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Paulo Freire: Quando a ditadura militar prendeu o Patrono da Educação Brasileira

Por seus métodos revolucionários e seu envolvimento com o governo Jango, Freire era considerado um subversivo pelo governo militar

André Nogueira Publicado em 29/10/2019, às 11h00 - Atualizado às 11h34

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Instituto Mosaico

Paulo Freire é reconhecido internacionalmente por seus métodos pedagógicos que visam a libertação e a autonomia popular, com um peso substancial do compromisso com o bem dos mais pobres e em nome da alfabetização de todos. Não a toa, o sucesso de Paulo Freire em suas experimentações na escola chegou ao interesse nacional, pois o então presidente, João Goulart, o chamou para organizar um Plano Nacional de Alfabetização.

O método de Freire era assustador àqueles que desejavam a submissão dos mais pobres, principalmente do campo, em benefício de uma classe letrada. A obra de Paulo Freire trazia pesos aparentemente contraditórios, mas de grande relevância na cabeça da direita conservadora: ao mesmo tempo em que é muito cristã, a obra de Freire é absolutamente influenciada pelo marxismo, principalmente pelo conceito de práxis de Lukács.

Por esse motivo, o atual Patrono da Educação era considerado um subversivo pelos militares que derrubaram Jango com um golpe militar. Considerado um doutrinador, apesar de sua obra ser acima de tudo antidoutrinária, Freire começou a ser visado pelas autoridades do regime iniciado no dia 1º de abril de 1964. Pressionado diversas vezes, Freire não acreditava que realmente pudesse ser preso.

Jango coloca Freire na organização do Plano Nacional / Crédito: Domínio Público

 

“Nego, pois, a veracidade das acusações assacadas contra o SEC, anteontem, ontem e hoje. Nego que o SEC […] exerça atividades subversivas ou contrárias ao regime democrático. Horroriza-me o assanhamento destas acusações”, relatou euforicamente à polícia.

No dia 1º de julho, ele prestou depoimento em Recife sobre as “atividades subversivas antes e durante o movimento de 1º de abril, assim como suas ligações com pessoas e grupos de agitadores nacionais e internacionais”, num inquérito chefiado por Hélio Ibiapina Lima, que o manteve na delegacia.

Um interrogatório deu sequência ao depoimento, e Paulo Freire foi questionado sobre sua área e sobre os autores com os quais sustentava suas teses, métodos e resultados no campo da pedagogia. Os temas foram diversos, mas o objetivo principal era o mesmo: mapear a ideologia e as posições do professor e entender seu nível de periculosidade.

Paulo Freire em depoimento / Crédito: Domínio Público

 

Depois de três dias preso na delegacia, Paulo foi solto – no dia 3 – mas, em pouco tempo, voltou a ser preso. Sem mandato ou explicações, foi encaminhado ao Quartel de Obuses, em Olinda. Foi enjaulado numa solitária no piso inferior, em condições insalubres. Ficou lá poucos dias, e logo depois foi transferido para a enfermaria, pois possuía curso superior.

Entre alguns outros presos, passou o tempo discutindo, jogando xadrez, palavras cruzadas e lendo. No total, somando a passagem na cadeia em Olinda e Recife, Paulo Freire ficou 60 dias preso. E mesmo depois de solto, não havia liberdade: ele era obrigado a comparecer regularmente à instalações do Exército para registrar suas últimas atividades. Um desses inquéritos o levou ao Rio de Janeiro, onde, contra a própria vontade, aceitou a recomendação de amigos e buscou exílio na embaixada da Bolívia.


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