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Mensalão: 14 anos do escândalo petista

A crise de corrupção envolveu o Parlamento e o governo, em 2005

Valentina Nunes Publicado em 06/06/2019, às 06h00

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Gravações de áudio e vídeos, delações, chantagens, troca de ameaças, propinas e circulação de somas vultosas em malas, mochilas, cuecas e meias ou depositadas em contas bancárias de paraísos fiscais são práticas condenáveis, mas bastante comuns entre políticos e empresários brasileiros.

A corrupção e desvios no Brasil alcançaram o estágio de crime organizado, com o agravante da impunidade e com reflexos vergonhosos na precariedade dos serviços básicos de saúde, educação, assistência social e aumento da violência nas ruas. Dos casos conhecidos da população na primeira década do século 21, o mensalão deve permanecer por muito tempo ainda no topo dos mais escandalosos da política nacional.

Prática antiga entre deputados e senadores, a compra de votos de parlamentares no Congresso veio a público entre 2005 e 2006, objeto da ação penal de número 470, movida pelo Ministério Público no Supremo Tribunal Federal.

A batalha política que desencadeou o escândalo do mensalão começou com denúncias de fraudes em licitações da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Segundo matéria publicada na edição 3 de junho de 2005, no jornal Folha de S. Paulo, o governo estaria liberando 400 milhões de reais na forma de emendas ao orçamento, como moeda de troca para que nenhuma investigação fosse feita pelo Parlamento.

Crédito: Reprodução

 

Parte da base governista, em apoio à oposição, defendeu a instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), enquanto Roberto Jefferson, na época presidente do PTB, resolveu partir para o contra-ataque e jogar lama no ventilador. Três dias depois, na edição de 6 de junho, segunda-feira, a mesma Folha publicou entrevista exclusiva com Jefferson, concedida à jornalista Renata Lo Prete.

O parlamentar petebista disse que Delúbio Soares, o tesoureiro do PT, pagava mensalidade de 30 mil reais a alguns deputados do Congresso, para que eles votassem seguindo a orientação do governo. Foi o próprio Jefferson quem usou o termo mensalão ao se referir à propina.

A divulgação da entrevista agravou a crise no governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo Jefferson, o operador era o empresário Marcos Valério de Souza, dono das agências de publicidade SMP&B e DNA, que mantinham contratos com diversos órgãos públicos da administração federal.

A entrevista de Jefferson e seus desdobramentos resultaram na queda do então ministro da Casa Civil de Lula, José Dirceu, um dos homens fortes do PT, que voltou a ser deputado antes de ser preso. No lugar dele, foi nomeada Dilma Rousseff, até então ministra das Minas e Energia, mais tarde sucessora de Lula no Palácio do Planalto. A direção nacional do PT e o próprio Delúbio Soares negaram as acusações, e, apesar de uma minoria do partido defender o afastamento, o tesoureiro foi mantido no cargo.

Em 8 de junho,  a Folha publicou entrevista com Delúbio, que afirmou que o governo teria feito combate implacável à corrupção no país. “Nesses mais de trinta anos de militância política, não acumulei vantagens e coloco à disposição da Justiça meus sigilos fiscal e bancário. O PT não participa de compra de votos nem de apoio de deputados”, declarou na ocasião o tesoureiro petista.

O Supremo Tribunal Federal (STF) começou a julgar o mensalão em 2012. Dos quarenta acusados inicialmente, apenas 37 réus foram a julgamento, dos quais 24 seriam condenados ao final do processo.


Reportagem retirada do Livro 365 dias de mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil, (p.332, 333).