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Lin Zhao: a ativista chinesa morta pelo regime comunista de Mao Zedong

Crítica ferrenha de Mao Zedong, ela foi morta pela campanha do ditador. Seus pais só descobriram quando tiveram que pagar pela bala utilizada na execução

Vinícius Buono Publicado em 10/09/2019, às 12h00

Lin Zhao
Lin Zhao - Reprodução

Nascida Peng Lingzhao, ela atingiu a fama sob seu pseudônimo, Lin Zhao. Inicialmente, era uma militante comunista contra a vigente República Chinesa, no entanto, se desiludiu com o movimento e se tornou uma dissidente.

Estudou no Departamento de Literatura da Universidade de Pequim e era uma das mais ferrenhas críticas da corrupção do governo comunista de Mao durante a época do Desabrochar de Cem Flores.

Esse, por sua vez, foi um movimento criado por Mao para incentivar a disseminação de ideias e ideologias diferentes (inclusive contrárias ao comunismo) para, através do debate, chegar ao progresso científico.

Muitos estudiosos posteriores colocam tal organização como uma farsa promovida pelo líder chinês para apenas mostrar aqueles que se opunham a ele, facilitando a perseguição e punição.

Foi o que aconteceu com Lin. Ela foi condenada a fazer trabalhos braçais para a faculdade como matar insetos, parte da Campanha das Quatro Pragas, um dos braços do Grande Salto Adiante, plano governista que pretendia tornar a China uma potência mundial em tempo recorde, falhando.

Em 1960, ela foi presa enquanto colaborava com outros dissidentes na criação de uma revista que criticava as políticas do Grande Salto, responsáveis pela morte de milhões de cidadãos chineses pela fome.

Condenada a 20 anos de prisão, Lin era constantemente espancada e torturada. Mesmo assim, ela continuava escrevendo coisas contrárias ao regime usando grampos de cabelo ou farpas de bambu como caneta e o seu próprio sangue como tinta. Cristã convertida, ela se apegou ainda mais a sua fé nesse período.

Após seis anos dessa rotina desumana, ela foi condenada à execução, considerada culpada de inúmeros hediondos crimes que variavam de ofensas ao Partido Comunista Chinês até a incitação de rebelião na cadeia.

Ela foi morta com um tiro em 1968. Para adicionar requintes de crueldade à uma história já triste, seus pais só souberam de sua morte quando um oficial do governo foi cobrar uma taxa de cinco centavos pela bala usada em sua execução.

Em 1981, já sob o governo de Deng Xiaoping, ela foi exonerada de seus crimes e reabilitada. Em 2004, o cineasta Hu Jie fez um documentário sobre ela, chamado, em tradução livre, À Procura da Alma de Lin Zhao.


Saiba mais sobre a triste saga de Lin Zhao no livro Blood Letters: The Untold Story of Lin Zhao, a Martyr in Mao's China, Lian Xi, 2018.