Matérias » Personagem

Quem foi Mao Zedong?

Neste dia, em 1976, morria o ditador comunista. Ele transformou o país em uma potência ou matou milhares dentro de seu próprio povo? Ou os dois?

Rodrigo Cavalcante Publicado em 09/09/2019, às 11h00

Mao Zedong
Mao Zedong - Reprodução

Comecemos por aqui: Zedong, não Tsé-Tung. Escolhemos essa grafia porque é mais oficial, a usada pelos chineses, o método de transliteração pinyin. O tradicional Tsé-Tung vem do Wade-Giles, criado no século 19 especificamente para a íngua inglesa - é pelo Wade-Giles que Beijing vira Pequim. Não é uma tradição que, julgamos, valha a pena manter. 

Uma pergunta parecida para a China contemporânea: será Mao uma tradição que valha a pena manter? Sua foto ainda adorna a entrada da Cidade Proibida, mas o país por ele fundado, uma difícil de explicar ditadura capitalista regida pelo Partido Comunista, pouco tem a ver com os experimentos radicais de seu fundador, que custaram a vida de milhões.

Claro, todo esse questionamento não ignora o fato de que, em História, não existem heróis e mocinhos contra os vilões maléficos; o importante aqui é fazer um balanço geral do papel social do líder chinês para avaliar a compatiblidade de sua ideologia com nossas visões políticas individuais e, ao mesmo tempo, entender a História de maneira mais aprofundada.

Nesses confusos anos contemporâneos, em que a China ultrapassou o legado de Mao em direção a uma singularidade histórica, fica a questão: qual face de Mao ficará para a história? A do homem que conseguiu reerguer um império? Ou a do genocida mais prolífico da História, responsável por três vezes mais mortos que Hitler ou Stalin?

Os 70%

Se depender dos chineses, tudo indica que ambas serão preservadas. "Desde 1979, eles parecem ter adotado uma fórmula própria para solucionar esse dilema", diz o americano Jonathan Spence, professor de História da Universidade de Yale e autor de mais de uma dezena de livros sobre a China, entre eles, a biografia Mao. "Ele teria acertado em 70% dos casos e errado em 30%, sendo a maioria dos erros cometidos após 1958." Antes disso, Mao já havia feito um milagre: transformou um país humilhado e em frangalhos em um império capaz de desafiar os Estados Unidos e ameaçar o posto da União Soviética como líder do socialismo internacional.

Mao, o mito chinês / Crédito: Reprodução

 

Em meados do século 19, o velho império chinês havia virado uma colcha de retalhos: era controlado no norte pelos alemães, no centro pelos britânicos e no sudoeste pelos franceses. Nada menos que 50 portos chineses estavam nas mãos de estrangeiros. Além disso, o vizinho Japão logo se tornaria uma ameaça: em 1894, aniquilaria a Marinha chinesa e ocuparia a Ilha de Formosa (ou Taiwan) e algumas regiões no sul da Manchúria.

Foi nessa China subjugada que Mao Zedong nasceu, em 1893, na aldeia camponesa de Shaoshan, ao sul do país. Aos 8 anos, a vida de Mao se resumia à escola primária e ao trabalho na pequena fazenda dos pais. Vivia confortavelmente, em meio à pobreza local. Aos 13, já adulto para os padrões da época, parou de estudar para trabalhar o dia inteiro na fazenda. Casou-se um ano depois, com a filha de um proprietário rural vizinho. Mas sua esposa adoeceu e morreu três anos depois.

Ninguém sabe até que ponto foi a viuvez precoce de Mao que o desviou do seu destino de proprietário rural. O certo é que, contrariando os planos do pai, ele retomou os estudos. Após ir a escolas das cidades vizinhas, onde teve contato pela primeira vez com os problemas da China, Mao partiu para Changsha, capital da província. Lá, se converteu à causa dos revolucionários do líder Sun Yat-sen. Mao, porém, nem teve tempo de colocar a mão na massa: a dinastia Qing, que controlava o país havia mais de 250 anos, foi derrubada por um motim de oficiais em 1911. Pu-Yi, o último imperador chinês, deixou o trono aos 5 anos de idade, em fevereiro de 1912.

Jovem idealista

A república que ocupou o lugar dos imperadores não conseguiu livrar o país do caos. Sem nenhum interesse em ver a China modernizada, Inglaterra, França, Japão e Rússia emprestaram dinheiro ao general Yuan-Shikai, que tomou o poder com a ambição de restabelecer um sistema imperial no país. Após a morte do general, em 1916, as províncias passaram a ser dominadas por senhores de terra despóticos e suas milícias privadas, que preservavam o poder na base da intimidação, tortura e assassinato.

Mao presenciou em sua província soldados cortando a língua e arrancando os olhos de camponeses. Segundo seus biógrafos, essas cenas teriam feito com que ele, desde cedo, se convencesse de que seria ingênuo lutar pelo poder sem o uso da violência.

O cenário externo também não ajudava. Quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim, em 1918, o Japão, que estava do lado dos aliados, tomou para si territórios chineses que eram controlados pela Alemanha. Além disso, adquiriu o direito de se intrometer nas políticas econômica e externa da China. Nessa época, o jovem Mao trabalhava na biblioteca da Universidade de Pequim, onde começou a ter contato com o marxismo e com os membros do nascente Partido Comunista Chinês.

Logo após Mao entrar no partido, os chineses foram orientados pelo Partido Comunista Soviético (que chegara ao poder com a Revolução Russa de 1917) a concentrar esforços junto aos trabalhadores urbanos. Por ter vivido a maior parte de sua vida em uma província rural, Mao não concordava com essa estratégia. Ele desconfiava das alas mais intelectualizadas do partido e preferia, desde o início, trabalhar para fortalecer as organizações rurais. Outra decisão do PC Soviético era de que eles deveriam se unir ao velho Partido Nacionalista de Sun Yat-sen, já que ele era a única organização com chances reais de tomar o poder e reunificar a China.

Mao: Salvador da pátria ou maior assassino em massa da história? / Crédito: Wikimedia Commons

 

Inicialmente, o casamento deu certo. Juntas, forças revolucionárias dos dois partidos chegaram a conquistar várias cidades chinesas. Mas quando Chiang Kai-shek se tornou o líder dos nacionalistas, após a morte de Sun Yat-sen, em 1925, o crescente poder dos comunistas passou a ser visto como uma ameaça.

Em 1927, Kai-shek detonou uma campanha de extermínio dos antigos aliados, prendendo e executando milhares deles. Em cidades como Xangai, o Partido Comunista praticamente foi varrido. O esmagamento dos operários só reforçou em Mao a convicção de que seu partido precisava dar mais atenção aos assuntos militares - é dessa época sua célebre frase de que "o poder político nasce do fuzil".

Perseguido pelo governo, Mao organizou uma guerrilha de resistência nas montanhas do sudeste do país, onde ajudou a fundar uma base de resistência que ficaria conhecida como Soviete de Jiangxi. A seguir, ele organizou um exército e reprimiu com violência qualquer foco de rebeldia - e se viu cada vez mais indisposto com as orientações de Moscou, que insistia que a base de atividades dos comunistas se concentrasse nas cidades costeiras, não no interior.

Longo caminho

Em 1931, os japoneses ocuparam várias partes da China. Mas o governo de Kai-shek parecia mais preocupado em exterminar os comunistas do que em resistir ao invasor. Isso ficou evidente quando, em 1934, o Exército cercou o Soviete de Jiangxi. Sem opção, o Partido Comunista ordenou que as lideranças deixassem a base. Mao conseguiu fugir com seus seguidores, dando início a uma épica escapada. A Longa Marcha, como ficaria conhecida, durou 12 meses e deslocou milhares de chineses numa jornada de quase 10 mil quilômetros cruzando 18 montanhas, 24 rios e muitos trechos do deserto chinês.

Dos cerca de 100 mil que partiram, perto de 8 mil sobreviventes chegaram a Yanan, no norte do país, onde fundaram um governo comunista. Enquanto o Estado oficial tinha o apoio da classe média urbana e de ricos chineses exilados, os revolucionários conquistaram as massas, tornando-se a maior força militar do país.

Sem condições de expulsar os japoneses, o governo resolveu pedir o apoio dos comunistas, que aceitaram a trégua. Com a derrota na Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão se viu obrigado a deixar a China. Isso pôs fim à aliança entre comunistas e nacionalistas e deu lugar a uma guerra civil. Kai-shek recebeu apoio americano, mas foi derrotado e fugiu com seus seguidores para Formosa.

A essa altura, Mao já era uma lenda no país. Afinal, ele havia acertado na tese de que a revolução chinesa teria uma base camponesa e se tornara líder incontestável do partido. Quando os comunistas fundam a República Popular da China, em primeiro de outubro de 1949, ninguém tinha dúvidas de quem seria seu primeiro presidente.

A situação da China era catastrófica quando Mao assumiu o poder. Arrasada após décadas de guerras, a economia estava em pedaços. Não havia moeda unificada, a inflação havia saído do controle e as redes de comunicação estavam destruídas. Dois meses depois de criado o novo governo, Mao parte para Moscou para pedir o equivalente a 300 milhões de dólares em crédito - além de ajuda direta em infra-estrutura. Stálin, o líder soviético, concordou com quase todos os pedidos de Mao - a não ser o desejo de conquistar apoio militar soviético para invadir a ilha de Formosa e expulsar de lá Chiang Kai-shek.

O líder perante a multidão / Crédito: Wikimedia Commons

 

Num prazo muito curto, Mao consegue reerguer a economia. Entre 1949 e 1956, os camponeses elevam sua produção de grãos em mais de 70%. Mas um programa de industrialização megalomaníaco logo provocaria uma das maiores catástrofes humanitárias do século 20. Tudo começou quando, em 1958, Mao decidiu que era hora de transformar a China numa potência industrial capaz de superar países como a Inglaterra e a própria União Soviética - cuja relação com a China havia se deteriorado desde que Nikita Kruschev chegara ao poder (Mao, apesar de independente, se entendia bem com Stálin).

Diante de uma população gigante e disciplinada e da certeza de que ninguém ousaria questioná-lo, Mao lançou o Grande Salto À Frente, obrigando milhões de chineses a abandonarem suas pequenas plantações de subsistência para trabalharem sem folga em fazendas coletivas e indústrias do Estado. Mas a utopia econômica maoista, que incluía projetos para a produção de aço em miniusinas de quintal, teve um final trágico. Como diz o historiador Eric Hobsbawm no livro A Era dos Extremos, o Grande Salto terminou produzindo a Grande Fome de 1959-61, provavelmente a maior do século 20.

Pesquisadores estimam que 30 milhões de pessoas morreram em consequência do delirante projeto. Mao reconheceu tarde demais os erros do plano, e a China acabou tendo que importar grãos do Canadá.

Linha dura pop

Em 1959, Mao foi substituído por Liu Shaoqi na presidência da China. Mesmo assim, manteve o controle do Partido Comunista - e continuou sendo a pessoa mais poderosa do país. Mas, em meados dos anos 60, o partido começa a sofrer uma divisão interna, com membros questionando a eficácia das políticas de Mao. Sob influência do revisionismo soviético contra a figura de Stálin, o culto à personalidade do líder chinês começa a sofrer críticas.

É então que Mao lança um contra-ataque inesperado, que mergulha a China num período de violência. Com mais de 70 anos, ele se alia aos jovens para enfrentar os burocratas e o revisionismo burguês que, segundo ele, havia contaminado o partido. Milhões de jovens seguem seu apelo e dão início à chamada Revolução Cultural, cujo principal objetivo seria manter vivo o espírito revolucionário. Na prática, a Revolução Cultural se tornou uma espécie de inquisição comunista a todos os suspeitos de adotarem hábitos burgueses, o que levou milhares de pessoas à morte.

A pior matança de todos os tempos

Os números impressionam. Segundo o Centro de Estudos para o Holocausto e Genocídio da Universidade de Clark, nos Estados Unidos, o regime de Mao Zedong causou a morte de 30 milhões de pessoas. Essa é basicamente a estimativa mais modesta: em Mao: A História Desconhecida, a historiadora Jung Chang estimou em 70 milhões o número de vidas perdidas.

Isso supera os 66 milhões da Segunda Guerra. Mao, assim, por esses números, o maior assassino em massa de toda a História. Ainda que alguns historiadores considerem polêmico incluir como assassinato em massa as mortes por fome e não intencionais do desastroso Grande Salto À Frente.

Após a tomada do poder pelos comunistas, houve pelo menos três momentos de grande violência. O primeiro foi logo após a vitória da revolução, entre 1950 e 51, para eliminar a oposição. O segundo foi durante a repressão aos anseios de autonomia do Tibet, em 1959. O último (e mais traumático) foi durante a chamada Revolução Cultural, entre 1966 e 1975. Nesse período, Mao conclamou milhares de estudantes, os chamados Guardas Vermelhos, a destruir os velhos costumes e hábitos da China.

Na prática, qualquer suspeito de viver de modo não comunista (o que incluía usar cortes de cabelo ocidentais ou ler livros ditos burgueses) estava sujeito a ser perseguido. Milhares de artistas e intelectuais foram forçados ao trabalho manual para serem reeducados.

A esposa de Mao na época, Chiang Ching, participou da repressão criando um núcleo contra movimentos culturais revisionistas burgueses. Estima-se que cerca de 700 mil chineses tenham sido perseguidos e 35 mil assassinados durante a Revolução Cultural, sem contar aí os milhares que cometeram suicídio por não suportar a humilhação a que foram submetidos.

Na época, sua aliança com a juventude parecia trazer um sopro de renovação à esquerda mundial, cada vez mais cansada da fisionomia carrancuda do comunismo soviético. A imagem de Mao conquistou espaço nos pôsteres empunhados por estudantes na revolta de maio de 1968, emspan> tornou-se um manual não só para os jovens chineses, como para "revolucionários" de todas as partes do mundo.

Crédito: Wikimedia Commons

 

No início dos anos 70, de novo com as rédeas do poder nas mãos, Mao abala o equilíbrio de forças da Guerra Fria e realiza uma inesperada aproximação com os Estados Unidos. Em 1960, a China havia cortado relações com Moscou, pois o governo soviético tratava o país como uma ameaça à sua supremacia no mundo comunista - e não como um aliado.

Os chineses não podiam aceitar, por exemplo, que Moscou se recusasse a apoiar os projetos nucleares chineses - enquanto emprestava dinheiro para que a Índia, com quem a China havia tido conflitos de fronteira, pudesse desenvolver armas nucleares. Em fevereiro de 1972, Mao Zedong recebe em Pequim Richard Nixon, o primeiro presidente americano a visitar a China.

Foi uma das últimas manobras internacionais de Mao (que ia de encontro aos velhos ataques ao imperialismo americano). Nesse período, ele também deu outro passo decisivo para o futuro da China, ao permitir que Deng Xiaoping, um dos líderes do partido que havia sido expulso durante a Revolução Cultural, pudesse voltar ao poder. Até então, ninguém poderia imaginar que Xiaoping seria o sucessor de Mao.

Em junho de 1976, Mao disse aos dirigentes do partido que sabia de sua morte iminente. Afirmou a seguir que havia feito duas coisas que de fato contavam: expulsara Chiang Kai-shek para a ilhazinha de Formosa e havia "pedido aos japoneses que voltassem para a sua terra ancestral", numa alusão à expulsão deles após a Segunda Guerra. No dia 9 de setembro daquele ano, Mao morreu de ataque cardíaco. Seus últimos atos prepararam o terreno para que a China desse o seu verdadeiro grande salto, ao abrir seu mercado para o mundo.