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Há exatos 75 anos, Erwin Rommel era forçado a cometer suicídio

O Raposa do Deserto criou um mito mesmo entre seus inimigos - e morreu acusado de tentar matar Hitler

Danila Moura Publicado em 14/10/2019, às 09h41

A Raposa do Deserto deu trabalho aos aliados, mas sua principal ação foi tentar explodir o galinheiro nazista
A Raposa do Deserto deu trabalho aos aliados, mas sua principal ação foi tentar explodir o galinheiro nazista - Wikimedia Commons

"O senhor é muito rápido para nós”, disse o general francês logo após se render ao comandante inimigo. A frase soaria frágil e covarde, não fosse dirigida a um dos mais astutos e míticos personagens da guerra. Erwin Rommel figura ao lado de Patton e Zhukov como os maiores estrategistas da Segunda Guerra Mundial.

Com suas tropas, conseguiu avançar cerca de 240 quilômetros em apenas 24 horas, feito que nenhum outro foi capaz de produzir naqueles tempos. Logo ganhou o apelido de “A Raposa do Deserto”, após, mesmo se a contragosto, fortalecer as combalidas tropas italianas no norte da  e fazer as avançadas tropas britânicas recuarem no front africano.

Filho de um professor universitário com uma jovem de ascendência nobre, Rommel nasceu em 1891 na cidade de Heidenheim. Desde a infância, mostrava gosto por aviões e planadores, mas acabou ingressando aos 18 anos no 124º Regimento de Infantaria de Württemberg.

Durante a Primeira Guerra ele ganharia a maior condecoração a oficiais concedida pelo governo alemão, após seus 150 comandados renderem 9 mil soldados e 80 na Batalha de Carporetto, Itália. 

Em 1929, Rommel escreveu seu primeiro livro, Ataques de Infantaria, no qual compilou parte de suas idéias e técnicas de estratégia. A obra foi lida por mais de 400 mil alemães - inclusive Adolf Hitler, um admirador nominal que não parece ter aprendido muito com ela. 

Era como um herói nacional consumado que Rommel entrou na Segunda Guerra, sob o comando da 7ª Divisão Panzer, em 1940. Ele foi um dos primeiros a ultrapassar a Linha Maginot - cruzando-a por seu ponto fraco, na fronteira com a Bélgica. Mais que ninguém, Rommel fez valer o nome Blitzkrieg (guerra-relâmpago) os 240 km cruzados em um único dia por suas tropas blindadas rendeu a seus homens a fama de "Divisão Fantasma".

AfrikaKorps

Confiando na Linha Maginot, uma ideia defensiva pensada para a guerra anterior, a França acabou se mostrando um passeio no parque. Mas o Eixo tinha também seu ponto fraco. Outro megalomaníaco com um exército bem menos competente que Hitler: Benito Mussolini. Rommel seria "emprestado" para ele. 

Os Afrika Korps surgiram em fevereiro de 1941. Sua missão era auxiliar as frágeis frentes italianas no norte da África, que padeciam com armamento escasso. Mas a tarefa não seria simples. Com curto raio de ação, os canhões da divisão datavam de 1914 e estavam completamente obsoletos. A situação de outras armas não era muito diferente.

Metralhadoras e veículos de defesa pouco podiam fazer diante do poder de fogo dos aliados. Para piorar, grande parte do exército italiano era constituída por infantaria não-motorizada, adequada para posições defensivas, mas de valor nulo nos embates no deserto.

Rommel tinha um plano: ele mandou seus mecânicos reformarem vários carros Fiat abandonados, cobrindo-os com telas e falsos canhões de madeira. Batizados de Pappedivision, (divisão de papel), os veículos cerraram fileiras junto aos Panzers verdadeiros, compondo frentes que se estendiam por até 1,5 quilômetro. O plano funcionou. Os inimigos recuavam só de vê-los se aproximando. A reconquista da Cirenaica foi rápida e implacável.

Rommel também se aproveitava dos erros do inimigo. Em suas palavras, o maior vacilo dos aliados era o uso de "técnicas metódicas de comando, a sistemática emissão de ordens até os mais ínfimos pormenores, deixando pouca iniciativa ao comando subalterno, e o seu fraco poder de adaptação ante uma mudança no decorrer da batalha".

Maleabilidade no comando é essencial para embates no deserto, dizia ele. Nesse tipo de terreno, onde uma ventania é capaz de mudar a configuração de uma tropa por causa da falta de abrigo, os planos têm de ser alterados a qualquer momento.

Várias vezes a falta de obstáculos terrestres deixou o caminho livre para Rommel aplicar as práticas de guerra entre tanques, até então inovadoras. Ele as usou com maestria e criou novas táticas, deixando os britânicos sem reação.

Ataque ao galinheiro nazista

Apesar da liberdade de que Rommel gozava, suas rusgas com o comando nazista eram constantes. Rommel não partilhava da ideologia nazista, apesar de respeitar Hitler como o líder do país. Mas a relação entre os dois degringolou no início de 1943, quando o Führer cortou o suporte para as forças dos Afrika Korps.

Os recursos escassearam, e a paciência de Rommel também. Se os suprimentos não viessem, teria de se retirar. Hitler e o marechal Hermann Goering, seu principal desafeto no exército. O braço-direito do Führer acusava o general de desanimado e doentio, pois achava inconcebível um comandante do Exército Alemão propor um recuo.

Em novembro de 1943, após a retirada dos Afrika Korps para a Tunísia (a contragosto de Hitler e Goering), Rommel foi deslocado para supervisionar as defesas que restaram na Dinamarca, Bélgica, Países Baixos e França. No ano seguinte, foi cuidar da Muralha do Atlântico, região que os alemães acreditavam ser forte o suficiente para segurar o avanço dos aliados.

Aumentou as fortificações, instalando bunkers, postos e cerca de 6 milhões de minas. Enquanto o comando do Exército caiu num ardil aliado para fazê-los acreditar que o ataque seria por Calais, Rommel suspeitava que viria pela Normandia, centenas de quilômetros ao sul. Fato confirmado em 6 junho de 1944, o Dia D.

A Alemanha já sendo arrasada pelos soviéticos no Front Oriental. A abertura de um segundo front acabou com a confiança de uma parte considerável do comando militar alemão - particularmente, os que não tinham uma ligação ideológica com o nazismo. Para eles, a guerra era uma causa perdida e a resistência imposta por Hitler e Goering era fútil, um desperdício de milhões de vidas alemãs.

Essa era uma opinião partilhada por Rommel e o jovem coronel Claus von Stauffenberg - um nobre de nascença, como ele. O coronel queria assassinar Hitler e render-se aos aliados. Stauffenberg trouxe vários militares profissionais para sua conspiração. Rommel foi contactado, mas ele tinha uma restrição: preferia ver Hitler preso a morto, pois achava que seu assassinato causaria uma guerra civil. 

Três dias antes do ataque, a tenda de Rommel foi atacada num rasante por um caça aliado. Ele estaria hospitalizado em estado grave quando, em 20 de julho, uma bomba explodiu no escritório de Hitler, a menos de um metro dele, ao pé de sua mesa. Por um sério erro tático, ele sobreviveu com ferimentos leves. 

Em outubro de 1944, Rommel voltou para sua casa em Herrlingen. Sua casa estava sendo vigiada pela Gestapo - o nome de Rommel surgiu nas confissões sob tortura dos envolvidos no atentado. 

Na manhã do dia 14, vestindo sua farda cáqui dos Afrika Korps, ingeriu uma cápsula de cianureto.  Hitler sabia que executar seus mítico general, figura central na propaganda nazista até então, teria sérias consequências no moral do Exército e do povo. Então ele ofereceu a Rommel uma solução ao estilo samurai: um suicídio honroso. Rommel aceitou não porque estivesse preocupado em mancharem seu nome, mas pelas consequências contra sua família.

Rommel nunca foi acusado de crimes de guerra, tortura ou maus-tratos. Cortava a água de suas tropas no deserto, mas não deixava seus prisioneiros morrerem de sede. Seu envolvimento - ou, no mínimo, omissão em denunciar - a conspiração para exterminar Hitler só aumentou a admiração de seus inimigos. Era um nobre demônio, lutando do lado errado - e parece ter notado isso ao final da vida.  


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