveis em línguas como latim, grego e hebraico, seu tio e tutor, Fulberto sempre a apoiou, investindo na melhor educação para a moça. Como Abelardo era um dos melhores professores de filosofia de Paris naquela época, isso ajudou na aproximação do futuro casal. 

Ilustração de Heloísa / Crédito: Wikimedia Commons

 

Essa paixão toma completamente a vida do professor: “ele abandonou as escolas, trocou os alunos pela amante e a filosofia pela poesia, compondo versos para a amada”. Com isso, Heloísa engravida e é enviada para a casa de uma irmã de Abelardo na Bretanha, principalmente devido à grande polêmica envolvendo a relação dos dois.

Assim, para tentar “compensar” Fulberto, oferece o matrimônio como solução do problema. Este, no entanto, deveria ser realizado às escondidas, visto que não era bem visto pela sociedade um grande pensador se casar, como diz Rangel, “assim como sua amante, pensava que um sábio jamais deve se casar pois não conseguiria servir tempo dois senhores (seus livros e sua esposa) ao mesmo”.

Quando se casam, porém, o cônego faz de tudo para divulgar a notícia, com o intuito de limpar sua honra perante à sociedade. A moça insiste em não negar a verdade disseminada por seu tio, o que fez com que o casal começasse a ter problemas. Abelardo, então, decide enviar a esposa para outro lugar, onde ficaria segura — o convento de Argenteuil.

Claro que Fulberto pensou que o professor estava tentando se livrar de sua sobrinha. Assim, um dia, tomado de fúria, ele castrou Abelardo. A notícia espalhou-se. Envergonhado, o professor retirou-se para a Abadia de St. Denis e ordenou a Heloísa que se tornasse freira. Durante muito tempo, os dois sofreram com perseguições religiosas das diversas instituições que tentavam se filiar.

Gravura representando o casal / Crédito: Wikimedia Commons

 

O casal viveu separado por dez anos. Com o passar dos anos, porém, Abelardo retornou ao púlpito, tornando-se abade de St. Gildas de Rhuys, na Bretanha. Ele acabou, também, ajudando Heloísa quando o convento onde ela vivia quase foi fechado. Os dois não se tornam a ver novamente.

Assim, Abelardo e Heloísa retomaram a troca frenética de cartas, interrompida pouco antes da morte dele, em 1142. Segundo Rangel, o conteúdo das cartas demonstra “os posicionamentos e as ideias conflitantes dos dois, que travam uma batalha intensa para tentar convencer o outro de seu ponto de vista. Heloísa, ainda apaixonada por Abelardo, culpa Deus por todas as desgraças que lhes ocorreram e reluta em abraçar a profissão religiosa. Abelardo, por outro lado, se mostra totalmente convertido e faz de tudo para levar sua antiga amante no mesmo caminho”.

No entanto, tempos depois, Heloísa se cansa e se cala, parando de responder às correspondências de seu antigo amado. Nessa situação, o religioso acredita ter convencido a moça dos seus ideais — o que provavelmente não era verdade.

Heloísa morreu 20 anos depois e seu corpo foi colocado no túmulo do amante. Uma lenda diz que, quando foi colocada no caixão, Abelardo abriu os braços para a acolher em seu peito. Os dois repousam no cemitério do Père Lachaise, em Paris.


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