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Quem matou PC Farias? Um dos crimes mais chocantes do Brasil

O episódio que resultou na brutal morte do corrupto ex-tesoureiro de Collor está longe de ser esclarecido

Lira Neto Publicado em 15/02/2020, às 11h00

Tese do crime passional está mais que descartada
Tese do crime passional está mais que descartada - Claudio Versiani/Divulgação

Na noite de 22 de junho de 1996, um sábado, logo depois de passar no cabeleireiro, a alagoana Suzana Marcolino da Silva estacionou seu Fiat Tipo azul-metálico, que havia ganhado de presente do namorado, em frente a uma locadora de vídeos em Maceió.

Com salto alto, penteado de festa, unhas pintadas de vermelho e batom da mesma cor, ela entrou na loja e, alguns minutos depois, saiu de lá com uma fita VHS dentro de uma sacola plástica.

Suzana conferira a prateleira dos lançamentos e decidira-se pelo filme O Assassino, de James Lemmo, thriller que gira em torno de um misterioso homicídio e sua consequente investigação, na qual se busca desvendar se o assassinato em questão tratava-se ou não de um crime passional.

De volta ao carro, Suzana deu a partida e rumou para a casa de praia onde o namorado, Paulo César Farias, o PC, a esperava para jantar. Os dois beberam uísque, vinho, champanhe e comeram camarão até cerca de 0h30, acompanhados de um irmão de PC, Augusto, e da namorada deste, Milane.

Suzane jamais assistiria ao filme que alugara no início daquela noite. Na manhã seguinte, por volta das 11h, ela e Paulo César seriam encontrados mortos, na cama, cada qual com um tiro no peito.

A versão oficial, dada pela polícia de Alagoas, é que, em meio a uma crise de ciúme, Suzana tenha atirado no namorado e, em seguida, apontado o cano curto do revólver de marca Rossi, calibre 38, contra o próprio corpo e puxado o gatilho. Mesmo na época, muitos acharam difícil de engolir.

A tese concorrente é a de que o homicídio seguido de suicídio não passou de uma farsa, providencialmente armada para encobrir o verdadeiro assassino. Durante anos, os dois lados em contenda agarram-se a laudos divergentes, elaborados por diferentes equipes de peritos que, durante a investigação das mortes de Paulo César e Suzana, debruçaram-se sobre o cenário do crime. 

“Não tenho dúvidas de que havia mais alguém na cena do crime, além de PC e Suzana. Foi essa terceira pessoa quem matou os dois”, afirma o jornalista Lucas Figueiredo, autor do livro Morcegos Negros: PC Farias, Collor, Máfias e a História que o Brasil Não Conheceu.

“Essa versão de duplo assassinato é absurda e sensacionalista. A verdade é que Suzana matou Paulo César e em seguida se matou”, rebate o também jornalista Joaquim de Carvalho, repórter que em 1996 cobriu o caso para a revista Veja e depois escreveu um livro sobre o assunto, Basta!: Sensacionalismo e Farsa na Cobertura Jornalística do Assassinato de PC Farias.

Caixa-preta humana

Pelo menos em um ponto os dois lados estavam de acordo: logo após o anúncio da morte de PC Farias, a suspeita de queima de arquivo tornou-se quase inevitável. PC era uma espécie de caixa-preta humana, depositário de alguns dos mais bem-guardados segredos do esquema de corrupção que escandalizara o Brasil e que, menos de quatro anos antes, em 1992, levara ao processo de impeachment e à renúncia do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

Tesoureiro da campanha de Collor à Presidência, PC Farias tornou-se a eminência parda do novo governo, organizando um caixa 2 estimado pela Polícia Federal em cerca de 1 bilhão de dólares. A fortuna era proveniente de uma rede de dinheiro sujo que chegou a manter conexões com a máfia italiana e o crime organizado internacional.

Em junho de 1993, um dia antes de ter sua prisão decretada pela Justiça, sob acusação de falsidade ideológica e de abertura de contas bancárias ilegais no exterior, PC Farias escafedeu-se.

Passou 152 dias foragido, despistando seguidamente a Polícia Federal e a Interpol, esgueirando-se pelo Paraguai, Argentina, Uruguai, Inglaterra e Tailândia, onde finalmente foi preso, em novembro daquele ano, após recorrer ao inacreditável disfarce de príncipe árabe durante sua permanência em Londres.

Em dezembro de 1995, depois de cumprir dois dos sete anos a que havia sido condenado, foi posto em liberdade condicional. Na cadeia, conhecera Suzana Marcolino, uma moça 24 anos mais nova que ele. Certa tarde, ela fora levada até a cela especial no Corpo dos Bombeiros, onde Paulo César Farias cumpria pena, por uma antiga funcionária de uma das muitas empresas de PC.

PC Farias e Suzana Marcolino /Crédito: Divulgação

 

A partir de então, Suzana passou a levar vida de princesa. Ganhou joias, roupas caras, carro zero-quilômetro, uma generosa conta bancária e montou uma butique de grife – a Lady Blue – em Maceió. Passou a ser vista com frequência ao lado do namorado recém-liberto, a bordo de uma luxuosa BMW branca conversível.

Apesar da resistência geral da família, especialmente do irmão Augusto, PC oficializou o romance, permitindo que Suzana fosse apresentada à sociedade local justamente no velório do patriarca do clã, Gilberto Farias. O idílio entre os dois foi intenso. E breve.

Seis meses separaram a saída de PC da prisão e aquela manhã de domingo em que ele apareceu morto na casa de veraneio na praia de Guaxuma, na capital alagoana. Imediatamente, a polícia anunciou à imprensa que trabalhava com a hipótese de crime passional.

Enviado a Maceió, um grupo de 11 peritos, liderado pelo legista Badan Palhares, da Universidade Estadual de Campinas, chegou à mesma conclusão: Suzana matara PC, que estava dormindo, e, em seguida, se suicidara. Os seguranças responsáveis pela guarda da casa, em depoimento à polícia, disseram ter ouvido o casal discutindo no quarto logo depois do jantar, quando os convidados, Augusto Farias e a namorada Milane, já haviam ido embora.

Descobriu-se que o revólver encontrado junto aos corpos, sobre a cama, fora comprado por Suzana, com um cheque assinado por ela, uma semana antes do crime. Um exame comprovou ainda a existência de pólvora nas mãos de Suzana.

Além disso, pessoas próximas a PC sabiam que o ex-tesoureiro de Collor, a Morsa do Amor, tido por todos como mulherengo e galanteador, andava traindo a namorada com outra mulher: Cláudia Dantas, filha de José Dantas Rodrigues, um manda-chuva da política local alagoana.

“Segundo os especialistas, todo crime é resultado de uma equação de três variáveis: é preciso que haja o motivo, o instrumento e a oportunidade. Suzana atendia aos três requisitos: o ciúme por estar sendo trocada, o revólver comprado por ela e a embriaguez de PC naquela noite, o que o tornava um alvo fácil”, diz o jornalista Joaquim de Carvalho, que na Veja daquela semana assinaria uma matéria taxativa, intitulada “Caso encerrado”.

Mas não faltou quem se recusasse a acreditar que o poderoso chefão do chamado “Esquema PC” houvesse morrido pelas mãos da namorada, justamente uma semana antes de depor no Supremo Tribunal Federal, em uma investigação sobre suposto pagamento de suborno a membros do governo Collor. PC Farias, claro, sabia demais. Por mais de uma vez, anunciara que escreveria um livro detalhando todo o esquema. Não pagaria sozinho pelos crimes de que fora acusado.

A guerra dos laudos

A primeira voz dissonante em relação à versão oficial partiu de um professor de Medicina Legal da Universidade Federal de Alagoas, George Sanguinetti. Ele concluiu que, pela localização do ferimento, pela posição do corpo de PC, pela estatura de Suzana e pelo ângulo do disparo, “a única forma de ela ter apertado o gatilho era se estivesse levitando”.

Outras dúvidas começaram a pipocar quase simultaneamente pela imprensa. “Para o esclarecimento definitivo do caso, foi necessário fazer nova perícia”, diz o delegado Alcides Andrade. Para tanto, os corpos de Suzana e Paulo César foram novamente exumados. “O novo exame nas mãos de Suzana confirmou a presença de pólvora, mas em pequena quantidade, e não se encontraram resíduos de chumbo, bário e antimônio, elementos metálicos que integram as substâncias químicas iniciadoras da espoleta”, afirma o promotor Luiz Vasconcelos.

Mas o detalhe que mais chamou a atenção na chamada “guerra dos laudos” foi a discussão sobre a altura real de Suzana Marcolino. Conforme Palhares, ela media 1,67 metro. De acordo com o novo laudo, ela teria 10 centímetros a menos. Os legistas da segunda equipe recalcularam então a trajetória da bala, tomando como base o buraco que ela deixara na parede, após transpassar o corpo de Suzana.

Concluíram que, se Suzana estava sentada na cama como indicava a primeira reconstituição, o tiro deveria ter passado à altura de sua cabeça, e não atingido o pulmão esquerdo, como o fizera.

Mesmo com as dúvidas trazidas à luz pelo segundo laudo, o caso prosseguiu arquivado. Entretanto, em 1999, uma série de matérias publicadas pelo jornal Folha de S.Paulo estampou oito fotos de Suzana ao lado de PC e de outras pessoas próximas a ela.

O objetivo era demonstrar que Suzana Marcolino não tinha o 1,67 metro registrado pelo primeiro laudo. Mesmo equilibrando-se nos saltos altos, ela aparecia nas fotos um pouco mais baixa do que o atarracado PC, que tinha apenas 1,63 metro. O caso foi imediatamente reaberto.

O inquérito concluído por Vasconcelos em agosto de 1999 decidiu pelo indiciamento de Augusto Farias e dos quatro seguranças que faziam a guarda da casa de praia de PC em Guaxuma. Entretanto, como exercia mandato de deputado federal, Augusto contou com a prerrogativa de ter seu processo remetido à Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília.

A PGR recomendou o arquivamento do caso, aceitando a tese de homicídio seguido de suicídio. Com base nisso, o Supremo Tribunal Federal deu por encerrado o processo. Apenas os quatro seguranças de PC Farias – os cabos Adeildo Costa dos Santos e Reinaldo Correia da Silva Filho, bem como os soldados José Geraldo da Silva Santos e Josemar Faustino dos Santos – iriam a júri popular em Maceió. 

Crédito: Divulgação

 

O advogado dos seguranças, José Fragoso Cavalcante, cujos honorários são pagos por Augusto Farias, apostou na absolvição de seus clientes e acertou. Em maio de 2013, os 4 seguranças foram a júri popular, mas, por falta de provas, acabaram absolvidos.

O júri também descartou a possibilidade de homicídio seguida de suicídio por parte da namorada do empresário,"Não há crime passional com único disparo e o tiro deflagrado foi de profissional. Jamais Suzana Marcolino teria condições de ser a autora do disparo. Havia uma hemorragia interna com 1 litro de sangue no pulmão esquerdo e meio litro no pulmão direito.", afirma o laudo de Sanguinetti. 

Foi concluído que PC Farias foi assassinado por queima de arquivo e a sua namorada era apenas a pessoa errada, no lugar errado. O telefone celular de Suzana, que sumiu da cena do crime, jamais foi encontrado e o autor do crime permanece desconhecido após anos. 

Resta saber: quem foi o culpado? E o que vai acontecer com os responsáveis pela versão oficial?


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