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Napoleão Bonaparte: de general a imperador

Excepcional estrategista, o imperador também sabia como se autopromover — escrevia inflamados textos sobre suas vitórias e contratava artistas para retratá-lo como herói

Cristiano Dias Publicado em 15/08/2019, às 08h00

Napoleão Bonaparte foi retratado de inúmeras maneiras
Napoleão Bonaparte foi retratado de inúmeras maneiras - Getty Images

Tudo o que for ruim a gente esconde. Era essa a linha dos comunicados de guerra que Napoleão enviava do front de batalha para Paris. Antes mesmo de ser declarado imperador, em 18 de maio de 1804, Napoleão escrevia por meio de um estilo literário envolvente, narrando suas batalhas como se fosse um novelista — era capaz de transformar uma derrota em vitória.

Conscientemente, ele se tornou soberano em matéria de autopromoção e descobriu muito cedo que a informação era a alma do negócio — e não com textos. Cuidava da imagem e chamava artistas de renome para retratá-lo. Além de um sublime estrategista, ele foi um excepcional marqueteiro.

"Outras figuras históricas também souberam manipular diferentes tipos de mídia. Luís XIV, por exemplo, empregou pintores e jornalistas para se promover, mas Napoleão foi o primeiro na história moderna a perceber o poder ilimitado da propaganda. Ele dominou todos os meios de comunicação que teve à disposição", diz Wayne Hanley, autor de The Genesis of Napoleonic Propaganda (sem tradução para o português).

Hanley lembra que, em apenas três anos, de 1796 a 1799, Napoleão se transformou de um obscuro general em cônsul da república. "Apesar das vitórias militares e diplomáticas, ele jamais teria uma ascensão tão meteórica se não fosse a habilidade para se autopromover, com poemas, moedas comemorativas, artigos em jornais parisienses, censura da imprensa, confisco de obras de arte e, principalmente, uma cuidadosa construção da imbatível imagem de um estadista que não descansa nunca, elaborada pelos melhores pintores da época", diz o historiador americano.

O hábito de usar artistas para dar um trato em sua imagem começou em 1796, quando foi a Milão pela primeira vez. A capital da Lombardia, com seus palácios abarrotados de obras de arte, deixou o general corso de boca aberta. Os artistas, a música e os grandes mestres passaram a exercer influência sobre ele.

Foi assim que Bonaparte emendou uma série de amizades com pintores e gravuristas. Não demorou muito para que Napoleão percebesse como a arte poderia ser utilizada para moldar sua imagem. "O contato com o mundo artístico o incentivou a procurar a arte para fins políticos", conta Hanley.

Em Milão, Napoleão conheceu Andrea Appiani, famoso pintor de afrescos. Atendendo ao pedido de Bonaparte, Appiani pintou o primeiro retrato do general triunfante. O quadro inflou seu ego e Appiani produziria quadros oficialescos até o fim do regime.

Sua veia marqueteira tinha traços de ousadia, e Bonaparte também colocou suas fichas em algumas promessas, como o jovem pintor Antoine-Jean Gros. Ele se tornou um dos maiores retratistas de Napoleão.

Seu primeiro grande trabalho foi General Bonaparte na Ponte de Arcole, que mostra o jovem general com os cabelos desarrumados, posando como o herói que conclama a soldadesca com a espada na mão. A ponte de Arcole nunca chegou a ser atravessada. Mas é só um detalhe.

Bonaparte gostou tanto que encheu Gros de dinheiro e encomendou mais retratos. Entre os trabalhos seguintes estaria Bonaparte Visitando as Vítimas da Peste de Jaffa, exemplo de como a arte serviu à propaganda.

O quadro tentava acabar com os rumores de que o general envenenara os soldados franceses, vítimas da peste nos combates na Síria. Bastou Gros colocá-lo tocando as vítimas, e pronto. Quem poderia acusar Napoleão de não ser magnânimo?

De todos os pintores oficiais de Bonaparte, ninguém entendeu melhor o que o chefe queria do que o francês Jacques-Louis David. Desde o primeiro encontro dos dois, em 1797, Napoleão fez de tudo para cooptar o mestre. Dinheiro e prestígio não faltaram para que David pintasse três dos mais famosos quadros do imperador.

Bonaparte Visitando as Vítimas da Peste de Jaffa / Crédito: Reprodução

 

Primeiro, O Primeiro Cônsul Cruzando os Alpes no Passo de Grand-Saint-Bernard, obra que abre a reportagem. Essa pintura é talvez a mais famosa de Napoleão, que aparece montado em um cavalo empinado. A composição é perfeita para demonstrar a ascensão heroica de um mito. Só que a realidade foi mais trivial. Napoleão cruzou triunfalmente o passo, mas montado em um burro e vestindo um casaco verde surrado.

Outro trabalho de David foi a célebre Coroação de Napoleão I, tela de 6 m de altura por 10 m de comprimento. Nela, é retratado o momento maior do bonapartismo: a coroação do imperador. O quadro mostra, na verdade, a coroação de Josephine, que recebe a coroa das mãos de Napoleão, vigiado pelo olhar submisso do papa Pio VII: um césar capaz de subjugar até o papa.

David completa a manipulação da imagem com o quadro Napoleão em Seu Estúdio no Palácio das Tulherias. Ele veste trajes civis, com a clássica mão dentro da jaqueta. Detalhes fundamentais: as velas apagadas, o relógio marcando 4 horas da manhã e a caneta e o papel na escrivaninha — ou seja, o imperador passou a noite redigindo o Código Civil. A mensagem: além de militar de sucesso, é administrador que não descansa.

De fato, não foi só essa forcinha dada por um punhado de pintores que fez do corso o homem mais poderoso da Europa. Outros componentes contribuíram. A ajuda mais importante foi o extraordinário crescimento da imprensa parisiense e como ela foi manipulada pelo general.

Durante o período napoleônico, Paris, então com 600 mil habitantes, tinha mais de 500 jornais. Ao menos 30 circularam por mais de dois anos. Os jornais acompanhavam as notícias do front, publicando os despachos enviados por Bonaparte. Ele era alçado à condição de astro.

Napoleão em Seu Estúdio no Palácio das Tulherias / Crédito: Wikimedia Commons

 

A popularidade de Napoleão também foi sustentada pela quantidade de obras de arte confiscadas em batalha. Para o historiador alemão Wilhelm Treue, a conta é simples. Quanto mais Bonaparte enchia o Louvre com quadros esculturas, mais popular ele ficava. "Eras vantajoso expor as peças que demonstravam a superioridade da França republicana", diz Treue.

Entre 1796 e 1797, mais de 200 quadros foram levados da Itália para a França, incluindo obras-primas de Rafael e Leonardo Da Vinci. Napoleão às vezes condicionava a suspensão de um combate à entrega de objetos de arte. O duque de Parma teve de contribuir com 20 quadros. O papa Pio VI, com mais de 100.

Por alguns anos, a Itália deixou de ser a Itália porque quase tudo estava em Paris. As jogadas do imperador, no fim, tornaram o Louvre um dos mais importantes museus do mundo.