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Czarismo: O retrato do inferno

Camponeses vivendo na miséria, operários superexplorados e guerra contra o Japão criaram na Rússia o cenário perfeito para uma fogueira revolucionária

Giovana Sanchez e Renato Machado Publicado em 17/07/2019, às 08h00

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A Rússia do final do século 19, governada pelo czar Nicolau II, é um gigante em termos territoriais e populacionais. O império estende-se do Leste Europeu ao Oceano Pacífico – quase quatro vezes o tamanho do Brasil – e tem aproximadamente 140 milhões de habitantes, população oito vezes maior que brasileira na mesma época.

Mas, apesar do gigantismo, aquele é um país extremamente atrasado. Enquanto nações como Alemanha, Inglaterra e EUA já se encontram em estágios avançados da Revolução Industrial, cerca de 85% dos súditos de Nicolau ainda estão no campo.

A pobreza é generalizada. Os lotes de terra à disposição dos camponeses mais humildes são pequenos demais e as rendas familiares, baixíssimas. Famílias inteiras vivem em pequenas choupanas. Nas ruas de terra dos vilarejos rurais, vacas e porcos misturam-se aos transeuntes.

Esgoto a céu aberto e pilhas de lixo por toda parte ajudam a disseminar epidemias de cólera, que dizimam parcelas significativas da população a cada três anos em média. A desnutrição faz vítimas principalmente entre as crianças, e a maior parte dos jovens e adultos é analfabeta.

Enquanto isso, as classes dominantes vivem cercadas de luxo e privilégios nababescos. As residências da nobreza são enormes e bem cuidadas, com fachadas de arquitetura neoclássica. Carruagens tão pomposas quanto as que circulam em Londres ou Paris levam para lá e para cá a sofisticada aristocracia russa – senhoras em belos vestidos de renda e seus esposos de casacas impecáveis.

Os mais ricos costumam promover bailes fulgurantes, como os organizados no bar do Iate Clube Imperial. Cerca de 105 mil famílias, proprietárias da maior parte das terras, ocupam o topo da pirâmide social.

Tatiana Romanov, filha do czar Nicolau II / 
Crédito: Klimbim

 

Os nobres dominam também a burocracia estatal. Mais de 70% dos 500 mil cargos públicos do Império são ocupados pelos ricos. Isso lhes garante uma série de benefícios, entre eles, bons salários, impostos mais baixos e a possibilidade de colocar seus filhos em posições de destaque no Exército ou nas poucas universidades.

Esse perverso contraste social, com ricos muito ricos de um lado e pobres muito pobres de outro, é mantido por taxas exorbitantes pagas justamente pelas fatias mais humildes da sociedade. Não demorará até que esse imenso contingente de miseráveis se rebele.

Capitalismo selvagem

Os Romanov, dinastia da qual Nicolau II faz parte, governam a Rússia há quase 200 anos e são o melhor exemplo do abismo que separa ricos e pobres. Eles vivem em meio a tesouros acumulados nesses dois séculos, controlam a Igreja Ortodoxa e não têm qualquer simpatia pelas muitas etnias que compõem a sociedade ao lado dos russos.

Àquela altura, o czar já percebeu que, sem indústrias e sem progresso, seu império jamais conseguirá competir com os países desenvolvidos da Europa. Nicolau decide aplicar um plano de modernização da economia, baseado no incentivo à industrialização e na construção de um grande sistema de ferrovias – a principal delas é a Transiberiana, que liga a Rússia européia aos territórios mais longínquos da Ásia e foi quase concluída na década de 1890.

Para dar conta do recado, o regime czarista lança mão de duas estratégias: aumenta ainda mais os impostos e busca empréstimos com bancos estrangeiros. A dívida externa rapidamente atinge níveis alarmantes, com o capital internacional controlando mais de 70% dos investimentos aplicados na atividade industrial. Em pouco tempo, a Rússia estaria inteiramente nas mãos de banqueiros ingleses, franceses e norte-americanos.

Com o desenvolvimento da indústria, as cidades também crescem. Em apenas dez anos, de 1890 a 1900, a população urbana simplesmente dobra de tamanho. Surge o proletariado russo, formado principalmente por agricultores que abandonaram o campo em busca de melhores condições de vida.

Mas não é isso o que eles encontram ao migrar para centros como Petrogrado, Moscou, Minsk e Odessa. Segundo o historiador Daniel Aarão Reis Filho, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), a jornada de trabalho chegava a 15 horas diárias e não havia garantia de assistência social. Os salários eram baixos, se comparados aos pagos na Europa, embora a produtividade dos operários russos fosse a mesma.

A situação é ainda mais grave para os não-russos, como poloneses, ucranianos, bielo-russos, georgianos e armênios – quase 60% da população do império. “Essas e muitas outras etnias não desfrutavam dos mesmos direitos dos russos”, escreve Reis Filho em A Revolução Russa: 1917 – 1921. “O Estado czarista desprezava a língua, as tradições, os valores e a cultura dessas nacionalidades.”

Casal camponês no Daguestão, sudoeste da Rússia, em 1910 / Crédito: Reprodução

 

Enquanto camponeses e operários sofrem horrores com a combinação de formas capitalistas e pré-capitalistas de exploração, as idéias marxistas já fazem o caldeirão russo borbulhar.

Os primeiros partidos de orientação esquerdista, criados justamente por vanguardas não-russas, organizaram-se clandestinamente ainda na década de 1890 – entre eles o Bund, fundado por intelectuais judeus, e o Partido Social-Democrata da Polônia Russa.

Em Petrogrado, surge a União de Luta pela Classe Operária, uma entidade que reivindica melhores condições de trabalho. Em 1896, a cidade é chacoalhada por uma greve de 40 mil operários. A revolta dá resultados: eles conquistam um pequeno reajuste salarial e a redução da jornada para 12 horas.

Acuado, o czar Nicolau II começa a perseguir as organizações operárias. Mas já é tarde, a repressão não dará qualquer resultado. “A semente fora lançada e a repressão não conseguiria mais destruir o marxismo como tendência política”, afirma o professor da UFF.

Em 1898, nasce o Partido Operário Social-Democrata Russo. Entre seus integrantes, estão marxistas que, mais tarde, entrarão para a história como os grandes líderes da Revolução Russa de outubro de 1917. Um deles é o futuro ditador Josef Stálin. O mais combativo de todos, no entanto, atende pelo nome de Vladimir Ilitch Ulianov – mais conhecido pelo pseudônimo Lenin.

No mesmo ano da sua fundação, o partido acaba sendo desarticulado, com a prisão de suas principais lideranças. Ao deixarem o cárcere, a maioria segue para o exílio em diferentes países. Lenin vai morar na Alemanha, mesmo destino de Georgi Plekhanov, outro importante teórico do comunismo. Juntos, eles passam a publicar o jornal Iskra (A Centelha).

Esse nome não poderia ser mais apropriado: o periódico, enviado clandestinamente para a Rússia, foi criado para ser a fagulha inicial de uma imensa fogueira revolucionária.

Guerra e fome

Camponeses oprimidos, operários revoltados e oposição política engajada já seriam elementos mais que suficientes para desencadear uma revolução. Em fevereiro de 1904, contudo, outro ingrediente seria acrescentado ao caldeirão. O Império Russo entra em guerra com o Japão pelo controle de territórios no nordeste da China.

Na principal batalha do conflito, a de Tsushima, uma esquadra russa é massacrada no Estreito da Coréia. Os navios da Marinha japonesa eram menores, mas seu poder de fogo era superior ao das antigas e pesadas embarcações inimigas.

Resultado: dos 38 navios russos que entraram no estreito na manhã do dia 27 de maio de 1905, apenas nove saíram. Todos os outros foram a pique ou acabaram capturados. A armada de Nicolau II sofrera uma derrota humilhante, em que aproximadamente 4,3 mil marinheiros acabaram perdendo a vida.

Enquanto isso, em terra firme, cerca de 80 mil soldados russos mal equipados enfrentam mais de 270 mil japoneses bem treinados e motivados. Além das baixas em combate e das perdas materiais, a derrota significaria para a Rússia o aprofundamento da crise econômica, já que o Império vinha empregando boa parte de seus recursos na manutenção do conflito.

Alimentar tropas no front significava desviar a comida que deveria abastecer as cidades. Os preços de gêneros alimentícios básicos disparam. E o povo, já descontente com o regime czarista, revolta-se ainda mais contra o tirano.

Em janeiro de 1905, a situação parece insustentável. A Rússia deixou de ser um mero caldeirão borbulhante para tornar-se uma panela de pressão prestes a explodir. Operários e camponeses, agora um pouco mais organizados e conscientes, preparam-se para tomar as ruas, reivindicando melhores condições de vida.

A eles se juntarão soldados e marinheiros descontentes com a guerra. O ano será marcado por revoltas populares reprimidas pelo czar com extrema violência. Nas palavras de Lenin, aquele seria um ensaio geral para a grande revolução comunista de 1917.


Saiba mais

As Revoluções Russas e o Socialismo Soviético, Daniel Aarão Reis Filho, Unesp, 2003

A Revolução Russa, Maurício Tragtenberg, Unesp, 2007