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Sepultura 312: um dos maiores segredos da ditadura militar brasileira

Em circunstâncias parecidas com as de Vladimir Herzog, a versão oficial da morte de Milton Soares de Castro aponta enforcamento. No entanto, o caso contém inúmeras contradições

Isabela Barreiros Publicado em 04/12/2019, às 10h13

A cova onde encontra-se o corpo de Milton Soares de Castro
A cova onde encontra-se o corpo de Milton Soares de Castro - Henrique Viard/Divulgação

Na Serra do Caparaó, divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, acontecia a primeira guerrilha armada contra a ditadura militar instaurada no Brasil. Em 1967, organizado pelo Movimento Nacional Revolucionário, o grupo de guerrilheiros era formado quase que por completo por militares cassados do Exército brasileiro que se rebelaram contra o golpe — exceto por um deles.

Milton Soares de Castro foi o único civil a participar da organização. Nascido em uma família simples de Santa Maria, Rio Grande do Sul, era operário metalúrgico na cidade até decidir se juntar à luta armada propagada pelo MNV. Por meio de encontros da organização, Castro entrou em contato com os ideais de Karl Marx e Friedrich Engels e os aderiu.

Doze homens foram até a Serra com o intuito, principalmente, de mapeá-la para posteriores operações. No local, outros combatentes também seriam organizados e treinados para atuar em conflitos contra os militares que governavam o país na época, sendo deslocados logo após capacitação dada pelos militantes.

Crédito: Memórias da Ditadura

 

Mas isso não durou muito tempo. Em 1º de abril de 1967, a Polícia do Exército descobriu o local em que eles estavam acampados e ordenou a prisão de todos. Todos foram levados, então, à Penitenciária Estadual de Linhares, localizada em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais.

De acordo com depoimentos outros presos no local, Castro teve uma acalorada e violenta discussão com o major Ralph Grunewald Filho na penitenciária. O envolvimento ríspido com um militar durante a própria ditadura lhe custaria, mais tarde, a sua vida.

Na noite do dia 27 de abril daquele ano, o militante foi chamado para depor sobre seu envolvimento com o caso. Dentro da sala, teria assinado um documento de duas páginas. Depois disso, foi enviado a uma cela isolada, onde não poderiam vê-lo. Na manhã seguinte, no mesmo cubículo, foi encontrado morto. A versão oficial? Suicídio.

Castro foi encontrado pendurado com o lençol de sua cama em seu pescoço. O laudo de sua morte afirmou enforcamento devido à tentativa de suicídio. Além disso, os médicos afirmaram que foi possível observar alguns hematomas em seu corpo, principalmente na região dos seus joelhos.

Os questionamentos não demoraram a surgir. Os companheiros do guerrilheiro contestaram a tese de suicídio, e um deles, Gregório Mendonça, até mesmo alegou ter visto o corpo envolvido em um lençol, dizendo que não era possível saber se ele já estava morto quando foi posto na cela ou se teria morrido no local após o longo interrogatório.

Outros guerrilheiros de Caparaó / Crédito: Wikimedia Commons

 

A situação relembra outro acontecimento muito parecido que sucedeu, também, durante a ditadura militar. Em 1975, anos depois da morte do sulista, o jornalista Vladimir Herzog também sofreria com a acusação de suicídio, somente com diferentes lençóis e no DOI-CODI, em São Paulo.

Como conseguiria um homem de mais de 1,80m se enforcar em uma torneira que tinha, no máximo, 1,20m de altura? O lençol utilizado também causou dúvida, visto que tinha apenas 40 cm de comprimento. As obscuras condições para a morte passaram muito tempo na cabeça de familiares e até mesmo dos outros presos em Linhares.

Foi apenas em 2000, 33 anos após a morte de Castro, que o jornal Tribuna de Minas resolveu ir fundo nesse caso e aprofundar em uma longa investigação sobre a morte do guerrilheiro de Santa Maria. Naquele ano, a jornalista Daniela Arbex foi atrás de dados que pudessem confirmar sua real causa de óbito, concluindo a jornada de busca em uma reportagem que contestava a versão oficial.

De acordo com a repórter, o corpo de Castro foi enterrado na sepultura de número 312, quadra L, no Cemitério Municipal de Juiz de Fora, Minas Gerais. No entanto, os parentes do preso não aprovaram o requerimento de exumação dos restos mortais, o que faz com que o caso permaneça em aberto.

A Comissão Nacional da Verdade, nos dias de hoje, ainda considera Milton Soares de Castro um desaparecido político do período da ditadura militar brasileira.


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