Matérias » Personagem

Boadicea, a avassaladora vingança da rainha celta

Após ser chicoteada e ver suas filhas estupradas por legionários, a rainha liderou seu povo num terrível ataque contra os romanos no século 1

Bárbara Axt Publicado em 08/12/2019, às 07h00

Boadicea, a rainha celta
Boadicea, a rainha celta - Getty Images

O ano era 60 ou 61. Apenas 17 anos antes os romanos tinham chegado à Grã- Bretanha, ocupando um território povoado por tribos celtas. Eles ocupavam as aldeias existentes e permitiam que seus líderes permanecessem no poder, desde que aceitassem Nero como imperador e pagassem impostos. Era esse o caso da tribo dos icenos.

Os icenos viviam no noroeste da ilha (hoje perto da cidade de Norfolk). Seu rei, Prasutagos, temia pelo futuro da família após sua morte e em testamento propôs uma solução conciliatória: metade do reino ficaria para sua mulher, Boadicea, e as duas filhas. A outra metade seria de Roma. Mas os conquistadores romanos resolveram ficar com o reino todo. Diante da resistência dos icenos, invadiram a aldeia, açoitaram a rainha e estupraram suas duas filhas, de 10 e 12 anos.

A rainha Boadiceia / Crédito: Getty Images

 

Boadicea, humilhada, se uniu com as tribos vizinhas, também insatisfeitas com o domínio romano, e logo um exército de 100 mil bretões estava marchando em direção à capital da Britânia, Camulodunum (hoje Colchester). "Os bretões passaram a ser cidadãos de segunda classe em seu próprio país. Roma controlava seu dinheiro, terras, armas e liberdade," afirma o historiador Dan Snow, no documentário Battlefield Britain (Campo de Batalha Britânico), da BBC.

Boadicea era apenas a rainha de uma tribo celta em um canto da Grã-Bretanha. Mas – após a morte de seu marido e de ver sua tribo ser invadida, suas terras tomadas e testemunhar o estupro de suas filhas – ela entrou para a história.

A rainha celta / Crédito: Getty Images

 

Liderou a maior revolta contra os romanos em 400 anos de domínio da Britânia. A rainha furiosa colocou abaixo 3 das mais importantes cidades da ilha, incluindo Londres, e massacrou 70 mil romanos. Ainda fez o imperador Nero considerar a possibilidade de recolher as tropas e desistir da região.

"Boadicea era alta, terrível de olhar. Uma cascata de cabelos vermelhos alcançava seus joelhos", escreveu o historiador romano Dion Cássio. "Usava um colar dourado composto de ornamentos, uma veste multicolorida e um casaco grosso preso por um broche. Carregava uma lança comprida para assustar todos que olhassem para ela."

Invasão

Os revoltosos começaram com uma invasão de uma cidade completamente despreparada, sem muros ou aparatos de proteção, colocando fogo nas casas e matando quem estivesse no caminho em Camulodunum. Parte da população correu para se abrigar na principal construção da cidade, um gigantesco e imponente templo em homenagem ao antigo imperador Cláudio.

Apesar de não terem armas sofisticadas, os celtas contavam com uma vantagem militar - as bigas de guerra, pequenas carroças ocupadas por um dupla de guerreiro e cavaleiro. Os romanos só usavam bigas em eventos esportivos, nunca em combate.

Uma intervenção das tropas romanas era a única esperança para os habitantes da capital, mas o governador da Britânia, Gaio Suetônio Paulino, estava com metade do exército do outro lado do país, em Anglesey, o centro dos druidas, massacrando os sacerdotes celtas. Enquanto Paulino colocava abaixo um pilar da sociedade celta, os romanos sofriam, dentro de seu templo principal, a vingança dos bretões.

O restante das tropas romanas se dividia em duas legiões, com 5 mil homens cada, mas apenas uma delas estava perto o suficiente para socorrer a cidade. Mas no caminho, foi interceptada pelo exército de Bodicea e massacrada também. Depois de dois dias de cerco ao templo, a rainha decidiu incendiar a construção e queimar vivos todos os que estavam lá dentro. Depois do ataque, não sobrou nada da então grandiosa capital.

Londres em chamas

Os revoltosos se dirigiram então para o principal centro comercial da Britânia: Londinium, hoje Londres. Seguindo na mesma direção estava o governador Paulino, com sua cavalaria, enquanto a infantaria vinha bem atrás, marchando. Ao ver o tamanho do exército celta (agora ainda maior, já que Boadicea arregimentou novos voluntários pelas tribos do caminho), o governador decidiu largar Londres à própria sorte e foi encontrar as tropas e pensar numa estratégia para derrotar a rebelião.

O fogo consumindo Londres / Crédito: Getty Images



Boadicea não teve qualquer dificuldade para queimar Londres inteira, trucidar a população e partir dali para Verulamium, no noroeste, hoje uma aprazível cidade conhecida por St Albans, destruída pelos celtas da sua maneira habitual.

"Nas cidades pelas quais Boadicea passou, escavações encontraram grossas camadas de cinzas, datadas de 60 ou 61", diz Richard Hingley, professor de arqueologia da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha. "Em Londres essa camada tem meio metro de espessura." Enquanto isso, nem todas as tropas haviam conseguido encontrar o governador Paulino. Ele só contava com 10 mil homens para enfrentar 230 mil revoltosos.

Boadicea seguia sua marcha e os romanos se posicionaram no caminho para esperar a chegada dos celtas para a batalha final. Apesar de estarem em desvantagem numérica, os romanos tinham a seu favor armamentos melhores, além de disciplina e estratégia militar superiores.

Fúria no olhar: A estátua de Boadicea em Londres / Crédito: Getty Images

 

O embate ficou conhecido como Batalha de Watling Street. O que se sabe é que os soldados romanos derrotaram os celtas. Depois de dar cabo dos guerreiros, massacraram suas famílias, já que todos viajavam juntos. Acredita-se que Boadicea e suas filhas, para não serem aprisionadas, se suicidaram tomando veneno.

Hoje, o turista que visita Londres pode ver uma grande estátua de Boadicea, ao lado do Big Ben. Poucos, porém, sabem que a moça, montada numa biga e com sangue nos olhos, foi responsável por queimar Londres e chegou perto de fazer Nero desistir da Grã-Bretanha. "A rebelião foi um momento crucial do império romano. Havia um risco real de outras regiões seguirem o exemplo de Boadicea", diz Miranda Aldhouse-Green, professora da Universidade de Cardiff.


+ Saiba mais sobre o tema através das obras abaixo

A Rede de Alice,  Kate Quinn (2019)

link - https://amzn.to/2QGmqbu

Joana d’Arc: A surpreendente história da heroína que comandou o exército francês, Helen Castor (2018)

link - https://amzn.to/2KTYpdi

Warrior Queens: Boadicea's Chariot (WOMEN IN HISTORY) (English Edition), Antonia Fraser (e-book)

link - https://amzn.to/33mvCEC

Lady Death: The True Story of Russian Sniper Lyudmila Pavlichenko (English Edition), Steve Valiant (e-book)

link - https://amzn.to/2QQFlkb

Lady Death: The Memoirs of Stalin's Sniper (Greenhill Sniper Library) (English Edition), Lyudmila Pavlichenko, Martin Pegler (e-book)

link - https://amzn.to/2OINDI3

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, assinantes Amazon Prime recebem os produtos com mais rapidez e frete grátis, e a revista Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.